Em 1º de junho de 1950, na Tribuna da Imprensa, Carlos Lacerda publicou uma sentença que ainda circula como programa de recusa: Getúlio Vargas não devia ser candidato; candidato, não devia ser eleito; eleito, não devia tomar posse; empossado, cabia recorrer à revolução para impedi-lo de governar. Pouca gente no Brasil republicano concentrou tanta tinta, palanque e rancor público contra um único adversário.
Carlos Frederico Werneck de Lacerda nasceu no Rio de Janeiro em 1914, recebeu o nome em homenagem a Karl Marx e Friedrich Engels e passou a juventude na esquerda estudantil. Décadas depois, o mesmo homem seria o orador mais reconhecível da União Democrática Nacional, governador do Estado da Guanabara e fundador da editora Nova Fronteira. Quem busca o nome hoje quer entender essa virada, o atentado da Rua Tonelero, o governo do Rio e os livros que restaram depois da cassação.
Quem foi Carlos Lacerda
Foi jornalista, escritor, empresário e político brasileiro. Filho do tribuno Maurício de Lacerda e neto do ministro do Supremo Tribunal Federal Sebastião Lacerda, cresceu numa família com peso no Vale do Café e no Distrito Federal. Nasceu no Rio, então capital, e foi registrado em Vassouras, município da família. Ingressou em 1929 na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, atual Faculdade Nacional de Direito da UFRJ, destacou-se como orador no Centro Acadêmico Cândido de Oliveira e abandonou o curso em 1932, por envolvimento político e por não ver vocação na banca.
A biografia pública dele não cabe no rótulo único de “udenista”. Antes da UDN, leu o manifesto de lançamento da Aliança Nacional Libertadora, em 1934, e sugeriu Luís Carlos Prestes como presidente de honra da entidade. Em 1935, publicou O Quilombo de Manuel Congo sob o pseudônimo Marcos. O rompimento com o comunismo veio em 1939: passou a tratar a doutrina como caminho para uma ditadura mais organizada e, portanto, mais difícil de derrubar. A partir daí, tornou-se um dos porta-vozes mais ruidosos do conservadorismo liberal brasileiro.
Alguns marcos ajudam a localizar a pessoa sem transformar a página numa linha do tempo seca:
- Nascimento em 30 de abril de 1914, no Rio de Janeiro, com registro em Vassouras.
- Fundação da Tribuna da Imprensa em 1949, depois de passagem pelo Correio da Manhã.
- Atentado da Rua Tonelero em 5 de agosto de 1954, com a morte do major Rubens Florentino Vaz.
- Governo do Estado da Guanabara entre 1960 e 1965.
- Criação da editora Nova Fronteira em 1965.
- Cassação em dezembro de 1968 e morte no Rio, em 21 de maio de 1977, por infarto.
Como a juventude de esquerda virou oposição a Vargas
A pergunta que o leitor faz com razão é simples: como o rapaz batizado em homenagem a Marx e Engels virou o inimigo mais famoso do getulismo? A resposta não é um milagre de conversão. É uma sequência de rupturas públicas. Na ANL, Lacerda falava a uma plateia anti-imperialista. No fim dos anos 1930, já descrevia o comunismo como ditadura. Em 1945 entrou na UDN. Em 1947 elegeu-se vereador no Rio e renunciou em 1948. A tribuna que realmente lhe interessava era a da imprensa.
A Tribuna da Imprensa nasceu em 1949 como jornal próprio, instrumento de crítica a Vargas e a seus aliados. Lacerda já tinha ofício de colunista; o jornal deu escala à voz. O editorial de 1950 contra a candidatura de Vargas não foi um deslize de humor. Foi a declaração de um método: tratar a eleição como etapa, não como veredito. Essa lógica reaparece na tentativa de barrar a posse de Juscelino Kubitschek, no episódio da Carta Brandi, na fuga no cruzador Tamandaré e no breve exílio em Cuba ainda sob Fulgencio Batista.
