Depoimento é o livro em que Carlos Lacerda fala da política como quem já não precisa pedir voto. Ditado e publicado pela Nova Fronteira em 1978, um ano após a morte do autor, o volume reúne reminiscências da vida pública: UDN, Vargas, Juscelino, Jânio, 1964, cassação. A edição revista que ainda se encontra, com cerca de 470 páginas, traz o retrato desenhado na capa e o tom de conversa longa, não de tratado.
A frase que mais circula está logo à mão: Lacerda diz não gostar de política e gostar do poder; política, para ele, seria meio. A citação virou atalho. Serve para acusar cinismo. Serve também para descrever um método. Quem lê o livro inteiro vê o mesmo homem que escreveu o editorial de 1950, que subiu no Tamandaré e que, anos depois, sentou com JK e Jango na Frente Ampla. A contradição não some. Fica documentada na primeira pessoa.
Este não é um livro de fofoca palaciana. É um depoimento de combatente. Há autojustificação, há ajuste de contas, há o prazer da fórmula. Há também o valor de arquivo: nomes, episódios e leituras que o jornal da época registrou em fatia e que aqui reaparecem costurados pela memória de quem estava no centro da briga.
O que o leitor encontra
Encontra a voz. Lacerda ditava como falava: período curto, gosto pelo aforismo, impaciência com o adversário. Encontra a Carta Brandi, o ódio a Vargas, a desconfiança de Goulart, a decepção com os militares amigos que, na leitura dele, trocaram eleição por tutela. Encontra ainda o Lacerda empresário e editor, menos glamoroso e mais útil para quem quer saber o que ele fez quando a cassação fechou o palanque.
O volume não é neutro. Ninguém pede neutralidade a um depoimento. O que se pede é confrontar o texto com o jornal, o CPDOC e a historiografia. O próprio autor admite pressa, gosto pelo poder e desprezo por certa formalidade jurídica da UDN. Isso é mais honesto do que a lenda do liberal imaculado. Também é mais honesto do que a lenda simétrica do golpista de aluguel. O livro deixa as duas lendas sem teto.
Para quem é
- Quem já sabe o desenho geral de 1945-1964 e quer a versão do próprio Lacerda, com ênfase, omissão e veneno inclusos.
- Pesquisador que precisa citar a fala em primeira pessoa sobre Frente Ampla, militares e imprensa.
- Leitor que chegou por A Casa do Meu Avô e agora quer o adulto político, não o menino da fazenda.
Como usar o livro
Leia como fonte, não como sentença. Quando Lacerda descreve Vargas, está descrevendo o inimigo. Quando descreve 1964, está descrevendo uma aposta que depois repudiou em parte. Quando descreve a cassação, está descrevendo a derrota. Cruzar com a Tribuna da Imprensa, com o verbete do CPDOC e com a biografia em curso de Mário Magalhães evita engolir o ditado como ata.
A edição da Nova Fronteira em português é a referência. Há reimpressões; o texto é o depoimento póstumo, não um romance paralelo. Quem busca “o Lacerda secreto” às vezes espera carta íntima. Isso fica melhor em Cartas 1933-1976. Aqui o registro é público: um homem de imprensa e de partido explicando, a seu modo, as guerras que escolheu.
Perguntas frequentes
O livro foi escrito por Lacerda à mão?
Não no sentido de manuscrito único. As reminiscências foram ditadas e saíram após a morte, em 1978, pela editora que ele criou.
Substitui uma biografia?
Não. É o ponto de vista do biografado. Para o arco completo, o depoimento é peça, não altar.




