Saiu de Canudos quatro dias antes do fim da guerra. O que Euclides da Cunha não viu no arraial, escreveu depois em São José do Rio Pardo, nos intervalos de uma ponte de ferro: Os Sertões, publicado em 1902, o livro em que um correspondente republicano admite que o interior brasileiro não era o que o litoral tinha inventado.
Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu em Cantagalo, no Rio de Janeiro, em 20 de janeiro de 1866, e morreu no Rio em 15 de agosto de 1909, aos 43 anos. Escritor, jornalista, engenheiro e ensaísta, virou o nome que a escola associa à Guerra de Canudos e ao pré-modernismo — e que o leitor adulto reencontra quando quer entender por que um conflito no sertão da Bahia ainda organiza o debate sobre Brasil, sertanejo e Estado.
Quem foi Euclides da Cunha
Filho de Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha e de Eudóxia Alves Moreira da Cunha, ficou órfão de mãe aos três anos e passou a infância entre parentes em Teresópolis, São Fidélis e no Rio. No Colégio Aquino, teve aulas com Benjamin Constant e encontrou o positivismo que marcaria a prosa científica de Os Sertões. Tentou a Escola Politécnica, faltou dinheiro, assentou praça na Escola Militar da Praia Vermelha.
Alguns marcos ajudam a localizar a figura sem inflar o retrato:
- Nasceu na Fazenda Saudade, em Santa Rita do Rio Negro, hoje Euclidelândia, no município de Cantagalo.
- Em 1888, atirou o espadim aos pés do ministro da Guerra Tomás Coelho e foi desligado do Exército; colaborou na propaganda republicana em A Província de S. Paulo, o atual O Estado de S. Paulo.
- Proclamada a República, foi reintegrado, bacharelou-se em matemáticas e ciências físicas e naturais, e casou-se com Ana Emília Ribeiro, filha do major Sólon Ribeiro.
- Em 1897 cobriu a última fase da Guerra de Canudos como correspondente; em 1903 entrou na Academia Brasileira de Letras, cadeira 7, e no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
Do cadete republicano ao engenheiro de obras públicas
A carreira militar durou pouco. Depois da Escola Superior de Guerra, Euclides passou pela Estrada de Ferro Central do Brasil, pelas fortificações da Saúde na Revolta da Armada e por um afastamento em Campanha, Minas Gerais, onde construiu estrada. Em 1894, nas cartas à Gazeta de Notícias, defendeu o Estado democrático contra penas sumárias a adversários políticos e passou a ser visto com desconfiança pelos legalistas. Desligou-se do Exército em 1896 e virou Superintendente de Obras Públicas de São Paulo.
A ponte metálica sobre o Rio Pardo, em São José do Rio Pardo, entre 1898 e 1901, é o cenário mais citado da escrita de Os Sertões: o engenheiro no canteiro, o livro nos intervalos de folga. A casa de zinco da cidade virou endereço da memória pública. Antes de Canudos, o republicano já escrevia no jornal. Os dois artigos de 1897 intitulados A nossa Vendeia comparavam os canudenses aos revoltosos da Vendeia francesa e lhe valeram o convite de Júlio de Mesquita para ir ao sertão da Bahia. Ele partiu convencido de que Antônio Conselheiro restauraria a monarquia. Voltou com outro país na caderneta.
Canudos e a virada de Os Sertões
Entre 7 de agosto e 1º de outubro de 1897, Euclides ficou no sertão como adido ao Estado-Maior e correspondente de O Estado de S. Paulo. Não viu o desenlace. Viu o suficiente para gastar cinco anos no que chamou, na nota preliminar, de intervalos de uma carreira fatigante. O livro saiu em 1902 pela Laemmert & Cia. e dividiu-se em três partes: A terra, O homem e A luta.
