Em 1991, o prêmio Araxá de melhor roteirista foi para um nome que vinha dos fanzines e das revistas independentes de Belém: Gian Danton. O reconhecimento chegou cedo e abriu uma carreira que passaria por editoras de quadrinhos, redações de jornal, salas de aula universitárias e uma pesquisa de doutorado sobre ficção e realidade. Gian Danton é o pseudônimo de Ivan Carlo Andrade de Oliveira, escritor, jornalista, professor da Universidade Federal do Amapá e um dos principais nomes brasileiros quando o assunto é roteiro para histórias em quadrinhos.
Nascido em Lavras, Minas Gerais, em 1971, Ivan Carlo construiu a carreira longe do eixo Rio-São Paulo. A trajetória começou em Belém, no fim dos anos 1980, passou por Curitiba e se fixou em Macapá, onde vive e leciona. Foi nessa cidade que ele foi eleito, em 2022, para a Academia Amapaense de Letras.
Quem procura Gian Danton costuma chegar por dois caminhos: pelos quadrinhos, especialmente por Manticore e O Gralha, ou pelos livros que ensinam a escrever roteiros. Os percursos se cruzam. A mesma pessoa que criou histórias de terror e ficção científica passou a estudar a estrutura narrativa que usava e transformou essa prática em aula, pesquisa e publicação.
Como Gian Danton entrou nos quadrinhos
A primeira história publicada veio em Floresta Negra, desenhada por Joe Bennett e lançada na revista Calafrio, da editora D-Arte. O começo nos fanzines e nas revistas independentes explica o tipo de formação que Gian Danton teve: aprendizado na prática, convivência com desenhistas e leitura obsessiva de gêneros populares. Antes de chegar às grandes editoras, ele circulou por publicações como ICEA, Nova Sampa e Metal Pesado, até publicar nos Estados Unidos pela Fantagraphics.
O trabalho que o tornou conhecido foi Manticore, graphic novel sobre o chupacabra com influência do seriado Arquivo X e da ficção científica americana. A obra recebeu o Troféu Angelo Agostini, o Troféu HQ Mix e o prêmio da Associação Brasileira de Arte Fantástica. Em 1997, veio o fanzine A Difícil Arte de Escrever Quadrinhos, primeiro esforço de transformar sua experiência em método. No mesmo período, participou da criação de O Gralha, herói coletivo publicado em Metal Pesado, na Gazeta do Povo e na revista Wizard.
Também assinou o texto de Histórias de Guerra, álbum desenhado por Eugênio Colonnese pela Opera Graphica, e roteirizou A Insólita Família Titã, série criada com Joe Bennett. Em 2010, escreveu com JJ Marreiro uma história do Astronauta para o álbum MSP+50, homenagem aos 50 anos de carreira de Mauricio de Sousa.
O caso Francisco Iwerten e a virada acadêmica
No centro da produção de Gian Danton está um episódio que mistura criação, mercado e teoria. O quadrinista Francisco Iwerten e seu personagem Capitão Gralha foram apresentados como parte da história dos quadrinhos brasileiros e ganharam espaço em reportagens, artigos e programações de eventos. A narrativa era ficcional, mas foi tomada como real por parte do público e da imprensa. A revelação de que Iwerten nunca existiu transformou o caso em objeto de uma tese de doutorado defendida por Ivan Carlo na Universidade Federal de Goiás.
Dessa pesquisa nasceu Hiper-realidade e simulacro nos quadrinhos: a fantástica história de Francisco Iwerten, publicado pela Marca de Fantasia em 2019. O livro discute como a ficção pode ser confundida com a realidade, analisa o processo criativo do qual o autor participou e examina outros casos em que a arte brincou com os limites do real. É um dos raros trabalhos brasileiros que olham para os quadrinhos a partir de um caso concreto de simulação, em vez de partir apenas da teoria.
A experiência acadêmica não afastou Gian Danton da ficção. Ela aparece em romances como Cabanagem, que mistura a revolta histórica de 1835 a 1840 com mitologia amazônica, e em livros como Galeão, O Anjo da Morte e Parallela Mundi. Também escreveu o infantil Os Gatos e participou de antologias de ficção científica, terror e fantasia.
Professor, pesquisador e formador de roteiristas
Na Universidade Federal do Amapá, Gian Danton leciona e pesquisa comunicação. A sala de aula ajudou a organizar o conhecimento acumulado desde os fanzines. Dessa combinação saíram manuais que hoje são referência para quem quer aprender a escrever quadrinhos, como O Roteiro nas Histórias em Quadrinhos e Como escrever quadrinhos, finalista do Troféu HQ Mix.
Em 2020, publicou pela Tagore Editora A Bíblia do Roteiro de Quadrinhos, escrita a seis mãos com Alexandre Lobão e Leonardo Santana. Com 340 páginas, o livro cobre desde a criação de personagens e a estrutura do roteiro até recursos de narrativa audiovisual. Já Jornalismo em Quadrinhos, de 2022, leva sua experiência de repórter para a narrativa gráfica: traça a história do gênero, analisa obras brasileiras e internacionais e mostra o processo de produção de uma reportagem em quadrinhos, usando a série Psicopatas como exemplo.
Além dos livros, mantém os blogs Ideias de Jeca-tatu e Roteiro de Quadrinhos, o canal no YouTube e uma coluna no site Digestivo Cultural, onde escreve desde 2001. Também colaborou com a revista MAD e com publicações da Escala Educacional, como Conhecimento Prático Literatura e Conhecimento Prático Filosofia. Em 2026, lançou Roteiro para audiovisual pela Marca de Fantasia.
Literatura fantástica, jornalismo e reconhecimento
A formação em jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo aparece em toda a obra. Gian Danton trata os quadrinhos como linguagem e como campo de reportagem, o que explica o interesse por temas como metodologia científica, comunicação e cultura pop. Essa ponte entre prática e reflexão o levou à Academia Amapaense de Letras em 2022, na cadeira que havia sido do professor Gabriel de Almeida Café.
O reconhecimento veio também em premiações. Além do Araxá de 1991, recebeu o Troféu Angelo Agostini de melhor roteirista em 2000. Manticore acumulou os principais troféus dos quadrinhos brasileiros e segue como uma de suas obras mais citadas. Nas últimas décadas, Gian Danton ampliou o campo de atuação: escreveu sobre ciência, quadrinhos e comunicação, organizou antologias e participou de projetos que aproximam a produção acadêmica do leitor comum.
Por onde começar a ler Gian Danton
Quem chega agora à obra dele pode escolher a porta de entrada conforme o interesse:
- Roteiro: A Bíblia do Roteiro de Quadrinhos, com Alexandre Lobão e Leonardo Santana, para quem quer um manual amplo; Como escrever quadrinhos, para uma introdução prática e direta.
- Jornalismo: Jornalismo em Quadrinhos, que une história, análise e método de produção.
- Pesquisa: Hiper-realidade e simulacro nos quadrinhos, para entender o caso Francisco Iwerten e a relação entre ficção e realidade.
- Ficção: Cabanagem, romance de fantasia histórica ambientado na Amazônia, e Galeão, que se passa no Atlântico do século XVII.
Essa variedade não é dispersão. O roteiro, a reportagem e a pesquisa alimentam um ao outro na obra de Gian Danton. O roteirista que começou nos fanzines de Belém se tornou professor, divulgador de técnica e autor de ficção sem abandonar o interesse pela cultura pop que o levou aos quadrinhos. Sua trajetória ajuda a entender como o quadrinho nacional transformou a prática de fanzine em campo de pesquisa e mercado editorial.






