Em 1989, a TV Bandeirantes colocou no ar o primeiro debate entre candidatos à Presidência da República da televisão brasileira. Nos bastidores do estúdio estava Fernando Mitre, o jornalista mineiro que articulou a realização do formato e fez dele um marco da cobertura eleitoral no país. Mais de três décadas depois, ele continua na mesma mesa: é o diretor nacional de Jornalismo da Band.
Nascido em Oliveira, no interior de Minas Gerais, Mitre passou por jornais, televisão e rádio antes de chegar à direção do jornalismo da rede. Hoje, a rotina divide espaço entre a gestão das redações, os comentários de política e economia e as entrevistas que conduz no Canal Livre.
De Minas para a fundação do Jornal da Tarde
Formado em Letras, com pós-graduação em Teoria Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Mitre começou no jornalismo em 1963, como repórter do Correio de Minas. Também passou pelas redações do Diário de Minas e do semanário O Binômio antes de integrar a equipe que fundou o Jornal da Tarde, em São Paulo, sob o comando de Mino Carta e, mais tarde, de Murilo Felisberto.
No Jornal da Tarde, ocupou diferentes funções até assumir a direção de redação, cargo que manteve por 13 anos. No início da década de 1980, participou da criação das capas em sequência que marcaram a cobertura da campanha das Diretas Já — trabalho pelo qual recebeu o Grand Prix do Clube de Criação de São Paulo. Durante dez anos, assinou uma coluna com o próprio nome no jornal, atividade que se somou à crítica literária que chegou a exercer em parte da carreira.
O debate presidencial que virou padrão da TV
O convite para trabalhar na Band chegou em 1989, mesmo ano em que a emissora realizou o primeiro debate presidencial da televisão brasileira. A Band já promovia encontros entre candidatos a governos estaduais desde 1982, mas foi a partir dali que o modelo chegou à corrida pelo Palácio do Planalto.
"Coube à Band realizar o primeiro debate entre candidatos à Presidência da República. Depois disso nunca mais deixou de realizá-los", declarou Mitre ao Portal dos Jornalistas. Desde então, a emissora promoveu mais de 30 debates eleitorais, dos embates da redemocratização às transmissões feitas também pela internet, que mudaram a escala do formato.
Colegas de redação creditam a ele parte das inovações que o formato recebeu nas últimas eleições. Rodolfo Schneider, atual coapresentador do Canal Livre, afirma na orelha de Debate na Veia que o segundo turno da disputa paulista de 2022 teve "o debate com a menor interferência do mediador na história da TV brasileira" — ideia atribuída a Mitre.
Direção nacional de Jornalismo da Band
Mitre ocupa a direção nacional de Jornalismo da Rede Bandeirantes desde março de 1999, em uma relação com a emissora que, segundo o Portal dos Jornalistas, incluiu três saídas e retornos. Na função, responde pela produção jornalística da rede e assina comentários políticos e econômicos no Jornal da Band e no Jornal da Noite. Na BandNews TV, apresenta a coluna eletrônica A Notícia.
O ritmo de trabalho que ele descreve é compatível com o tamanho da operação: "Em nenhuma das minhas fases profissionais, trabalhei menos de 12 horas por dia", contou ao Portal dos Jornalistas. Sobre o estilo que imprimiu à programação da casa, ele costuma resumir em uma frase: "Prefiro sempre a diferença."
Canal Livre e a entrevista em profundidade
Um dos palcos fixos de Mitre é o Canal Livre, talk-show jornalístico da Band no ar desde 1980 e dedicado a entrevistas em profundidade com personalidades nacionais e internacionais. Ele passou a mediar o programa em 2016, em uma linha de apresentadores que inclui Boris Casoy, entre 2008 e 2016, e Ricardo Boechat.
Prêmios, livros e reconhecimento
Além do Grand Prix do Clube de Criação, Mitre recebeu o Grande Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e o Prêmio Líbero Badaró, ambos em 1989. Em 2010 e 2012, venceu o Prêmio Comunique-se na categoria Executivo de Veículo de Comunicação. Em 2012, foi um dos 15 jornalistas entrevistados no curso "A história viva do jornalismo paulista", promovido pela USP.
Em 2023, publicou Debate na Veia — nos Bastidores da Tevê, a Democracia no Centro do Jogo (Letra Selvagem), com prefácio do antropólogo Roberto DaMatta. O livro reúne histórias de 62 anos de cobertura política e ganhou segunda edição em junho de 2025. Mitre contou que escreveu a obra pelo celular, em seis meses, depois das eleições de 2022: "Pesquisei durante 62 anos e escrevi em seis meses."
Marcos da trajetória
- 1963 — entra no jornalismo como repórter do Correio de Minas;
- Anos 1960 — integra a equipe fundadora do Jornal da Tarde, onde chega à direção de redação;
- 1989 — participa da produção do primeiro debate presidencial da TV brasileira, na Band;
- 1999 — assume a direção nacional de Jornalismo da Band;
- 2016 — passa a mediar o Canal Livre;
- 2023 — lança Debate na Veia, seu livro sobre os debates eleitorais na televisão;
- 2025 — o livro ganha segunda edição.
Seis décadas depois de estrear no Correio de Minas, Mitre segue à frente do jornalismo de uma das principais redes de televisão do país — e o debate eleitoral na TV brasileira, que ajudou a inventar, continua sendo o assunto que ele acompanha de perto em cada eleição.



