Luiz Alberto Ferreyra dos Santos (Recife, 22 de abril de 1902 — Recife, 3 de agosto de 1985) foi médico, farmacêutico, professor, artista plástico e poeta. Recifense de nascimento e de vida, atravessou o século XX com uma trajetória que uniu a farmacognosia, o ensino médico e a literatura, campos que raramente se encontram na mesma biografia. Em Pernambuco, ficou conhecido tanto pela atuação como professor e fundador de entidades quanto pela parceria com o compositor Capiba, com quem assinou a Valsa Verde e o frevo De chapéu de sol aberto.
Essa dupla face, a do cientista e a do poeta, explica por que seu nome reaparece em livros de memória da medicina pernambucana, em registros do carnaval e em acervos dedicados à música do estado. Ele ajudou a criar algumas das instituições que até hoje reúnem médicos escritores e estudiosos da história da saúde em Pernambuco.
Formação em odontologia, farmácia e medicina
Ferreyra dos Santos formou-se em odontologia, farmácia e medicina, sequência pouco comum de diplomas que moldou toda a sua carreira profissional. Como docente, lecionou literatura no Ginásio Pernambucano, foi professor de ginecologia na Faculdade de Medicina do Recife e chegou a professor catedrático de farmacognosia na Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Na UFPE, a atuação na farmacognosia, área que estuda os princípios ativos de origem natural, foi reconhecida com o título de professor emérito. A produção docente e literária se estendeu por mais de cinco décadas, entre as primeiras publicações, no fim da década de 1910, e a edição póstuma de 1986. A medicina e a farmácia deram a base científica; a literatura e as artes visuais ocuparam o restante do tempo.
A parceria com Capiba e a Valsa Verde
A aproximação com Capiba, nome artístico de Lourenço da Fonseca Barbosa, rendeu a Ferreyra dos Santos um lugar na história da música pernambucana. A Valsa Verde, composta para ser executada na festa de sua formatura, ganhou as formaturas de medicina do Recife por vários anos e se tornou uma das valsas mais lembradas do repertório local. O acervo do Instituto Casa do Choro registra a parceria entre os dois e aponta a valsa como um grande sucesso.
A dupla também assinou o frevo De chapéu de sol aberto, cantado no carnaval de Pernambuco muito depois da morte dos dois autores. A letra de Ferreyra dos Santos e a música de Capiba formam um par que conecta a poesia escrita ao cancioneiro popular do estado, e essa ponte entre a palavra impressa e a canção é um dos traços mais característicos de sua obra.
Os livros de poesia
Antes de se firmar como professor, Ferreyra dos Santos já publicava poesia. Seu primeiro livro, Folhas Esparsas, é de 1919, quando ele tinha 17 anos. A obra poética acompanhou toda a sua vida:
- Folhas Esparsas (1919)
- Fogo (1926)
- Romantismo (1932)
- Inevitavelmente depois (1962)
- Há uma estrela no céu (1965)
- Ronda das Horas (1986, edição póstuma)
Os títulos circularam em tiragens pequenas, o que torna exemplares usados itens procurados por colecionadores e por pesquisadores da literatura pernambucana. O livro de 1965, Há uma estrela no céu, aparece catalogado no acervo do Open Library, que também registra dados de sua produção. Além da poesia, Ferreyra dos Santos participou de exposições de pintura e escultura, atividade paralela que aparece em sua biografia e mostra que a criação artística nunca ficou restrita ao papel.
Academias e a presidência da SOBRAMES
A atuação institucional foi tão marcante quanto a obra. A Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (SOBRAMES) foi criada em 1965, em São Paulo, para reunir médicos que se dedicam à literatura não científica, e a regional pernambucana nasceu em 24 de fevereiro de 1972, durante o IV Congresso Brasileiro de Escritores Médicos, em Salvador. Ferreyra dos Santos participou da fundação da regional de Pernambuco e integrou sua primeira diretoria como secretário.
Entre 1976 e 1978, presidiu a SOBRAMES em âmbito nacional. Foi nessa condição que fundou a regional do Piauí, ampliando o alcance da entidade. Sua passagem pela presidência é lembrada na Galeria Fotográfica dos Presidentes Nacionais da SOBRAMES, mantida no Memorial da Medicina de Pernambuco, no Recife, e inaugurada em 2001.
Também esteve entre os fundadores da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, onde ocupou a cadeira número 1, e da Academia Pernambucana de Medicina, fundada em 17 de dezembro de 1970, na qual é o fundador da cadeira 45.
Reconhecimento e legado
Além do título de professor emérito da UFPE, Ferreyra dos Santos é patrono da cadeira 36 da Academia Goianiense de Letras. Em 2002, ano do centenário de seu nascimento, foi publicado o documentário biobibliográfico Ferreyra dos Santos no Caminho do Tempo, assinado por L. A. Fernandes Soares, que reúne em um único volume dados de sua trajetória e de sua bibliografia.
Entre a farmácia, a medicina, a poesia e o carnaval, a trajetória de Ferreyra dos Santos explica por que seu nome reaparece sempre que se estuda a literatura e a medicina em Pernambuco. Ele morreu no Recife, em 3 de agosto de 1985, deixando livros, canções e instituições que ajudou a fundar.


