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Nicole Puzzi

Tereza Nicole Puzzi Ferreira

Nascimento: 1958 Floraí, PR
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Atriz paranaense da Boca do Lixo, Nicole Puzzi atravessou a pornochanchada e apresentou Pornolândia no Canal Brasil.

Nicole Puzzi entrou no cinema brasileiro pela Rua do Triunfo, em São Paulo, no longa Possuídas pelo Pecado, de Jean Garret, e saiu dali com o rótulo que a imprensa repetiria por décadas: musa da pornochanchada.

O nome de registro é Tereza Nicole Puzzi Ferreira. Ela nasceu em 17 de maio de 1958, em Floraí, no Paraná, filha de fazendeiros e de ascendência italiana. Quem procura o nome hoje quase nunca quer só a ficha de um filme antigo. Quer saber como uma atriz da Boca do Lixo atravessou a televisão, o teatro, um programa sobre sexo no Canal Brasil e um livro de memória sobre a mesma rua que a consagrou.

A carreira pública começa antes desse rótulo. Houve desfile, circo e shows com Os Trapalhões. A televisão chegou cedo, na Tupi. A Boca veio quando Jean Garret a levou para o polo de produção do centro de São Paulo. Dali em diante, o corpo na tela e a recusa de tratar aquilo como vergonha passaram a organizar quase tudo o que se escreveu sobre ela.

Quem é Nicole Puzzi

Nicole é atriz, apresentadora e autora. A ocupação que a fixou no imaginário brasileiro foi a de estrela da pornochanchada, o cinema popular paulista dos anos 1970 e 1980, feito com pouco dinheiro, muito improviso e um público que lotava a sala enquanto a crítica e o moralismo empurravam o gênero para a margem.

Ela mesma costuma corrigir o apelido. Em novembro de 2025, ao apresentar Eros, o Deus do Amor na Mostra Curta Circuito, no Cine Humberto Mauro, em Belo Horizonte, disse ao jornal O Tempo que, na época, aquilo não se chamava pornochanchada: era o cinema nacional. Também separou comédia de drama. O Prisioneiro do Sexo, de 1978, em que viveu Berenice, ela descreve como drama, não como piada de nudez.

O outro dado que organiza a figura pública é a teimosia de continuar em cena depois que o ciclo da Boca acabou. Novelas, teatro, palestra, defesa dos animais e, a partir de 2014, a apresentação de Pornolândia no Canal Brasil. A musa dos anos 1970 não ficou congelada no pôster.

Como ela saiu de Floraí e chegou à Rua do Triunfo

Floraí fica no interior do Paraná. A data em que deixou a cidade não é pacífica nos relatos. Em 2015, Nicole contou ao UOL que chegou a São Paulo em 1970, ainda menina, com o sonho de ver os Beatles em Londres. Outras entrevistas, retomadas em perfis posteriores, falam em saída de casa na adolescência. O destino, esse sim, não muda: a capital paulista.

Antes do set, trabalhou como modelo, passou pelo circo e apareceu em shows ligados a Os Trapalhões. Tentou a TV Tupi. Em 1974 já estava no elenco de O Machão, novela da emissora, no papel de Aretuza. O cinema da Boca entrou na sequência. Jean Garret a dirigiu em Possuídas pelo Pecado. A filmografia mais detalhada data o filme em 1976 e registra Dora como a personagem.

A rua mudou o repertório, não só o cachê. No bar Soberano, ponto de cineastas da Boca, ela ouviu pela primeira vez o nome de Nietzsche e foi atrás do que não entendia. Em 2015, disse ao UOL que boa parte do que aprendeu de filosofia entrou por ali, não pela escola do interior. Nas entrevistas em que fala de estudo formal, apresenta-se como bacharel em Direito e não nomeia a faculdade. Em 2015 descreveu um curso de Serviço Social como incompleto; em 2018, na revista Quem, falou nele como formação concluída. O que fica verificável é o bacharelado declarado por ela, sem instituição pública associada.

Quais filmes fixaram o rótulo de musa

A lista é longa e irregular, como era a própria produção da Rua do Triunfo. Alguns títulos bastam para ver o arco. Não são o mesmo filme em outro formato: são obras diferentes, de diretores diferentes, que foram colando nela a mesma imagem pública.

  • Possuídas pelo Pecado (1976), de Jean Garret, a porta de entrada na Boca, no papel de Dora.
  • O Prisioneiro do Sexo (1978), com Berenice, que ela insiste em ler como drama.
  • Ariella (1980), o filme que a projetou e também o que mais custou fora da tela, inclusive pelo beijo com Christiane Torloni.
  • Eros, o Deus do Amor (1981), de Walter Hugo Khouri, que ela voltou a apresentar em 2025.
  • Gabriela (1983), em que fez Malvina ao lado de Sônia Braga e Marcello Mastroianni.
  • As Sete Vampiras (1986), como Sílvia Rossi, e Eu (1987), como Lila, com Tarcísio Meira.

