Em 1942, no meio da seca e da Segunda Guerra, Alberto Porfírio da Silva saiu de Quixadá com a viola para ganhar a vida e chegou a se alistar como soldado da borracha. Desistiu pouco antes do embarque. O navio que levou os companheiros, segundo o relato que ele deixou na autobiografia e que o Diário do Nordeste retomou, foi torpedeado.
O nome que se busca depois disso não é o de um repentista de uma noite. É o de um poeta popular, cordelista, xilogravurista e escultor que presidiu a Associação dos Cantadores do Nordeste, espalhou figuras de cantadores em cimento por vários estados e, já sem saúde, ditou a própria vida em prosa e verso. Nasceu na Serra do Estevão, município de Quixadá, em 23 de dezembro de 1926. Morreu em Fortaleza em 23 de setembro de 2009, aos 83 anos.
Quem foi Alberto Porfírio da Silva
No meio da cantoria ele era tratado como Mestre Porfírio. O ofício público juntava três mãos: a da viola, a do folheto e a da escultura. Entre 1979 e 1986 presidiu a Associação dos Cantadores do Nordeste, entidade com sede na Casa do Cantador, em Fortaleza. Foi nesse mesmo espaço que o corpo foi velado. O enterro ocorreu no cemitério da Parangaba.
A Fundação Biblioteca Nacional o apresenta como patrono perpétuo da cadeira 03 da Academia Quixadense de Letras. O Diário do Nordeste, no obituário e numa reportagem de 2012 sobre o que restou da obra, o coloca entre os nomes centrais da poesia popular cearense. Não era fama de palco nacional contínuo. Era presença de quem circulava em peleja, congresso, rádio e praça, e ainda deixava pedra trabalhada no caminho.
A Serra do Estevão e a leitura da mãe
A autobiografia abre no dia do nascimento. Maria Vládia dos Santos Lima, na revista História e Culturas, retoma esse começo: Alberto era filho dos agricultores Porfírio Sabino da Silva e Maria Joana E. Santo, e cresceu com os pais e sete irmãos como agregados de uma fazenda no sopé da Serra do Estevão, no Sertão Central.
A leitura não entrou na casa por escola. Entrou pela mãe. No tempo da guerra, com a venda de querosene proibida, ela lia cordel para os filhos à luz de uma fogueira no terreiro, enquanto a meninada brincava. Os folhetos que formaram esse ouvido, segundo a Fundação Biblioteca Nacional e a Wikipédia, eram os de Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde e Luís da Costa Pinheiro.
A escola formal veio tarde. A Biblioteca Nacional registra o curso primário no Ginásio Santa Cruz, em Parangaba, e o curso de Pedagogia aos 40 anos na Universidade Federal do Ceará. A Wikipédia acrescenta que ele voltou a estudar já mais velho, em sala ginasial ao lado da do filho mais velho. Irisdalva Almeida, historiadora que então respondia pela Fundação Cultural de Quixadá, disse ao Diário do Nordeste que ele se formou e passou a lecionar na UFC. A docência na universidade fica nesse testemunho; o curso de Pedagogia, não.
Cantoria, rádio e a menção do Jornal do Brasil
A viola o levou para fora do sertão. Viajou pelo Brasil em pelejas e congressos, deu curso de cantoria pelo rádio e entrou na fundação da Casa do Poeta Brasileiro, em Brasília. Como cantador-repentista, recebeu menção honrosa especial das mãos da condessa Pereira Carneiro, do Jornal do Brasil.
O Diário do Nordeste anotou outro reconhecimento antigo: o nome de Alberto Porfírio aparece numa coletânea da enciclopédia Delta Larousse publicada no começo dos anos 1960. A reportagem trata o registro como algo visível na contracapa de alguns livros dele, um rastro que os admiradores de Quixadá guardavam para mostrar que o cantador tinha saído do circuito só da feira local.
