Durante treze anos, João Moreira Salles manteve intocadas as imagens que gravara em 1992 com Santiago, o mordomo que servira sua família por três décadas. Voltou a elas em 2005, remontou o material e lançou Santiago em 2007, um documentário sobre memória, classe e o próprio ato de filmar. O arquivo abandonado e retomado resume um método: observar, esperar e só então encontrar a forma.
Nascido no Rio de Janeiro em 1962, João é filho do banqueiro e diplomata Walther Moreira Salles e irmão do cineasta Walter Salles. Formou-se em Economia, mas construiu a carreira no cinema, na produção, no jornalismo e na filantropia. Em 1987, fundou com o irmão a VideoFilmes. Em 2006, criou a revista piauí. Em 2017, com Branca Vianna, deu origem ao Instituto Serrapilheira. É autor de Arrabalde: Em busca da Amazônia, publicado pela Companhia das Letras.
Como João Moreira Salles chegou ao documentário
O primeiro trabalho creditado veio em 1985, no roteiro da série Japão, uma Viagem no Tempo, exibida pela TV Manchete. Dois anos depois, ele dirigiu China, o Império do Centro e assinou o roteiro de Krajcberg, o Poeta dos Vestígios, que recebeu prêmios na Itália, em Cuba e no Brasil. Ainda em 1987, os irmãos criaram a VideoFilmes, produtora inicialmente voltada a documentários para televisão.
Entre 1991 e 1996, João trabalhou em publicidade. A experiência no audiovisual comercial não o afastou do documentário: em 1998, lançou a série Futebol, codirigida com Arthur Fontes. No ano seguinte, dirigiu com Kátia Lund Notícias de uma Guerra Particular, seu primeiro longa-metragem.
O filme partiu de dois anos de entrevistas com moradores, traficantes e policiais do morro Santa Marta, no Rio. Em vez de explicar o conflito por uma única voz, montou depoimentos em paralelo e deixou que as contradições aparecessem. A estreia aconteceu no GNT, em abril de 1999, e o documentário ganhou o prêmio de melhor longa brasileiro no festival É Tudo Verdade no ano seguinte.
Qual é a marca dos filmes de João Moreira Salles
Os filmes dele raramente se organizam como reportagens explicativas. Trabalham com tempo, escuta e montagem. Em Nelson Freire (2003), o pianista é observado em ensaios e conversas, e a música aparece como ofício, não como trilha. Em Entreatos (2004), João acompanhou os bastidores da campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002 e transformou o material em um retrato de poder, estratégia e convivência.
Santiago levou essa pesquisa ao limite pessoal. O diretor revisita um personagem que conhecia desde a infância, mas descobre que as imagens de 1992 diziam menos sobre o mordomo do que sobre a relação entre quem filma e quem é filmado. Já No Intenso Agora (2017) parte de imagens de arquivo, inclusive filmagens feitas por sua mãe na China de 1968, para pensar os sonhos políticos de 1968 na França, na Tchecoslováquia e no Brasil.
Em todos esses trabalhos, a montagem não é um recurso neutro. Ela organiza o olhar, cria ausências e devolve ao espectador a responsabilidade de interpretar. É uma obra que se interessa menos por respostas do que pelas condições em que uma história pode ser contada.
O que a VideoFilmes produziu
A produtora fundada pelos irmãos Salles em 1987 nasceu para fazer documentários televisivos, mas cresceu junto com a retomada do cinema brasileiro. João assinou a produção de filmes como Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho; Madame Satã, de Karim Aïnouz; e Babilônia 2000, Edifício Master, Jogo de Cena e As Canções, de Eduardo Coutinho.
Essa atuação como produtor explica uma parte importante da carreira: João não construiu a obra apenas como diretor, mas também como alguém que viabiliza filmes de outros realizadores. A parceria com Coutinho atravessa vários filmes e ocupa um capítulo à parte na história da produtora.
