A Autobiografia: sua vida e sua obra em prosa e versos é o livro em que Alberto Porfírio da Silva conta a própria trajetória, de 23 de dezembro de 1926 a 2006, e que só foi impresso depois da morte dele.
Não é romance, nem maço de folhetos avulsos, nem manual de repente. É a vida de um cantador, poeta e escultor de Quixadá narrada, na maior parte, em verso. A Secretaria da Cultura do Ceará publicou o volume em 2010, na série Luz do Ceará, um ano depois da morte, ocorrida em 23 de setembro de 2009. Orlando Queiroz respondeu pela edição, Arievaldo Viana pelo esboço biográfico e Raymundo Netto pela coordenação. A sinopse retomada pelo Diário do Nordeste descreve uma biografia em que a poesia carrega a maior parte da memória.
O que o livro cobre
A narrativa começa na Serra do Estevão, no Sertão Central do Ceará. Alberto era filho dos agricultores Porfírio Sabino da Silva e Maria Joana E. Santo e cresceu com sete irmãos, como agregados de uma fazenda no sopé da serra. O texto segue a seca de 1942, a saída com a viola, o alistamento interrompido como soldado da borracha, a volta aos estudos já adulto, a cantoria, as esculturas e os anos em que o cimento passou a cobrar o pulmão.
A revista História e Culturas recupera a casa antes da escola: a mãe lia cordel para os filhos à luz de uma fogueira no terreiro, no tempo da guerra, quando a querosene estava proibida. Esse é o chão do livro. Quem espera uma lista de cargos não encontra. Quem quer saber como um menino agregado vira Mestre Porfírio encontra o caminho contado por ele.
Como o volume foi feito
Alberto compôs o relato já velho e não chegou a ver a impressão. A Wikipédia registra que, depois de um acidente vascular cerebral, a filha transcreveu o que ele ditava, porque ele já não conseguia escrever com as próprias mãos. O resultado tem cerca de 350 páginas e foi apresentado na Casa de Juvenal Galeno, em Fortaleza, a mesma casa que aparece no volume dele sobre as noites de viola.
A capa da edição do Governo do Estado do Ceará traz o nome Alberto Porfirio, a faixa Autobiografia e o brasão do estado. É essa edição institucional, e não uma reimpressão de livraria, que circula nas referências públicas do livro.
Para quem vale abrir
O leitor de cordel e de cantoria de viola encontra o relato de um presidente da Associação dos Cantadores do Nordeste, no período de 1979 a 1986, e não um panorama solto do gênero. O leitor de Quixadá encontra a origem do Sítio da Índia e o motivo pelo qual figuras de Rachel de Queiroz, Padre Cícero, Cego Aderaldo e outros nomes saíram da mão de um poeta da Serra do Estevão.
Também serve a quem acompanha poesia popular, xilogravura e memória do sertão central sem precisar atravessar os 172 folhetos contabilizados pelo Diário do Nordeste. Os folhetos continuam sendo outra porta. Este volume guarda a ordem em que ele mesmo organizou a vida, da serra ao cimento.
Onde ler a respeito
Não há página estável de loja com o exemplar à venda. O texto público mais próximo do miolo é o artigo de Maria Vládia dos Santos Lima na revista História e Culturas, da Universidade Estadual do Ceará, que toma a autobiografia como documento da formação de um cantador. A reportagem do Diário do Nordeste de 1º de setembro de 2012 completa o quadro: descreve a série Luz do Ceará, a morte por silicose e o estado do Sítio da Índia naquele ano.
A edição de 2010 não se comporta como lançamento de prateleira. Quem procura o volume precisa olhar acervos, sebos e a secretaria de cultura, em vez de esperar uma ficha atualizada de marketplace.

