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Carlos de Vasconcelos

Nascimento: 1881 Granja, Ceará
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Engenheiro civil e escritor cearense (1881-1923), defendeu a criação do Estado do Acre e escreveu Deserdados, romance que expôs a vida dos seringueiros na Amazônia.

Antes de virar livro, Deserdados nasceu de uma experiência vivida nas margens dos rios Purus e Iaco. Carlos de Vasconcelos era engenheiro civil e conhecia de perto o cotidiano que descreveu: o avanço dos seringais, os combinados de dívida que prendiam os trabalhadores e o vaivém de fortunas conforme o preço da borracha. Essa mistura de técnica e testemunho explica o lugar que o autor ocupa na literatura do ciclo da borracha.

Carlos Carneiro Leão de Vasconcelos nasceu em Granja, no litoral do Ceará, em 1881, e morreu no Rio de Janeiro em 20 de janeiro de 1923, aos 42 anos, em consequência da explosão de uma caldeira. Era o segundo de quatorze irmãos — entre eles o magistrado Abner Vasconcelos e o poeta Leão de Vasconcelos — e filho do promotor Antônio Augusto de Vasconcelos. Formado em engenharia, ficou conhecido em duas frentes que raramente andam juntas: a defesa política do Acre e uma produção literária que inclui romance, poesia, crônicas de viagem e biografia.

Do Liceu do Ceará ao interior do Amazonas

Fez os estudos preparatórios no Liceu do Ceará e os concluiu no Recife, onde se matriculou na Faculdade de Engenharia em 1896. Em 1899, com a carta de engenheiro geógrafo, seguiu para o Amazonas e trabalhou em demarcações no rio Purus até 1901. Depois foi ao Rio de Janeiro completar a formação na Escola Politécnica, recebendo as cartas de engenheiro civil e de bacharel em Ciências Físicas e Matemáticas.

O retorno à região veio em seguida: foram dois anos de trabalhos no rio Iaco antes de voltar ao Rio para defender os direitos de seus representados sobre terras na zona do Acre e do Alto Purus. Essa passagem pelo interior deu a Vasconcelos o conhecimento que depois sustentaria tanto os escritos políticos quanto o romance: ele não falava da Amazônia a partir das notícias que circulavam nos jornais, mas do que tinha visto em campo.

A campanha pela criação do Estado do Acre

Quando o projeto do deputado Francisco Sá criando o Estado do Acre chegou ao Congresso, Vasconcelos entrou na disputa pelos jornais. Já havia apresentado ao presidente da República a memória As Terras e Propriedades do Acre, em 1905, e em 1906 reuniu em dois opúsculos os argumentos da campanha: O Acre e os Acreanos: Impostos e Anexação, sobre a cobrança de tributos e a incorporação do território, e O Estado do Acre, formado por artigos publicados no Jornal do Commercio em janeiro daquele ano.

A causa acreana voltaria em 1911, na conferência sobre Plácido de Castro realizada no Theatro Municipal do Rio, no terceiro aniversário da morte do líder da revolução acreana. No mesmo ano saiu o livro que recolhe notas inéditas do libertador do Acre e o texto da conferência. Em 1915, Vasconcelos ainda publicou um manifesto ao eleitorado do 2º distrito do Ceará e uma contestação apresentada à Câmara dos Deputados contra a validade das eleições realizadas no estado.

Deserdados: a borracha sem romantismo

Publicado em 1921, Deserdados acompanha a saga dos cearenses que desceram para a Amazônia e encontraram nos seringais um regime de dívidas, isolamento e violência. Os pareceres reunidos na edição de 1922 aproximam o romance de obras de Rodolfo Teófilo, Alberto Rangel e Euclides da Cunha sobre a mesma região, e sustentam que os três apenas esboçaram a vida amazônica que Vasconcelos mostrou por ter conhecido o interior de perto. O livro ocupa um lugar próprio na literatura brasileira do ciclo da borracha. A comparação com Euclides da Cunha ajuda a situar o romance entre o relato de viagem e a denúncia social.

A Tragédia Divina e as outras obras

Em 1915, Vasconcelos publicou A Tragédia Divina, poema em 24 sonetos e trechos em prosa assinado com o pseudônimo Costa Victor e inspirado no episódio bíblico de Maria Madalena. Além do romance e da poesia, a bibliografia inclui crônicas de viagem, retratos e escritos políticos. As obras mais lembradas são:

  • As Terras e Propriedades do Acre (1905), memória apresentada ao presidente da República;
  • O Acre e os Acreanos e O Estado do Acre (1906), opúsculos da campanha pela criação do estado;
  • Plácido de Castro (1911), notas e conferência sobre o líder da revolução acreana;
  • Cartas da América (1912) e Notas da Europa (1913), crônicas de viagem;
  • A Tragédia Divina (1915), poema publicado sob o pseudônimo Costa Victor;
  • Antonieta Rudge (1916), biografia da pianista paulista;
  • Deserdados (1921), romance do ciclo da borracha.

Completam a lista Pró-Pátria (1908), editado em Nova York, A Loucura do Kaiser e Roosevelt (1914), Casados... na América (1920) e Torturas do Desejo (1922). Ficaram inéditos títulos como Alma Yankee, Miss Glória, O Problema Negro e Pioneiros e Malfeitores. O autor também deixou poemas e contos publicados em vida, caso de Torturas do Desejo, reunido em livro no ano anterior à sua morte.

Morte precoce e onde encontrar as obras

Vasconcelos morreu em 1923, aos 42 anos, deixando viúva, dois filhos e várias obras inéditas. Sua produção circula hoje em sebos e acervos universitários: a biografia Antonieta Rudge ganhou versão digital no acervo de literatura brasileira da UFSC, e exemplares usados de Deserdados, na segunda edição de 1922, ainda aparecem em sebos especializados.

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Deserdados
Deserdados
Romance de 1921, Deserdados leva o leitor aos seringais do Acre e do Alto Purus e é considerado um dos retratos mais crus do ciclo da borracha.
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Antonieta Rudge
Antonieta Rudge
Biografia publicada em 1916, o livro acompanha a formação e os primeiros triunfos da pianista Antonieta Rudge, de menina prodígio a concertista internacional.
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