Em setembro de 2019, Hildegard Angel recebeu as certidões de óbito da mãe, a estilista Zuzu Angel, e do irmão, Stuart Angel Jones. Os documentos registravam a causa que ela sustentava havia mais de quatro décadas: morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro. O reconhecimento oficial não apagou o passado, mas confirmou publicamente o que a família denunciava desde os anos 1970.
Hildegard Beatriz Angel Bogossian nasceu no Rio de Janeiro em 24 de setembro de 1949. Cresceu em uma família ligada à moda e viu a rotina ser atravessada pela repressão: Stuart foi preso e morto em 1971, e Zuzu morreu em 1976, em um acidente de carro forjado na saída do túnel Dois Irmãos, em São Conrado. Antes do jornalismo, ela passou pelo teatro, pelo cinema e pela televisão. Essa mistura de palco, luto e crônica social ajudou a formar a voz que hoje assina colunas e preside o Instituto Zuzu Angel.
Uma família atingida pela ditadura
Zuzu Angel ganhou projeção internacional ao propor, nos anos 1960, uma moda com identidade brasileira. Quando o filho Stuart Angel Jones, militante de esquerda, foi preso e morto pela Aeronáutica em 1971, a estilista transformou os desfiles em denúncia. Seus vestidos de protesto levaram a denúncia da ditadura brasileira para o exterior, em uma época em que poucos canais davam espaço ao que acontecia no país.
Zuzu morreu em abril de 1976, na saída do túnel Dois Irmãos, em um acidente de carro que a Comissão Nacional da Verdade e, mais tarde, a Justiça reconheceram como ação do Estado. A partir daquele ano, Hildegard começou a recolher as roupas da mãe. O que era luto virou arquivo, e o arquivo virou instituição.
Em 2017, Zuzu foi inscrita no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria. Dois anos depois, vieram as certidões de óbito de Zuzu e de Stuart, com a causa “morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição sistemática e generalizada à população identificada como opositora política ao regime ditatorial de 1964 a 1985”.
Dos palcos à coluna social
A carreira artística começou cedo. Em 1965, Hildegard estreou no teatro em As Feiticeiras de Salém, com direção de João Bethencourt. Nos anos seguintes, passou por montagens dirigidas por Amir Haddad, Paulo Afonso Grisolli, Ziembinski, Zé Celso e Aderbal Freire-Filho, em um percurso que acompanhou a efervescência do teatro carioca entre o fim dos anos 1960 e a primeira metade dos 1970.
- Teatro: As Feiticeiras de Salém (1965), Berenice e A Dama do Camarote (1969), Alice no País Divino Maravilhoso (1970), A Mãe e Vivendo em Cima da Árvore (1971), Freud Explica (1972), A Venerável Madame Goneau (1973), Gracias Señor (1974), Marido, Matriz e Filial (1975) e Bonifácio Bilhões (1976).
- Cinema: O Barão Otelo no Barato dos Bilhões (1971), O Caso Cláudia (1979), Terror e Êxtase e Prova de Fogo (1980).
- Televisão: Selva de Pedra (1972), Dancin' Days (1978), O Pulo do Gato (1978), Os Gigantes (1979) e Celebridade (2003).
Nos anos 1980, ela trocou a atuação pelo colunismo social. Assinou coluna em O Globo e, entre 2003 e 2010, no Jornal do Brasil. O gênero ganhou nela uma camada política, visível nos textos sobre governo, ditadura e memória que passaram a dividir espaço com a agenda de eventos e personalidades.
Outro nome dessa linhagem é Heloisa Tolipan, que também passou pelo Jornal do Brasil. Hildegard, no entanto, construiu um lugar próprio ao cruzar a agenda social com a memória da ditadura e a defesa da moda brasileira.
O Instituto Zuzu Angel e a moda brasileira
Em 1993, com apoio do então prefeito Cesar Maia, Hildegard fundou o Instituto Zuzu Angel de Moda da Cidade do Rio de Janeiro, com sede provisória no Palácio da Cidade. O instituto se apresenta como a primeira ONG de moda do país e nasceu com uma missão dupla: difundir a moda brasileira e manter viva a memória de Zuzu e de Stuart.
Para sustentar o projeto, o IZA formou um conselho consultivo internacional presidido pela enciclopedista americana Eleanor Lambert, com Valentino, Givenchy e Oscar de la Renta entre os membros. A partir dali, o instituto realizou o I Congresso de Moda no Brasil, fundou a Academia Brasileira da Moda, criou e coordenou por 13 anos o primeiro curso superior de Moda do estado do Rio — na Universidade Veiga de Almeida e, depois, na Universidade Estácio de Sá — e lançou a primeira pós-graduação em Moda do país.
O alcance internacional veio por convênios com a Esmod, em Paris, a Université de Lyon, na França, e a Universidade de Matosinhos, em Portugal, além de estágios no Atelier Tirelli, em Roma. Hoje, Hildegard preside o Instituto Zuzu Angel e o Museu da Moda, funções que mantêm a instituição ligada à formação e à preservação do acervo.
O que a Casa Zuzu Angel guarda
A Casa Zuzu Angel, no bairro da Usina, no Rio de Janeiro, funciona como sede do acervo e como espaço de exposições, cursos e visitas. O casarão eclético, com elementos manuelinos, coloniais, neoclássicos, art déco e art nouveau, foi escolhido para abrigar a memória da moda brasileira e a documentação sobre a luta de Zuzu.
O acervo reúne peças de Zuzu e coleções de outras figuras da moda nacional, como Carmen Mayrink Veiga, Casa Canadá (de Mena Fiala), Isabela Capeto, com 200 protótipos, Perla Mattison, Bonita e Glorinha Paranaguá. Há ainda a Coleção Mosaico da Vida Brasileira, que aproxima roupas e acessórios de personagens de diferentes setores da sociedade.
Além de guardar, a casa restaura e conserva têxteis — uma frente que o instituto trata como necessidade patrimonial. Para quem acompanha o setor, a página de moda do diretório ajuda a encontrar outros perfis e projetos ligados ao tema.
Onde ler Hildegard Angel hoje
Hildegard mantém o blog Coluna da Hilde, em hildeangel.com.br, e assina coluna no Brasil 247. Nos textos, a sociedade carioca e a política nacional aparecem lado a lado, com atenção para a memória da ditadura e para os personagens que circulam pelo poder.
Ela também está no X e no Instagram, canais que completam a presença pública da jornalista ao lado do blog e da coluna no Brasil 247. A presença nas redes não substitui o trabalho institucional: serve como extensão da coluna e como ponte para o acervo da Casa Zuzu Angel.
Quem chega ao nome pela coluna política ou pela lembrança da ditadura encontra, na trajetória completa, uma personagem que fez do jornalismo um instrumento de memória — e da memória, uma instituição com endereço, acervo e programa de formação.


