A Boca de São Paulo é o livro em que Nicole Puzzi descreve a Rua do Triunfo por dentro: filmagens apressadas, censura, colegas de set e o preço de ter virado símbolo sexual num país que lotava a sala e, ao mesmo tempo, desqualificava quem aparecia na tela.
Quem chega ao título em geral já viu um pôster, uma reprise no Canal Brasil ou uma entrevista em que ela corrige o apelido de pornochanchada. O livro não repete o cartaz. A proposta pública, desde a sinopse do Clube de Autores em 2011, é outra: um depoimento de quem esteve na rua, sem a análise de quem estuda o período de fora. A própria autora escreveu, na edição comentada pelo UOL em 2015, que ia apresentar a alma porque o corpo o público já tinha visto.
Para quem o livro serve
O leitor típico não está atrás de uma filmografia completa nem de uma fofoca de camarim. Está atrás da Boca do Lixo como lugar: a Rua do Triunfo, o cinema paulista dos anos 1970 e 1980, a censura, o improviso e o modo como atrizes daquele polo eram lidas pela cidade. Nicole funciona aí como testemunha, não como verbete.
Isso limita o livro e, ao mesmo tempo, explica por que ele continua sendo o título associado ao nome dela. Não é manual de direção, não é lista de longas e não substitui a história econômica da Boca, feita por quem estuda o período em livro acadêmico. É a versão de uma atriz que filmou ali, conviveu com diretores como Jean Garret, Walter Hugo Khouri, Ody Fraga e Ivan Cardoso, e depois passou anos respondendo pelo rótulo.
De 2011 à Editora Laços
A primeira circulação ampla é de 2011, no Clube de Autores, em papel e em ebook. O lançamento chamou o Metrópolis, da TV Cultura. A sinopse da época avisava o contrato de leitura: informação simples, emoção de quem sentiu na pele, sem pretensão de laudo técnico. O texto se propunha a falar de pessoas, filmes e comportamento num gênero que ia da elite ao público de rua.
Em 22 de junho de 2015 a Editora Laços recolocou A Boca de São Paulo em São Paulo, no Centro Universitário Belas Artes. Kendi Sakamoto, da editora, disse ao UOL que a casa queria abrir uma coleção de memórias de atrizes, diretores e figuras da Boca, gente que tinha feito cinema nacional e não achava editor. O título de Nicole abriu essa coleção. No mesmo dia, ela disse à Vice que o livro sempre esteve na cabeça e que a ideia era um documento histórico do cinema daquela rua, com a visão de quem andou nela.
A edição digital que segue no Google Play, associada ao Clube de Autores, tem cerca de 194 páginas. A sinopse dessa versão repete o eixo: a pornochanchada vista pela atriz, com espaço para outras mulheres que trabalharam ao lado dela na mesma rua. Não é, portanto, um diário fechado numa única carreira. O cenário é coletivo, mesmo quando a voz é a dela.
O que o livro não é
Há outro volume com o nome de Nicole nas estantes antigas. Uma tese da USP registra que, em 1994, ela publicou com o jornalista Alex Solnik a autobiografia A verdade por trás das câmeras. Em 2015, Nicole tratou A Boca de São Paulo como o livro em que contava a Boca. Convém não misturar os dois. O de 1994 é anterior, em parceria, e não é o título que a imprensa passou a usar quando fala da memória da Rua do Triunfo.
Também não dá para tratar as reedições como livros novos. O texto de 2011, o lançamento da Laços em 2015 e a terceira edição anunciada no Clube de Autores em 2025, com ISBN 9786501571447 e 257 páginas, são fases do mesmo relato. A edição de 2025 foi descrita, na ficha pública, como documento do cinema nacional dos anos 1970 e 1980, com a Rua do Triumpho no centro, a grafia que a própria capa consagrou. Formato, número de páginas e casa editorial mudam. A obra é uma.
O caminho público mais estável para ler a versão digital é a ficha do Google Play ligada a esse ebook. Papel de sebo e anúncios de reedição aparecem e somem. O que não some é a função do livro: guardar, na voz de Nicole Puzzi, o que foi fazer cinema popular no centro de São Paulo quando esse cinema ainda lotava semana e já carregava o estigma que ela passou o resto da carreira explicando.