Por que a revista piauí é um projeto central
Em 2006, João criou a piauí, revista mensal que apostou em reportagens longas, humor, ficção, poesia e ensaio. O projeto nasceu com uma ideia simples e custosa: dar tempo ao jornalismo. Em vez de perseguir o furo curto, a publicação investiu em histórias apuradas com profundidade e em uma relação de leitura que não depende de pressa.
A revista também abriu espaço para podcasts, como o Foro de Teresina, e para uma presença digital própria. Em outubro de 2021, João deixou a função de publisher e financiador; a piauí passou a operar com recursos de um fundo patrimonial doado ao Instituto Artigo 220, sob direção de redação de André Petry e supervisão de um conselho editorial. A mudança preservou a independência do título e separou o projeto jornalístico da figura do fundador.
Instituto Serrapilheira e o apoio à ciência
Em 2017, João e Branca Vianna criaram o Instituto Serrapilheira, instituição privada sem fins lucrativos dedicada a promover a ciência no Brasil. A base foi uma doação de R$ 350 milhões, que formou um fundo patrimonial. Os rendimentos sustentam programas de pesquisa, formação em ecologia quantitativa e jornalismo científico.
O instituto financia jovens cientistas com recursos flexíveis, apoia projetos de comunicação da ciência e incentiva práticas de ciência aberta. Segundo a própria instituição, mais de 400 projetos já receberam apoio, com mais de R$ 120 milhões investidos. Entre os resultados citados estão o levantamento Epicovid-19 e os modelos do ModCovid19, usados durante a pandemia.
Arrabalde e a Amazônia
Em Arrabalde: Em busca da Amazônia, João parte de seis meses de estadia no Pará para investigar como o território vem sendo ocupado desde os anos 1960. O livro mistura relatos, entrevistas e pesquisa, e se filia à literatura de viagens para observar a floresta como espaço social, não apenas paisagem. A obra foi publicada pela Companhia das Letras e tem 424 páginas.
O tema dialoga com o restante da produção dele: a atenção ao que está fora do quadro, a desconfiança de explicações rápidas e o interesse por pessoas que vivem as consequências de decisões tomadas longe delas. Quem se interessa por relatos de viagem e reportagem sobre a Amazônia encontra uma leitura extensa, que combina experiência de campo e pesquisa histórica. O livro não é um manual sobre o bioma, e sim uma narrativa que acompanha pessoas e paisagens.
Qual é a relação com o Instituto Moreira Salles
O Instituto Moreira Salles foi fundado por Walther Moreira Salles em 1992 e é administrado pela família. Mantém acervos e programas nas áreas de fotografia, literatura, iconografia, artes plásticas, música e cinema, com centros culturais no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Poços de Caldas.
A ligação de João com o instituto é familiar: ele é filho do fundador, e a família administra a instituição. O IMS não se confunde com a produtora VideoFilmes nem com a revista piauí; é uma entidade cultural com acervo próprio, exposições, publicações e programação de cinema.
Quais prêmios e obras marcaram a carreira
A trajetória de João acumula prêmios em festivais e associações de crítica. Notícias de uma Guerra Particular venceu o É Tudo Verdade; Nelson Freire recebeu o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro; Santiago ganhou o prêmio principal do Cinéma du Réel e foi eleito melhor documentário no Festival de Miami; No Intenso Agora também foi premiado em Paris. Em 2015, Santiago entrou na lista da Abraccine dos 100 melhores filmes brasileiros.
- Notícias de uma Guerra Particular (1999), codirigido com Kátia Lund;
- Nelson Freire (2003);
- Entreatos (2004);
- Santiago (2007);
- No Intenso Agora (2017).
Onde encontrar a obra de João Moreira Salles
Os filmes circulam em festivais, mostras e plataformas de streaming, com disponibilidade variável. A revista piauí mantém o arquivo de suas edições e o site da publicação. O Instituto Serrapilheira publica chamadas, projetos apoiados e relatórios. O Instituto Moreira Salles reúne parte da produção cultural ligada à família e à história do cinema brasileiro.
A obra dele está nos filmes, nos livros e nas instituições que ajudou a criar. A trajetória começou no roteiro de televisão e chegou à direção, à produção, ao jornalismo e à filantropia científica.






