Há autobiografias de médico que só acumulam honraria. Viver vale a pena começa em outro tom. Ivo Pitanguy abre o livro dizendo que conhece a morte, que a viu agir a vida inteira e que ela não o apavora; o difícil seria renunciar à alegria de viver. A frase não é enfeite. É o contrato da leitura: memória de um cirurgião que passou décadas entre centro cirúrgico, queimado, fama e família, e que prefere contar a vida como quem ainda está dentro dela.
Publicado em 2014 pela Casa da Palavra, o volume tem 432 páginas. Pitanguy já tinha mais de oitenta anos, seguia na 38ª enfermaria da Santa Casa e na clínica de Botafogo, e ainda viajava para congressos. O livro existe para responder à pergunta que a fama não responde: como um rapaz de Belo Horizonte, filho de cirurgião-geral, virou o nome brasileiro da cirurgia plástica sem reduzir a biografia a lista de pacientes ilustres.
O que a autobiografia cobre
A narrativa sai de Minas, passa pela formação no Rio, pelo aperfeiçoamento nos Estados Unidos, na França e na Inglaterra, e chega à construção da escola. Há o incêndio do circo em Niterói, há a clínica, há a enfermaria, há a rotina de quem opera, ensina e ainda tenta ter fim de semana em Itaipava ou na ilha de Angra. Há também o humor seco de quem já ouviu demais que a especialidade é frescura.
Quem procura ficha técnica de procedimentos vai se frustrar. O livro não substitui atlas nem tratado. Serve a outro uso: entender o temperamento, as escolhas e as contradições de um médico que misturou reconstrução, estética, ensino e vida mundana. Relatos de família e fotos pessoais entram no meio da carreira, o que irrita quem quer só o herói da especialidade e alivia quem quer a pessoa.
Para quem faz sentido
A leitura rende para estudante de medicina curioso sobre vocação, para quem pesquisa a história da cirurgia plástica no Brasil e para o leitor geral que viu o nome na imprensa e quer o relato em primeira pessoa. Não é manual de autoajuda, embora o título sugira conselho de vida. É memória de ofício, com as vaidades e as omissões que uma autobiografia quase sempre carrega.
- Primeira edição brasileira de 2014, Casa da Palavra.
- 432 páginas, em português.
- Foco em memória, carreira e ensino, não em passo a passo cirúrgico.
- Inclui o episódio do Gran Circo Norte-Americano e a rotina na Santa Casa.
Como ler sem confundir com os outros livros
Aprendendo com a Vida, de 1993, já tinha ensaiado o tom memorial. Cartas a um Jovem Cirurgião fala ao iniciante da profissão. Viver vale a pena é o retrato mais amplo, escrito no fim da vida pública, quando o autor já ocupava a Academia Brasileira de Letras e podia olhar a própria lenda de fora. Vale como porta de entrada humana; o aprofundamento técnico fica em outra prateleira.
Quem chegar ao livro depois de conhecer só o mito do cirurgião das celebridades encontra, no melhor dos trechos, o médico que insiste em operar na Misericórdia e o professor que mede o próprio sucesso pela escola, não pelo jet set. Essa tensão — glamour e enfermaria — é o que sustenta a leitura. Sem ela, restaria só o álbum de uma vida bem-sucedida.



