Antonieta Rudge é o retrato de uma pianista feito quando ela ainda estava no meio da carreira. Carlos de Vasconcelos publicou o livro em 1916, pela Tipografia Besnard Frères, no Rio de Janeiro, quando Antonieta tinha 31 anos e já era apontada como uma das grandes intérpretes brasileiras de Beethoven e Chopin. O texto acompanha a trajetória da menina que começou a estudar piano em casa, em São Paulo, e chegou aos palcos da Europa — um percurso pouco comum para uma mulher brasileira no início do século XX.
De menina prodígio a concertista
Nascida em São Paulo em 1885, Antonieta recebeu as primeiras lições da mãe, Ana Emília da Silva Telles, e depois estudou com o professor francês Gabriel Giraudon. Estreou em público aos sete anos, no salão da Casa Levy, e seguiu os estudos com Luigi Chiaffarelli, com quem entrou em contato com um repertório pianístico avançado. Ainda jovem, tocou música de câmara com músicos que passavam pelo Brasil, como Camille Saint-Saëns, Pablo Casals e Harold Bauer.
A carreira internacional começou em 1905, com concertos na Alemanha, na França e na Inglaterra. Antonieta apresentou-se no Bechstein Hall, em Londres, e no Hoch's Konservatorium, em Frankfurt. O livro registra esse momento de afirmação, quando o nome dela passou a circular entre os principais intérpretes do país.
O que a biografia registra
A obra cobre a formação paulistana, os anos de estudo e a temporada europeia iniciada em 1905. É um documento da vida musical brasileira da época, com detalhes sobre professores, salas de concerto e repertório. O volume pertence ao conjunto de retratos que Vasconcelos escreveu sobre figuras de seu tempo, ao lado do presidente americano Theodore Roosevelt e do líder acreano Plácido de Castro.
Para quem acompanha a história da música no Brasil, o livro mostra como se formou a instrumentista que mais tarde se dedicaria ao ensino e formaria gerações de pianistas à frente do Conservatório Musical de Santos.
A trajetória depois do livro
Antonieta Rudge casou-se com Charles Miller, introdutor do futebol no Brasil, e mais tarde uniu-se ao poeta modernista Menotti del Picchia. A partir de 1925, passou a se dedicar principalmente ao ensino; em 1927, ajudou a fundar o Conservatório Musical de Santos, onde lecionou por mais de quarenta anos. Entre seus alunos estão os compositores José Antônio de Almeida Prado e Gilberto Mendes. Em 1939, estreou o Concerto em Formas Brasileiras, de Hekel Tavares, sob a regência do autor e transmitido pela Rádio Cultura.
O pianista Arthur Rubinstein resumiu a impressão que ela causava em uma frase que ficou conhecida: “Tenho três grandes paixões na vida: Mozart, Beethoven em sua segunda fase e Antonietta Rudge interpretando os dois”. Ela morreu em São Paulo, em 1974.
Onde ler o livro
A edição original de 1916, da Tipografia Besnard Frères, é peça de colecionador e aparece raramente em sebos. O texto completo está disponível em versão digital no acervo de literatura brasileira da UFSC, com download em PDF na ficha do livro. A leitura interessa a quem estuda a vida musical brasileira do início do século XX e a quem acompanha a história das mulheres nos palcos de concerto.


