Antes do Prêmio Jabuti e das traduções para vários países, Jeferson Tenório já escrevia de um lugar pouco confortável: a escola pública, a cidade do Sul e a memória de quem aprendeu cedo o peso de ser visto pela cor. Nascido no Rio de Janeiro em 1977 e radicado em Porto Alegre desde os anos 1990, ele se tornou uma das vozes mais lidas da ficção brasileira contemporânea ao transformar experiência racial, precariedade e afeto em romance de formação.
Quem busca o nome dele costuma chegar por O avesso da pele, vencedor do Jabuti de Romance Literário em 2021, mas a trajetória começa antes — em estreias regionais, prêmios gaúchos e uma carreira de professor e pesquisador que alimenta a prosa. Este perfil reúne origem, formação, obras principais e o lugar público que Tenório ocupa na literatura brasileira de agora.
Quem é Jeferson Tenório
Jeferson Tenório é escritor, professor e pesquisador brasileiro. Graduado em Letras e mestre em Literaturas Luso-africanas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), doutor em Teoria Literária pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), ele pesquisa colonialismo, pós-colonialismo, identidade e diáspora africana. Leciona língua e literatura na rede pública de Porto Alegre, cidade da qual recebeu o título de Cidadão Porto-Alegrense em 2022.
A estreia em romance veio em 2013 com O beijo na parede, eleito Livro do Ano pela Associação Gaúcha de Escritores. Seguiram-se Estela sem Deus (2018; nova edição pela Companhia das Letras em 2022), O avesso da pele (2020) e De onde eles vêm (2024). Textos teatrais e contos seus chegaram ao inglês e ao castelhano; direitos de obras foram negociados em países como Itália, Portugal, França, Reino Unido, Suécia, Estados Unidos, Bélgica e China.
De onde vem e por que escreve
Mudou-se com a família para Porto Alegre no início da década de 1990. O contraste entre o Rio da infância e o Sul — clima, sociedade e racismo de contornos próprios — atravessa a ficção. Em entrevistas e materiais biográficos, Tenório liga o impulso de escrever a experiências de abordagens policiais violentas e à vontade de enfrentar o racismo pelo texto literário, sem transformar a vida em panfleto.
Boa parte da obra privilegia narradores jovens ou a reconstituição da juventude negra. O autor costuma dizer que essa escolha amplia empatia e alcança leitores além do círculo estrito de crítica literária. Pobreza, discriminação racial e desigualdade de classes no Brasil são eixos recorrentes, tratados com intimidade de personagem e tensão de formação.
Formação, pesquisa e sala de aula
A base acadêmica não é adorno de biografia: ela aparece no domínio dos temas e no diálogo com a literatura luso-africana. No mestrado, trabalhou com literaturas luso-africanas; no doutorado, com teoria literária. Participou do projeto Cartografias narrativas em língua portuguesa, ligado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da PUC-RS, voltado à promoção de autores, textos e teoria no espaço lusófono.
Na rede municipal de Porto Alegre, a rotina de professor de língua e literatura convive com a escrita e com a coluna. Essa dupla presença — escola e página impressa ou digital — ajuda a explicar o tom de seus romances: atenção ao cotidiano de periferia, à linguagem do aluno e às instituições que formam (ou falham em formar) o sujeito negro no Sul do país.
- Formação: Letras e mestrado em Literaturas Luso-africanas (UFRGS); doutorado em Teoria Literária (PUC-RS).
- Atuação: professor da rede pública de Porto Alegre; colunista de Zero Hora e do portal UOL.
- Reconhecimentos: Livro do Ano AGES (mais de uma obra), patrono da Feira do Livro de Porto Alegre em 2020, Jabuti 2021, Cidadão Porto-Alegrense em 2022.
- Editora atual de destaque: Companhia das Letras, com catálogo que reúne as obras de maior circulação nacional.
As obras que o tornaram conhecido
O beijo na parede (Sulina, 2013) acompanha João, menino de onze anos que tenta se rearmar em Porto Alegre após perder os pais e deixar o Rio. Estela sem Deus (Zouk, 2018) centra a voz de uma adolescente negra entre cidades, corpo, sexualidade e violência. Já O avesso da pele (Companhia das Letras, 2020) reconta, pela voz do filho Pedro, a trajetória do pai Henrique — professor negro assassinado em abordagem policial — e se tornou o romance de maior repercussão do autor, com finalista do Prêmio Oceanos e forte circulação internacional.
Em 2024, De onde eles vêm desloca o foco para o ingresso dos primeiros cotistas na universidade brasileira, em Porto Alegre por volta dos anos 2000. Joaquim, órfão e apaixonado por literatura, enfrenta hostilidade, preconceito e a luta por permanecer no espaço acadêmico. A obra amplia o mapa social já traçado na chamada trilogia do abandono, sem repetir o mesmo enredo.
Para quem quer começar a ler, o caminho mais comum é O avesso da pele; para acompanhar a evolução do projeto narrativo, vale a ordem de publicação. As páginas de cada livro neste diretório aprofundam proposta, público e contexto de cada título.
Prêmios, feira do livro e espaço público
Além do Jabuti e dos prêmios AGES, Tenório venceu concursos de poesia da Prefeitura de Porto Alegre (Poemas no Ônibus e Poemas no Trem) e recebeu menção honrosa no Concurso de Contos Paulo Leminski. Em 2020, foi o primeiro negro eleito patrono da Feira do Livro de Porto Alegre — marco simbólico na cidade em que construiu a carreira. A Câmara Municipal, em 2022, outorgou-lhe o título de Cidadão Porto-Alegrense.
Como colunista, comenta racismo, educação e atualidade. Em textos públicos, abordou o assassinato de João Alberto Freitas em Porto Alegre (2020) e dilemas de educar um filho negro no Brasil. A presença em jornais e portais amplia o alcance além do romance e fixa o autor no debate cultural contemporâneo, em diálogo com a página do autor na Companhia das Letras e com coberturas como a do portal Literafro da UFMG.
Onde acompanhar e o que ler primeiro
Não há site pessoal consolidado como hub único; a referência editorial principal é a Companhia das Letras. Perfis de redes sociais mudaram de status ao longo do tempo — a conta de Instagram do escritor chegou a ser desativada em episódio publicamente denunciado por ele em 2025 —, por isso links oficiais de editora, imprensa e livraria são rotas mais estáveis do que redes voláteis.
Quem chega pelo jabuti de 2021 encontra um autor com obra em progresso, colunas ativas e presença em feiras, entrevistas e universidades. Quem chega pela sala de aula encontra o professor que nunca deixou de ser. Nos dois casos, a literatura de Jeferson Tenório pede leitura atenta: menos ficha de prêmios, mais escuta do que a ficção faz com a pele, a escola e a cidade.




