O prefácio está datado do Rio de Janeiro, 27 de julho de 2016. Dez dias depois, Ivo Pitanguy morreria. Cirurgia plástica: uma visão de sua amplitude é o livro em que o professor tenta deixar, em português e em volume único, o que considerava transmissível da própria prática. Não é memória. É o testamento técnico de quem passou sessenta anos entre clínica, Santa Casa e sala de aula.
A Atheneu lançou a primeira edição em 30 de agosto de 2016, já póstuma, em capa dura, 728 páginas. O formato é de livro médico: grande, denso, caro de produzir. Destina-se a quem escolheu ou pretende escolher a especialidade, não ao leitor de autobiografia. Pitanguy avisa, no texto de apresentação, que um só volume não cobre a cirurgia plástica inteira. O recorte é a vivência clínica: técnicas que ele desenvolveu e táticas que, nas mãos da equipe, resolveram deformidades concretas.
O que há no volume
O autor recusa a ideia de ensinar só o truque que embeleza. Quer o paciente tratado com ética e com atenção a corpo e ânimo — o equilíbrio interno que permite à pessoa conviver com a própria imagem. Essa frase, num livro de 728 páginas, não substitui o conteúdo operatório; define o critério. Técnica sem indicação vira exagero. Indicação sem técnica vira promessa vazia.
O livro se apoia em situações clínicas vividas, não em compilação genérica de capítulo alheio. Para o cirurgião em formação, isso tem um uso claro: ver como um serviço histórico pensava indicação, limite e resultado. Para o historiador da especialidade, é o fechamento em português de uma escola que já havia se internacionalizado em 1981 com Aesthetic Surgery of the Head and Body, premiado em Frankfurt.
Para quem vale a pena
O leitor certo é o da área: residente, especialista, professor, bibliotecário de escola médica. O leitor leigo que chegou pela fama do autor encontra pouco prazer de narrativa e muito jargão. Quem quer a vida, não a técnica, deve ir a Viver vale a pena. Quem quer o conselho de ofício em formato curto, a Cartas a um jovem cirurgião. Este volume é outra ferramenta: consulta, estudo, transmissão.
- Editora Atheneu, 1ª edição, 2016.
- 728 páginas, capa dura, em português.
- Prefácio assinado em 27 de julho de 2016.
- Foco em técnicas, táticas e indicação clínica, não em memórias.
Como se relaciona com o resto da obra
Ao longo da carreira Pitanguy publicou atlas, capítulos e o tratado ilustrado de 1981. Este livro de 2016 é o retorno deliberado ao português, escrito para o aluno da escola que ele montou no Rio. A coincidência trágica da data — o texto pronto, a tocha olímpica, a morte — não deve virar mitologia. O que o volume pede é uso: ser lido por quem opera ou vai operar, como mais uma peça da transmissão que o autor considerava obrigação de quem “acredita deter algum saber”.
Quem compra hoje encontra um livro médico de circulação restrita, não um best-seller de memória. Isso é coerente com o projeto. Depois de décadas em que o nome Pitanguy virou marca de beleza, o último livro grande insiste no óbvio difícil: cirurgia plástica é ramo da medicina, com indicação, técnica e responsabilidade. Sem isso, a amplitude do título vira só capa.



