Em 23 de novembro de 2002, Heraldo Pereira de Carvalho sentou-se na bancada do Jornal Nacional e mudou a composição do telejornal de maior audiência do país: era o primeiro jornalista negro a apresentar o programa de forma permanente. A imagem ficou, mas a carreira que levou até ali foi construída longe do estúdio, em redações de afiliadas do interior paulista e depois na rotina de quem acompanha o Congresso todos os dias. Desde 27 de abril de 2026, essa trajetória tem novo endereço: o DF1, da TV Globo DF.
Heraldo nasceu em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, em 1º de setembro de 1961. O jornalismo apareceu antes da faculdade. Ainda adolescente, trabalhou no jornal interno de uma companhia telefônica e, em seguida, na Rádio Clube de Ribeirão Preto. Aos 18 anos, entrou na equipe que ajudou a montar a TV Ribeirão, afiliada da Globo na cidade. Em 1981, foi transferido para a TV Campinas e decidiu cursar jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de Campinas.
Foi nesse período que fez uma das reportagens que costuma lembrar: a cobertura do acidente automobilístico com o saltador João do Pulo. O episódio, contado por ele ao Memória Globo, ajudou a definir o tipo de pauta que passaria a perseguir, ligada a histórias de gente comum afetada por decisões públicas.
De repórter de afiliada a nome da cobertura política
Depois de uma passagem pela TV Manchete, Heraldo foi convidado, em 1985, para trabalhar na Globo em São Paulo. As matérias para o Jornal Nacional o levaram, em 1988, à sucursal de Brasília, onde passou a cobrir o dia a dia do poder. No primeiro ano na capital, acompanhou as discussões da Assembleia Nacional Constituinte e a primeira eleição direta para presidente em quase três décadas.
A lista de coberturas cresceu rápido: a decretação do Plano Collor, o impeachment de Fernando Collor, o lançamento do Plano Real e o escândalo do Mensalão, em 2005. Como repórter em Brasília, acompanhou de perto o governo de Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Também mediou debates políticos na Rede Amazônica, em Manaus, em 2012 e 2016.
Fora do país, dois episódios marcaram a carreira. Em 1991, na África do Sul, fez para o Fantástico uma reportagem sobre os acordos que encerraram o apartheid. Na mesma viagem, conheceu um antigo porto de escravos em Angola, experiência que ele descreve como emocionante por causa da possibilidade de que seus antepassados tenham passado por ali.
Jornal Nacional, Pinga-Fogo e Jornal das Dez
Em 2001, Heraldo voltou à Globo depois de uma passagem pelo SBT e estreou como apresentador do DFTV. Em seguida, cobriu férias no Bom Dia DF. No ano seguinte, passou a integrar o time de apresentadores do Jornal Nacional aos sábados e, em 2002, tornou-se o primeiro jornalista negro a assumir a bancada do telejornal de forma permanente. A estreia aconteceu em 23 de novembro daquele ano.
Durante 15 anos, conciliou as reportagens com comentários políticos no Jornal da Globo. Entre 2007 e 2017, comandou o quadro Pinga-Fogo, em que entrevistava personagens da vida política brasileira. Em 2009, na semana dos 40 anos do Jornal Nacional, foi um dos cinco jornalistas mais experientes do programa homenageados pela emissora.
A experiência em coberturas de grande porte continuou. Em 2010, integrou a equipe enviada à África do Sul para a Copa do Mundo. Em 2011, apresentou ao lado de Renata Vasconcellos a edição do Jornal Nacional que mostrou o drama da população da região serrana do Rio de Janeiro atingida pelas chuvas e pelos deslizamentos.
Em 22 de dezembro de 2017, foi oficializado como apresentador titular do Jornal das Dez, na GloboNews. A mudança levou o telejornal para o estúdio de Brasília e alterou o formato da atração, que passou a ser ancorada na capital com praças permanentes em São Paulo, Rio de Janeiro e Nova York.
Bom Dia Brasil e a volta ao noticiário local
Em 5 de julho de 2021, Heraldo assumiu o Bom Dia Brasil em Brasília, no espaço que havia sido de Giuliana Morrone. À frente do bloco de notícias da capital, passou a comentar política nas manhãs da emissora e a receber autoridades e entrevistados ligados ao Congresso e ao governo federal.
Em abril de 2026, a Globo confirmou sua ida para o DF1, telejornal local do Distrito Federal, onde substituiu Fabiano Andrade. A mudança reduziu sua presença diária no noticiário nacional, mas não o afastou do Jornal Nacional: ele segue no rodízio de apresentadores do telejornal. Na nova função, também atua como repórter especial da emissora em Brasília.
Na comunicação sobre a mudança, Heraldo explicou a escolha com uma frase que resume a relação dele com a cidade: “O Distrito Federal é a minha casa. Vivo aqui há 38 anos, minhas filhas nasceram aqui e tenho um amor profundo por esse quadrado e por sua gente”. O retorno ao jornalismo local acontece depois de quase quatro décadas de cobertura nacional.
Reconhecimento público e marcos da trajetória
Ao longo da carreira, Heraldo recebeu o Prêmio Camélia da Liberdade, em 2008, e o Troféu Raça Negra, em 2011, ambos ligados ao reconhecimento de personalidades negras. A presença na bancada do Jornal Nacional também é tratada por ele como um marco simbólico: em depoimento ao Memória Globo, afirmou que se orgulha de ser um jornalista negro apresentando o telejornal e de servir de exemplo positivo para outros profissionais.
- 1985 — entra na Globo, em São Paulo, depois de passagens por afiliadas e pela TV Manchete;
- 1988 — é transferido para a sucursal de Brasília, onde assume a cobertura política;
- 2002 — estreia na bancada do Jornal Nacional, como primeiro negro a apresentar o telejornal de forma permanente;
- 2007 a 2017 — comanda o Pinga-Fogo, no Jornal da Globo;
- 2017 — assume o Jornal das Dez, na GloboNews;
- 2021 — passa a apresentar o Bom Dia Brasil em Brasília;
- 2026 — torna-se âncora do DF1 e repórter especial da Globo em Brasília.
Onde acompanhar o trabalho de Heraldo Pereira
Hoje, o trabalho dele pode ser visto no DF1, exibido pela TV Globo DF, e nas edições do Jornal Nacional em que participa do rodízio de apresentadores. A trajetória completa, com depoimentos do próprio jornalista sobre a Constituinte, o impeachment de Collor e a cobertura do apartheid, está reunida no perfil mantido pelo Memória Globo.
Para quem acompanha telejornalismo e política brasileira, a carreira de Heraldo Pereira ajuda a entender como a cobertura de Brasília mudou desde os anos 1980, quando a pauta econômica dominava as manchetes, até a era das crises institucionais transmitidas em tempo real. É essa continuidade que explica por que ele segue sendo uma das vozes mais identificáveis do noticiário da Globo.