Na Câmara, integrou a chamada banda de música da UDN. O estilo era o do tribuno: frase curta, adjetivo cortante, gosto pelo confronto ao vivo. Quem lê só o resumo escolar perde o ponto. Lacerda não era apenas “contra Vargas”. Era contra o arranjo que, na leitura dele, transformava voto, sindicato e Estado em máquina de tutela. Por isso a página de política no Brasil do século XX atravessa o nome dele com tanta frequência.
O atentado da Rua Tonelero
Em 5 de agosto de 1954, Lacerda voltava de uma palestra no Colégio São José, na Tijuca, quando foi baleado na porta do prédio 180 da Rua Tonelero, em Copacabana. O major da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz, que o acompanhava, morreu. Lacerda foi ferido no pé. No hospital, acusou homens do Palácio do Catete. A investigação chegou a Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Vargas, e envolveu o irmão do presidente, Benjamim Vargas.
O crime não “causou” sozinho o suicídio de Vargas, em 24 de agosto. Havia crise do petróleo, pressão sindical, Guerra Fria e oposição civil-militar já acumulada. O atentado, porém, deu palco nacional à denúncia e transformou Lacerda em personagem de uma tragédia de Estado. Depois da carta-testamento e da comoção, a sede da Tribuna foi atacada e Lacerda deixou o país por um tempo. A biografia dele, daí em diante, nunca se despregou daquela calçada de Copacabana.
O episódio voltou ao cinema e à televisão. Alexandre Borges o interpretou em Getúlio (2014). Carlos Cabral o fez na minissérie Agosto (1993). Isso não substitui o jornal nem o inquérito. Mostra só o tamanho da cena: o Brasil ainda discute 1954 porque o tiro, o major morto e o suicídio no Catete continuam a pedir um responsável, um mote e um vilão. Lacerda ocupou, para muitos, o terceiro papel. Para outros, o de sobrevivente.
O governo da Guanabara
Com a capital transferida para Brasília, o antigo Distrito Federal virou Estado da Guanabara. Lacerda candidatou-se e venceu por margem estreita, ajudado pela divisão do voto popular com Tenório Cavalcanti. Governou de dezembro de 1960 a outubro de 1965. O recorte que interessa ao leitor de hoje não é a lenda do “administrador eficiente” nem a caricatura do “demolidor de presidentes”. É o que o governo fez na cidade.
No seu mandato começaram ou avançaram obras que ainda organizam o Rio: o Aterro do Flamengo, inaugurado em 1965; o Túnel Santa Bárbara, inaugurado em 1964; o Túnel Rebouças, projetado e iniciado então e inaugurado em 1967. Também avançou a remoção da Favela do Esqueleto e da Favela do Pasmado, com transferência de moradores para conjuntos como a Cidade de Deus, a Vila Kennedy e a Vila Aliança, financiados pela Aliança para o Progresso, programa associado a John F. Kennedy. Em março de 1962, o governador esteve com Kennedy na Casa Branca.
Houve o outro lado, e ele não pode sumir do perfil. A imprensa de oposição acusou o governo de instruir policiais a matar mendigos e lançar corpos no rio da Guarda. A Assembleia Legislativa da Guanabara abriu CPI, com relatoria de Paulo Duque. Tratar a gestão só como túnel e aterro seria propaganda. Tratar só como violência seria outro cartaz. O governo Lacerda foi as duas coisas ao mesmo tempo: obra visível e conflito urbano duro.
Em 24 de agosto de 1961, atacou em cadeia de rádio e televisão o presidente Jânio Quadros, até então aliado. No dia seguinte, Jânio renunciou. Anos depois, em debate na Band, Jânio ainda atribuía a Lacerda o 25 de agosto. A frase importa porque descreve o método: Lacerda não era só comentarista da crise. Entrava nela.
