Há quem chegue a Lygia Fagundes Telles pelo romance e só depois descubra que o pulso mais seguro dela está no conto. Antes do Baile Verde é o volume que a crítica costuma apontar como o mais bem-sucedido nesse gênero. Reúne narrativas escritas entre 1949 e 1969. O texto que dá nome ao livro venceu, em Cannes, o Grande Prêmio Internacional Feminino para Estrangeiros, disputado por centenas de originais de dezenas de países.
Não é coletânea de sobras. É o lugar em que Lygia mostra, conto a conto, a mesma operação: uma situação doméstica, um desejo torto, um objeto que puxa o chão — e de repente o real já não basta. Paulo Rónai falou em obras-primas de inquietação íntima que, no fim, ganham a serenidade de forma definitiva. Antonio Candido viu limpidez sem truque. Os dois acertam o tom. O livro não grita. Fura.
O que tem dentro do volume
São dezoito contos. As situações mudam. Em “A caçada”, um homem se perde numa tapeçaria de antiquário como se tivesse vivido a cena noutra vida. Em “Venha ver o pôr-do-sol”, um rapaz leva a ex-namorada a um jazigo de família abandonado — um dos textos mais antologizados da autora, e um dos mais cruéis. “Natal na barca” fecha em epifania. “Meia-noite em ponto em Xangai” equilibra a vida oca de uma prima-dona. “O menino” observa uma infidelidade pelo olho da criança que vai ao cinema com a mãe.
Há ainda “Apenas um saxofone”, “Um chá bem forte e três xícaras”, “O jardim selvagem”, “As pérolas”, “O moço do saxofone” e “A janela”. Conflito amoroso volta, mas nunca do mesmo ângulo. Lygia alterna gênero e voz: realismo, fantástico, parábola, horror miúdo. O leitor que quiser “o conto da ditadura” não o encontra aqui do mesmo modo que em As Meninas. Encontra o que a ditadura também esmagava: a vida privada sem saída, o casamento como armadilha, o desejo com preço.
Como ler sem transformar em antologia escolar
O risco deste livro é o da seleção: a escola puxa “Venha ver o pôr-do-sol” e deixa o resto. Vale a pena ler o volume inteiro. A unidade não está no tema, está na mão. Drummond escreveu a Lygia em 1966 que o livro estava perfeito como unidade na variedade, e que a história profunda vinha debaixo da história aparente. É o melhor conselho de leitura. Não procure só o golpe final. Procure o que a personagem faz com a boca enquanto o desastre já começou.
A edição da Companhia das Letras, de 2009, tem 208 páginas. É a forma corrente de ter o conjunto. Quem já leu o romance de 1973 e achou o fluxo pesado pode começar por aqui: os contos cabem numa sentada e deixam o método à mostra. Quem nunca leu Lygia também pode começar por aqui. O volume ensina o ouvido da autora mais depressa do que a biografia.
Para quem este livro é o primeiro passo
É o primeiro passo certo para o leitor de conto, para quem gosta de Julio Cortázar sem querer copiar Buenos Aires, e para quem desconfia do rótulo “literatura feminina” como prateleira. Lygia não escreve “sobre a mulher” em tese. Escreve situações em que o poder — do marido, do amante, da mãe, da morte — aparece no detalhe. O baile do título nunca é só festa. É o instante anterior, quando ainda dá para fingir que nada vai acontecer.
- Coletânea de 18 contos, escritos entre 1949 e 1969, publicada em 1970.
- Inclui “Venha ver o pôr-do-sol”, “Natal na barca” e o conto-título premiado em Cannes.
- Considerada por muitos críticos o auge de Lygia no conto.
- Edição corrente: Companhia das Letras, 208 páginas.
Depois de Antes do Baile Verde, o romance cobra a conta: As Meninas amplia o mesmo olho para o pensionato e a polícia. Seminário dos Ratos, de 1977, empurra o fantástico ainda mais. O conto, porém, continua sendo o território em que Lygia parece mais à vontade — e este é o livro em que isso se vê inteiro.



