Em 10 de junho de 2013, Flávio Fachel estreou na bancada do Bom Dia Rio com uma proposta simples de enunciar e difícil de executar: fazer o telejornal matutino da TV Globo no Rio de Janeiro perguntar mais, cobrar mais e aproximar notícia de serviço. Mais de uma década depois, o bordão "Olha a hora!", usado para chamar o telespectador de volta a cada bloco, virou fala de rua entre os cariocas — e o jornalista segue como apresentador e editor-executivo da atração.
Nascido em Porto Alegre, em 3 de agosto de 1965, Fachel construiu uma trajetória que atravessa o interior do Rio Grande do Sul, os rios da Amazônia, a redação da Globo no Rio e dois anos como correspondente internacional em Nova York. Antes de virar âncora, foi repórter de rua — e é essa fase que ele costuma apontar como a mais decisiva da própria formação.
Da engenharia ao telejornalismo: uma carreira decidida no meio do caminho
O plano original não tinha televisão nem jornalismo. Filho do publicitário Renato Basso Fachel, ele cresceu admirando a profissão do pai e chegou a ingressar em Engenharia Civil, decisão tomada aos 16 anos. Foi só depois de se alistar e servir como tenente do Exército em Manaus, por cinco anos, que o caminho mudou: sem faculdade de Publicidade na cidade, escolheu Jornalismo como a área mais próxima do que queria fazer.
O diploma veio em 1993, pela Famecos, a Faculdade de Comunicação Social da PUC-RS. A entrada na TV aconteceu por meio do projeto Caras Novas, do Grupo RBS, para o qual foi incentivado pela jornalista Alice Urbim. Fachel passou seis meses aprendendo todas as funções de televisão até encarar a primeira missão: cobrir férias por três meses na RBS TV de Cruz Alta, no interior gaúcho. Ficou seis anos na empresa, passou pela edição e chegou a repórter — e foi um plantão de sábado que o levou à rede.
O plantão que mudou tudo
Sem repórter disponível em Porto Alegre, ele foi escalado para cobrir um grupo de turistas isolado pela chuva na serra de Maquiné. A matéria rodou no Jornal Nacional, e a reportagem de rede nunca mais saiu da rotina. Em 1998, veio a escolha que definiria o resto da carreira: entre uma filial no Mato Grosso do Sul e a Amazônia, ficou com a segunda.
- 1993 — diploma em Jornalismo pela Famecos (PUC-RS);
- 1998 — inicia a cobertura da Amazônia para a rede Globo, baseado em Manaus;
- 2000 — transfere-se para o Rio de Janeiro e recebe o Prêmio Interamericano de Jornalismo Ambiental;
- 2001 — ganha o Prêmio Esso de Telejornalismo pela série Feira das Drogas;
- 2010 — assume a correspondência da Globo em Nova York;
- 2013 — estreia como apresentador e editor-executivo do Bom Dia Rio.
A Amazônia que moldou o repórter
Baseado em Manaus, Fachel cobriu por dois anos um terço do território brasileiro, com reportagens para o Jornal Nacional, o Globo Repórter e o Fantástico. Conheceu a aldeia Yanomami, o pico do monte Roraima, o rio Negro, o rio Solimões e o interior da floresta. Em depoimento ao Memória Globo, definiu o período como "a melhor parte da minha carreira inteira" e disse ter aprendido ali o olhar que carrega até hoje — o de procurar as pessoas que vivem na floresta, longe do mapa verde que o país aprendeu a ver.
Dessa fase saiu a reportagem sobre seringueiros que passaram a derrubar a floresta depois do fim do comércio da borracha, trabalho reconhecido com o primeiro Prêmio Interamericano de Jornalismo Ambiental, em 2000. Era o primeiro grande prêmio de uma carreira que, no Rio de Janeiro, ganharia contornos de denúncia.
Tim Lopes, a feira de drogas do Alemão e o Prêmio Esso
Na editoria Rio, a primeira reportagem de peso foi uma investigação sobre uma quadrilha de policiais rodoviários que vendia carteiras falsas em um posto da Via Dutra — caso que terminou com os envolvidos demitidos. O reconhecimento nacional veio em 2001, com a série sobre a "feira livre" de drogas no Complexo do Alemão. O material começou a ser reunido por Tim Lopes, repórter com quem Fachel trabalhava e de quem se tornou grande amigo. As imagens mostraram traficantes anunciando maconha e cocaína em plena rua, em plena rua, à vista de quem passava.
A série, exibida no Jornal Nacional em 3 de agosto de 2001, deu à equipe o primeiro Prêmio Esso de Telejornalismo da história da premiação. Tim Lopes seria assassinado pela facção um ano depois, durante outra reportagem no mesmo conjunto de favelas — perda que Fachel ainda hoje lembra com pesar.
Correspondente em Nova York
Em 2010, veio o convite para representar a Globo como correspondente internacional em Nova York. Foram dois anos de cobertura que incluíram a erupção do vulcão Eyjafjallajökull, na Islândia, a destruição de cidades do meio-oeste dos Estados Unidos por tornados e o caso da brasileira Mônica Burgos, assassinada em Cancún, no México. Para o jornalista, a diferença do correspondente está menos na técnica e mais no repertório cultural: entender o país de fora para explicar a notícia a quem está no Brasil.
Bom Dia Rio: a bancada desde 2013
A volta ao Brasil aconteceu em 2012. Pouco depois, com a mudança de Ana Luiza Guimarães para o RJTV, Fachel foi convidado a assumir a apresentação e a edição-executiva do Bom Dia Rio. Desde a estreia, em 10 de junho de 2013, o telejornal ganhou um tom mais crítico e opinativo, com cobranças frequentes ao poder público, e passou a tratar mobilidade, transporte e serviços como assunto de primeira página.
Ao lado de Silvana Ramiro, que assina a coapresentação, ele comanda uma das faixas matinais de maior audiência da televisão brasileira, na janela que vai das 6h às 8h30. Foi do programa que saiu outro bordão repetido pelas ruas: "Enquanto o foco for na passagem e não no passageiro, nada vai mudar", síntese da cobertura que o telejornal faz da mobilidade urbana fluminense.
Desde 19 de janeiro de 2019, Fachel também integra o rodízio de apresentadores eventuais do Jornal Nacional, o mesmo telejornal que teve William Bonner como âncora e editor-chefe por quase três décadas.
O livro que nasceu no Twitter
Fora da bancada, Fachel mantém desde 2009 uma rotina de publicar dicas de telejornalismo para quem está começando. As orientações — mais de mil delas — foram reunidas no livro Dicas de #Telejornalismo, lançado de forma independente em agosto de 2011 e voltado a estudantes de Comunicação Social e jornalistas em início de carreira, o mesmo público que o motiva a dar palestras e a ensinar. O material reflete a filosofia de trabalho que ele resume em uma frase repetida nas redações: "Vamos para a rua, reportagem está na rua, se ela existe está lá."
Para quem quer acompanhar o dia a dia do jornalista, o Instagram (@flaviofachel) reúne mais de 200 mil seguidores, e o X, onde as dicas começaram, segue ativo. Da reportagem no interior gaúcho ao comando de um telejornal diário, a trajetória de Fachel passa por quase todas as funções de uma redação de televisão — e é essa bagagem que ele transforma em orientação para quem começa agora.