A primeira descreve geologia, caatinga, clima e hidrografia do sertão baiano. A segunda fixa o sertanejo — a frase “O sertanejo é, antes de tudo, um forte” saiu daí e virou cartão-postal, quase sempre fora do argumento. A terceira narra as quatro expedições contra o arraial de Belo Monte. O ponto de virada não é o estilo: é a tese. O movimento de Conselheiro deixa de ser conspiração restauradora e passa a ser o choque entre duas sociedades no mesmo território.
Por isso Os Sertões não se lê só como romance, embora a língua seja caudalosa, cheia de neologismo e figura. Lê-se como reportagem, ensaio e documento de um republicano que viu o próprio Exército cometer o que o texto trata como crime inútil e bárbaro se não abrisse caminho a outra política. A escola manda o livro; o leitor adulto volta para a pergunta que o correspondente não conseguiu enterrar: o que o litoral não via quando falava em sertão.
Amazônia, Academia e a morte na Piedade
A fama de 1902 abriu as portas da ABL e do IHGB. Recebido em 1906 por Sílvio Romero, ocupou a cadeira que Valentim Magalhães deixara. Em 1904, o Itamaraty o nomeou chefe da comissão mista brasileiro-peruana de reconhecimento do Alto Purus. A viagem pela Amazônia rendeu o relatório de 1906, o ensaio Peru versus Bolívia (1907) e os textos póstumos de À margem da história, em que denuncia a exploração dos seringueiros. No gabinete do Barão do Rio Branco, o engenheiro de obras públicas virou adido de fronteira.
Em 1907 saiu também Contrastes e confrontos, reunião de artigos. Profere a conferência Castro Alves e seu tempo — o mesmo Castro Alves que a mocidade acadêmica já tratava como poeta dos escravos. Em 1909 prestou concurso para a cátedra de Lógica do Colégio Pedro II. Não deu muitas aulas. Em 15 de agosto daquele ano, no bairro da Piedade, no Rio, tentou matar Dilermando de Assis, amante de sua mulher, e foi morto a tiros. O episódio ficou conhecido como Tragédia da Piedade. O corpo foi velado na Academia Brasileira de Letras. Afrânio Peixoto assinou o atestado e, depois, ocuparia a cadeira.
Não é o gancho da página. É o fim de uma vida curta, depois de um livro que já tinha saído do autor e ido para o país.
O que ler primeiro
Quem chega agora quer caminho, não catálogo. Três portas cobrem a obra sem se repetir:
- Os Sertões: a obra de 1902, terra, homem e luta, ainda o texto que explica por que Euclides é buscado.
- Canudos: Diário de uma expedição: as matérias de 1897, a matéria-prima jornalística antes do livro-monumento.
- À margem da história: o ciclo amazônico, seringal e fronteira, o outro Brasil que ele encontrou depois de Canudos.
Como a obra circula hoje
Euclides está em domínio público. Por isso o mesmo título aparece em bolso escolar, edição comentada, e-book e capa dura. A diferença está no cuidado: nota, estabelecimento de texto, mapa, cronologia. Uma edição da Martin Claret resolve a leitura corrida. A Penguin-Companhia, com introdução de Lilia Moritz Schwarcz e André Botelho, serve a quem quer aparato. A Unesp reuniu o ciclo amazônico com organização e notas.
Na literatura brasileira ele ocupa um lugar incômodo e útil: não é o romancista de gabinete de Machado de Assis, nem o poeta de palco. É o engenheiro que foi à guerra como jornalista e voltou com um livro que a sociologia, a geografia e a história ainda citam. São José do Rio Pardo celebra a Semana Euclidiana em agosto, apresentando-se como berço de Os Sertões. Cantagalo guarda memória e museu. A Rodovia SP-320 leva o nome dele no interior paulista. Em 2018 o nome entrou no Livro de Aço dos heróis nacionais, no Panteão da Pátria. Nada disso substitui a frase mais dura da biografia intelectual: ele descobriu o sertão tarde, escreveu depressa e morreu cedo demais para o segundo livro que a Amazônia pedia.




