O compacto Tamanho Não É Documento, parceria de Nelson Ned com Hamilton Gouvêa Bastos, saiu em 1968 pela Chantecler e vendeu 300 mil cópias. A frase do título virou cartão de visita antes mesmo do apelido que Paulo Gracindo lhe deu no começo da carreira: o Pequeno Gigante da Canção.
Quem procura esse nome hoje costuma cair em três coisas diferentes e misturá-las: a canção Tudo Passará, a estatura, e uma biografia de 2023 que ele não escreveu. Nelson Ned d'Ávila Pinto nasceu em Ubá, Minas Gerais, em 2 de março de 1947, e morreu em Cotia, São Paulo, em 5 de janeiro de 2014. Entre essas datas a voz passou por Polydor, Copacabana e EMI-Odeon, por plateias em espanhol e por uma memória brasileira que demorou a acompanhar o alcance que ele teve fora do país.
Quem foi Nelson Ned
O nome artístico carrega o da mãe. Ned d'Ávila Pinto e Nelson de Moura Pinto tiveram sete filhos. O mais velho, Nelson Ned, nasceu num casarão da Rua Coronel Júlio Soares, em Ubá. A baixa estatura foi associada, nos relatos públicos da trajetória, à displasia espondiloepifisária. A BBC, ao retomar a história em 2024, registra 1,12 metro na vida adulta. O título do primeiro LP, Um show em noventa centímetros, fixou outro número, que não deve ser lido como medida clínica.
A música entrou em casa. O Dicionário Cravo Albin anota que ele estudou com a mãe. No fim da década de 1950 a família foi para Belo Horizonte, depois que dona Ned passou num concurso da Coletoria Estadual. Ainda menino, Nelson apareceu na TV Itacolomi e nas rádios Guarani e Inconfidência. Não houve outra profissão pública de longo curso: o ofício documentado é cantar e compor.
Do disco de 78 rotações ao festival de Buenos Aires
A primeira gravação é de 1963, num disco de 78 rotações, pela Polydor: Eu sonhei que tu estavas tão linda, de Lamartine Babo e Francisco Matoso, e Prelúdio à volta, de Osmar Navarro. No ano seguinte veio o LP Um show em noventa centímetros, também pela Polydor. Houve um intervalo sem disco novo até o compacto de 1968.
Ainda em 1968, Nelson Ned venceu o I Festival de la Canción, em Buenos Aires, cantando Tudo Passará, composição sua. O prêmio abriu a carreira internacional. O LP com o mesmo nome só saiu em 1969, já na Copacabana, com arranjos e regência do maestro Portinho. O Cravo Albin aponta 170 mil cópias desse disco, puxadas também por Tamanho Não É Documento. Nessa faixa, o dicionário registra versões de Charles Aznavour e Henri Mancini.
Bolero, espanhol e o Carnegie Hall
O repertório que atravessou fronteira é romântico: bolero, balada e o que no Brasil se chamou de brega, muitas vezes como desdém. No LP de 1969 estão, além da faixa-título, músicas como Será, Será, Domingo à Tarde, Vou Buscar o Meu Amor e Um Recado Para Meu Amor, esta com Agnaldo Timóteo. Em 1970, Eu Também Sou Sentimental trouxe Se Eu Pudesse Conversar Com Deus e A Cigana. Em 1975, no disco Meu Ciúme, já há faixas em espanhol, entre elas a versão de Happy Birthday My Darling.
Composições de Ned foram gravadas por Antônio Marcos, Moacyr Franco e Agnaldo Timóteo, e houve versão internacional associada a Matt Monro. O mesmo verbete do Dicionário Cravo Albin registra três apresentações com lotação esgotada no Carnegie Hall, em Nova York, e o posto de primeiro artista latino-americano a vender um milhão de discos nos Estados Unidos. A conta de carreira que o dicionário repete fica em cerca de 45 milhões de discos, somando compactos, LPs e CDs. É a ordem de grandeza com que a discografia especializada ainda apresenta o cantor.
No Brasil, a gravadora mudou conforme a década: Copacabana no auge, Harmony/CBS em 1982, EMI-Odeon em discos como Caprichoso (1984) e Ao Meu Novo Amor (1985), RGE no início dos anos 1990. Fora, o castelhano sustentou a turnê. Dentro, parte da crítica tratou o gênero como menor. As duas coisas conviveram no mesmo cantor, e é esse contraste que a busca pelo nome ainda tenta resolver.
O Poder da Fé e o livro de 1996
A virada religiosa não espera a década de 1990. Em 1976, pelo selo Celestial/Copacabana, saiu O Poder da Fé, primeiro LP de temática religiosa, com faixas como A Bíblia, Só Mesmo Crendo em Deus e Em Cada Irmão Vejo Cristo. O Cravo Albin descreve a partir daí um artista evangélico que alternou disco religioso e disco secular. Nos anos 1990 o eixo gospel ficou mais nítido, com títulos como Jesus Te Ama (Warner, 1994) e Jesus Está Voltando (1997).
Em 1996 a Editora Vida, de São Paulo, publicou O Pequeno Gigante da Canção, livro assinado por Nelson Ned com Jefferson Magno Costa. São 167 páginas, ISBN 0829721975. Não é a biografia jornalística de André Barcinski. É o relato da própria vida, no tom de testemunho da época, em que ele fala de depressão, álcool e drogas no auge. A edição em espanhol, El Pequeño Gigante de la Canción, veio em 1998. Só em 2023 a Companhia das Letras lançou Tudo passará: A vida de Nelson Ned, o Pequeno Gigante da Canção, de André Barcinski, outro livro, de outro autor, que recolocou a escala internacional da carreira no debate público.
O que o nome ainda puxa
- Tudo Passará, a composição de 1968 e o LP de 1969 pela Copacabana.
- Tamanho Não É Documento, o compacto de 300 mil cópias.
- Se Eu Pudesse Conversar Com Deus e o filão romântico da Copacabana.
- O Poder da Fé e os discos gospel posteriores.
- O livro de 1996, fácil de confundir com a biografia de 2023.
Em 2003 um acidente vascular cerebral comprometeu a visão do olho direito. A morte, em 5 de janeiro de 2014, ocorreu no Hospital Regional de Cotia, por pneumonia grave. O que resta para quem ouve hoje está na música romântica em português e em espanhol, e no livro que a literatura de testemunho guardou com o apelido dado por Paulo Gracindo. Não há site oficial em atividade. Há disco, o volume de 1996 e uma carreira que o Cravo Albin situa em teatros dos Estados Unidos, da Europa, da África e do México, mais larga fora do Brasil do que a memória local do bolero deixou parecer.


