Glória Maria Matta da Silva cobriu a queda do Elevado Paulo de Frontin, no Rio de Janeiro, em 1971, no início de uma carreira que atravessaria mais de cinco décadas na TV Globo. A reportagem de rua marcou a estreia de uma jornalista que, nas décadas seguintes, se tornaria uma das faces mais reconhecíveis do telejornalismo nacional, apresentaria o Fantástico e o Globo Repórter e levaria o público a mais de cem países. Glória morreu em 2 de fevereiro de 2023, aos 73 anos, depois de uma carreira de mais de cinco décadas na TV Globo.
Ela nasceu no Rio de Janeiro, em 15 de agosto de 1949, e cresceu em Vila Isabel, na Zona Norte. Filha do alfaiate Cosme Braga da Silva e da dona de casa Edna Alves Matta, estudou em colégios públicos e, em depoimentos ao Memória Globo, contou que aprendeu inglês, francês e latim e vencia os concursos de redação da escola. Antes da televisão, trabalhou como telefonista. A aproximação com a Globo começou quando foi levada por uma amiga para atuar como radioescuta, no início dos anos 1970, enquanto cursava Jornalismo na PUC-Rio.
A primeira matéria como repórter veio em 1971, na cobertura do desabamento do elevado. Na época, os jornalistas ainda não apareciam no vídeo; Glória foi uma das profissionais que ajudaram a mudar essa lógica. Em 1977, protagonizou a primeira entrada ao vivo e em cores do Jornal Nacional, mostrando o movimento de carros na saída do Rio de Janeiro em um fim de semana. A transmissão quase deu errado: uma lâmpada queimou minutos antes, e a equipe precisou improvisar com o farol de uma Veraneio para iluminar o rosto da repórter.
Do Jornal Nacional ao Fantástico
Antes de chegar ao Fantástico, Glória passou pelo Jornal Hoje, pelo Bom Dia Rio e pelo RJTV. No Jornal Nacional, cobriu a posse de Jimmy Carter, em Washington, e entrevistou chefes de Estado durante o regime militar, entre eles o presidente João Baptista Figueiredo. Também foi enviada à Guerra das Malvinas, em 1982, e aos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, onde conseguiu um furo: o velocista Carl Lewis antecipou parte do juramento olímpico com exclusividade para o Fantástico.
Glória integrou a equipe do Fantástico a partir de 1986 e apresentou o programa entre 1998 e 2007, ao lado de nomes como Pedro Bial. Foi nessa fase que se consolidou como repórter de viagens e entrevistas: passou por desertos, zonas de conflito, aldeias e grandes centros, e conversou com Freddie Mercury, Madonna, Mick Jagger, Michael Jackson, Harrison Ford, Nicole Kidman e Leonardo DiCaprio, entre outras celebridades. Em 1996, acompanhou Michael Jackson durante a gravação do clipe de “They Don’t Care About Us” no morro Dona Marta, no Rio.
Um dos encontros mais lembrados aconteceu por acaso. Em 24 de dezembro de 1984, Glória encontrou Carlos Drummond de Andrade na rua, durante uma reportagem, e conseguiu uma entrevista com o poeta na véspera de Natal. Em 2007, ela também assinou a primeira transmissão em HD da televisão brasileira, numa reportagem sobre a festa do pequi no Alto Xingu.
Globo Repórter e a curiosidade como método
Depois de dois anos de licença, Glória voltou à Globo em 2010 e pediu para integrar a equipe do Globo Repórter. Estreou com uma matéria sobre Brunei e, no ano seguinte, apresentou “Butão — O País da Felicidade”. O programa se tornou o lugar onde ela combinou reportagem, aventura e observação de costumes: cruzou o deserto do Saara em um dromedário, desceu o rio Colorado de bote, sobrevoou o Grand Canyon, visitou o Vietnã, o Laos e o Camboja, acompanhou a colheita do argan no Marrocos e pulou de bungee jump em Macau.
Em 2019, passou a dividir a apresentação com Sandra Annenberg, depois da aposentadoria de Sérgio Chapelin. A parceria marcou a fase final do programa. Em depoimento ao Memória Globo, ela resumiu o próprio método: “Eu sou uma pessoa movida pela curiosidade e pelo susto. Se eu parar pra pensar racionalmente, não faço nada.” A frase ajuda a entender por que suas reportagens tinham tanto risco e tanta presença de cena.
Pioneirismo, reconhecimento e legado
Glória Maria foi uma das primeiras repórteres negras a conquistar projeção nacional na televisão brasileira, em um ambiente predominantemente branco e masculino. A trajetória dela é citada por jornalistas e pesquisadores como marco de representatividade, e profissionais negras relatam que a presença de Glória na TV abriu caminhos para outras gerações. Ela recebeu a Medalha Chiquinha Gonzaga, da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, em 2008, e prêmios como o Lifetime Achievement, em 2011, e o Troféu Raça Negra, em 2012.
Fora da televisão, Glória preservava a vida privada. Em 2009, adotou as meninas Maria e Laura, que conheceu em uma visita à Organização de Auxílio Fraterno, em Salvador. Dizia-se católica e interessada pela cabala, temas que mencionava com naturalidade em entrevistas. A discrição sobre relacionamentos e família não impedia que ela falasse com humor da própria idade: chegou a declarar publicamente que havia nascido em 1959, versão que contrariava a cronologia da própria carreira.
Em 2019, foi diagnosticada com câncer de pulmão e passou por cirurgia para retirar um tumor cerebral. Morreu em 2 de fevereiro de 2023, no Rio de Janeiro. O governo do estado decretou luto oficial. No ano seguinte, a Editora Mostarda publicou uma biografia infantojuvenil sobre ela; em 2025, a TV Globo exibiu a série documental Gloria, em quatro episódios, com depoimentos de colegas, familiares e amigos.
Marcos de uma carreira longa
- 1971 — estreia como repórter na cobertura da queda do Elevado Paulo de Frontin.
- 1977 — primeira entrada ao vivo e em cores no Jornal Nacional.
- 1982 — cobertura da Guerra das Malvinas.
- 1986 — entrada na equipe do Fantástico.
- 1998 a 2007 — apresentação do Fantástico.
- 2010 — retorno à Globo para integrar o Globo Repórter.
- 2025 — exibição da série documental Gloria, em homenagem à jornalista.
Quem quiser conhecer melhor essa trajetória pode começar pelo perfil dela no Memória Globo, que reúne depoimentos e reportagens, e pela série Gloria, disponível no Globoplay. A biografia infantojuvenil da Editora Mostarda, Glória Maria Matta da Silva, é uma porta de entrada para leitores mais jovens.