Ariella pede um parágrafo à parte. O beijo com Christiane Torloni e a inserção posterior de cenas explícitas feitas por outra atriz, prática que se espalhava no cinema brasileiro acuado pela pornografia importada, mudaram o tipo de atenção que Nicole recebia na rua. Reportagem da Catraca Livre, em 2017, registrou ameaças, telefonemas e agressões. Ela resumiu o clima numa fórmula que repetiu em mais de uma entrevista: musas do sexo numa época reprimida, moralista e desinformada. O rótulo vendia ingresso e, ao mesmo tempo, fechava porta.

Houve também Anjos do Arrabalde (1987), como Fernanda, e uma volta esparsa ao cinema nas décadas seguintes, de curtas a participações como ela mesma em filmes sobre a Boca, caso de Os Bons da Boca (2009) e Aquela Rua Tão Triumpho (2016). O volume importa menos do que o fato: o nome continuou sendo chamado quando o assunto era aquela rua, mesmo quando o filme já não cabia na pornochanchada.

O que ela fez na televisão e no teatro

A televisão não foi um apêndice. Depois da Tupi vieram Bandeirantes, Globo, Manchete, Record e SBT. O papel mais citado é o da médica Luísa Cóler em Barriga de Aluguel (1990), novela de Glória Perez. A última novela registrada na filmografia pública é Amor e Revolução (2011), no SBT, como Feliciana.

Em 2014 o Canal Brasil a chamou para Pornolândia, programa de entrevistas sobre sexo e comportamento, feito em parceria com a produtora Xplastic. A estreia foi anunciada para a madrugada de 4 de junho daquele ano. Nicole disse, então, que não esperava o convite aos 56 anos e que não via problema em uma mulher mais velha falar de sexo na televisão. O programa atravessou várias temporadas. Em 2018 já ia para a quinta. Em agosto de 2021 estreou a sétima, com 13 episódios gravados no formato híbrido da pandemia, ela no estúdio e os convidados à distância, com exibição também no Globoplay.

O nome do programa nunca a agradou. Em entrevista à coluna de Patrícia Kogut, retomada em 2021, contou que aceitou com condições: falar de sexo de forma positiva, com consentimento e dentro da lei. O quadro era de conversa e ensaio, não de reprise dos filmes da Boca. Em 2024, o gshow ainda tratava Pornolândia como o talk show em que ela recebia convidados para falar de sexo com humor e informação, com temporadas disponíveis no Globoplay.

No teatro, a trilha é mais discreta e mais longa do que o cartaz de cinema sugere. Há Tartufo, Meno Male! e Sua Excelência, o Candidato entre os anos 1980 e 1990. Em 2020 entrou em A Arte de Encarar o Medo, espetáculo online de Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, da Cia. de Teatro Os Satyros. Na cobertura da estreia, a peça apareceu como o primeiro grande teatro online do Brasil. Em 2021 ela dizia seguir na companhia. Em 2024 estava no elenco de Mergulho Mistério Dela, texto de Leilah Assumpção sobre mulheres mais velhas, montado em São Paulo.

Fora do set, o nome circula em duas frentes menos óbvias. Uma é a defesa dos direitos dos animais, citada em perfis e entrevistas. Outra é a fala pública sobre o próprio centro da cidade: em 2019 foi uma das palestrantes do Festival Path, em São Paulo, no painel “A arte como propulsora da inovação no Centro de São Paulo”, ao lado de Laura Maringoni, Ana Weiss e Vera Santana.

O que ficou escrito sobre a Boca

O livro que acompanha o nome nas buscas é A Boca de São Paulo. A circulação pelo Clube de Autores é de 2011, ano em que o Metrópolis, da TV Cultura, chegou a destacar o lançamento. Em 22 de junho de 2015 a Editora Laços relançou o título em São Paulo, no Centro Universitário Belas Artes, como abertura de uma coleção de memórias da Boca. No dia do lançamento, Nicole descreveu o livro à Vice como documento da rua em que andou e das pessoas que conheceu, não como estudo técnico de cinema.

Há um título anterior. Uma tese da USP registra que, em 1994, ela publicou com o jornalista Alex Solnik a autobiografia A verdade por trás das câmeras. Em 2015, mesmo assim, Nicole apresentou A Boca de São Paulo como o livro em que finalmente contava a pornochanchada do próprio ponto de vista. São obras diferentes. A segunda é a que segue encontrável em edição digital e a que a imprensa trata como a memória da Rua do Triunfo.

Em novembro de 2025, já afastada da rotina de novela, ela ainda subia ao palco de uma mostra para falar de Eros, o Deus do Amor e comentou que um documentário sobre a sua trajetória estava em preparação, com direção de Sergio Kieling e Matheus Trunk. Não era arquivo fechado. Era a mesma pessoa explicando, mais uma vez, por que aquelas personagens irritavam e, décadas depois, eram relidas por mulheres da idade dela como libertação, não como ofensa.

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A Boca de São Paulo
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Memória de Nicole Puzzi sobre a Rua do Triunfo e a pornochanchada, contada por quem atuou na Boca do Lixo.
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