Esculturas, silicose e o Sítio da Índia
A outra mão era a da argamassa. O contato contínuo com cimento está na origem da silicose que o matou: insuficiência respiratória, no dia 23 de setembro de 2009. A Wikipédia registra ainda um acidente vascular cerebral anterior, que já o deixara debilitado. Deixou sete filhos, vinte netos e dez bisnetos.
O mapa das peças é concreto. Um artigo da revista História e Culturas localiza estátuas dos cantadores Cego Aderaldo e Domingos Fonseca na Casa do Cantador, em Fortaleza; o Cantador Desconhecido no jardim da Casa do Cantador de Brasília; Pe. Zé Bezerra no Choró; Frei Damião em Apodi, no Rio Grande do Norte; Maria Bonita e Lampião em Ocara; e o cantador Eliseu Ventania em Mossoró. O Diário do Nordeste destaca também uma escultura de Cego Aderaldo no terminal rodoviário de Quixadá e um busto na Casa do Cantador. O mesmo jornal contabilizou 36 esculturas e 172 folhetos.
- Cego Aderaldo e Domingos Fonseca, na Casa do Cantador, em Fortaleza
- Cantador Desconhecido, no jardim da Casa do Cantador de Brasília
- Pe. Zé Bezerra, no Choró, e Frei Damião, em Apodi
- Maria Bonita e Lampião, em Ocara; Eliseu Ventania, em Mossoró
- Sítio da Índia, no bairro São João, em Quixadá
O Sítio da Índia foi o conjunto tardio, nos fundos da casa da sobrinha Maria Genézia da Silva Lima, na Rua Argentina, 127. A primeira figura foi a da índia. Em volta vieram a Casinha Branca, uma galeria e peças de Rachel de Queiroz, Padre Cícero, a Virgem Peregrina, uma ema, um pastor com a ovelha e o jogador Bebeto, além de poemas em letras de cimento nas rochas. A reportagem de 2012 encontrou o lugar fora do mapa turístico da cidade, sem placa, mantido pela sobrinha e pelo filho dela. Uma filha de Alberto, a advogada Sílvia Helena, aparecia então com interesse em transformar o sítio em museu, desejo que o pai tinha deixado.
Rachel de Queiroz e Cego Aderaldo são os dois nomes de arte que Quixadá mais repete, embora nenhum dos dois tenha nascido no município. Alberto nasceu lá. A sobrinha usava esse contraste para explicar por que o sítio merecia ficar de pé.
Folhetos, sonetos e o livro que saiu depois da morte
A produção em papel não cabe numa prateleira única. O obituário fala em quase uma centena de folhetos; o levantamento de acervo do Diário do Nordeste chega a 172. Entre os poemas mais repetidos estão Porque não aprendi a ler, No tempo da lamparina, Eu gostei mais foi do cão, Cantiga da Dorinha e A estátua de Jorge.
Os livros de fôlego têm outra função. Poetas Populares e Cantadores do Ceará, de 1977, e O Livro da Cantoria, de 1997, organizam nomes, pelejas e o ofício do repente. Os Cem Sonetos foi o último publicado em vida: lançado em 2008, em Quixadá, na Fundação Cultural Rachel de Queiroz. Há ainda o volume sobre as noites de viola na Casa de Juvenal Galeno.
A autobiografia ficou para depois. O texto percorre 1926 a 2006, em grande parte em verso, e só chegou ao público em 2010, na série Luz do Ceará, da Secretaria da Cultura do Estado. Ele não viu o volume. A Wikipédia descreve cerca de 350 páginas, transcritas pela filha quando ele já não escrevia com as próprias mãos, e um lançamento na Casa de Juvenal Galeno.
Quem chega pelo cordel encontra o repentista. Quem chega por Quixadá encontra o homem que escreveu na pedra do quintal da sobrinha. As duas buscas são a mesma vida: uma cabe no folheto e a outra não sai do lugar.