1964, a Frente Ampla e a cassação
Lacerda participou das articulações civis que antecederam o golpe de 1964. No Rio, entrincheirou-se no Palácio Guanabara com a polícia militar e voluntários, à espera de um ataque dos fuzileiros do almirante Cândido Aragão que não veio. O discurso de 1º de abril contra Aragão é documento de ódio político em estado puro. Em julho de 1964, Portugal lhe concedeu a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo.
A lua de mel com o regime durou pouco. Em 1965 já criticava Castelo Branco. A suspensão da eleição direta para presidente encerrou a pretensão sucessória. Afastou-se do governo da Guanabara em 4 de novembro de 1965. Em novembro de 1966 lançou a Frente Ampla com dois antigos alvos: Juscelino Kubitschek e João Goulart. A aliança parecia paradoxo só para quem acreditava que o ódio pessoal era o programa inteiro. Para Lacerda, o programa passou a ser reconquistar o voto direto contra a tutela militar.
Em dezembro de 1968 foi cassado. Ficou preso em um regimento de cavalaria da Polícia Militar, na mesma cela que o antigo companheiro do PCB Mário Lago, com quem não falava havia décadas. Depois tentou o jornalismo de novo, colaborou em O Estado de S. Paulo e no Jornal do Brasil sob o pseudônimo Júlio Tavares, viajou à Europa e à África como enviado e concentrou-se nas empresas: Crédito Novo Rio, Construtora Novo Rio, Nova Fronteira e Nova Aguilar.
O jornalista que virou editor
A editora Nova Fronteira, criada em 1965, é a parte da biografia que sobrevive no catálogo. Lacerda saiu do palácio e entrou no livro. Não como ensaísta ocasional: como dono de casa editorial que publicaria, entre outras coisas, a própria prosa. Perto da morte saiu A Casa do Meu Avô (1977), memória da fazenda do avô. No ano seguinte veio Depoimento (1978), volume ditado de reminiscências políticas. Há ainda A missão da imprensa, conferência de 1949 publicada em 1950, e o volume de Cartas 1933-1976, organizado décadas depois.
Esses livros não são brinde de político aposentado. São o lugar em que a voz de palanque encontra o arquivo. Quem quer o Lacerda da infância vai à casa do avô. Quem quer o Lacerda que admite gostar do poder abre o depoimento. Quem quer o ofício de jornalista lê a missão da imprensa. Quem quer o tom privado, a correspondência. A página de literatura cabe aqui sem forçar: o homem de jornal também escreveu memória, discurso e carta com ambição de estilo.
Era católico, torcedor e sócio-proprietário do Flamengo, casado com Letícia Abruzzini desde 1935. Em 20 de maio de 1977 internou-se na Clínica São Vicente com quadro de gripe. No dia 21 morreu de infarto, com febre, desidratação e diabetes, aos 63 anos. A proximidade com as mortes de Juscelino e Jango alimentou ficção, como o romance Beijo da Morte, de Carlos Heitor Cony. No caso de Lacerda, a versão documental aponta para infarto, não para enredo de condor.
Perguntas frequentes
Carlos Lacerda foi presidente do Brasil?
Não. Foi vereador, deputado federal e governador da Guanabara. Queria a presidência pela via eleitoral; o regime militar fechou essa porta e, em 1968, cassou seus direitos políticos.
Qual jornal ele fundou?
A Tribuna da Imprensa, em 1949. Antes, foi colunista do Correio da Manhã. Depois da cassação, ainda escreveu sob o nome Júlio Tavares.
O que foi o atentado da Rua Tonelero?
Um ataque a tiros em 5 de agosto de 1954, em Copacabana. Lacerda sobreviveu ferido. O major Rubens Vaz morreu. A investigação ligou o crime à guarda pessoal de Vargas e aprofundou a crise que terminou no suicídio do presidente.
Qual livro começar?
Para a memória afetiva, A Casa do Meu Avô. Para a política em primeira pessoa, Depoimento. Para o ofício de imprensa, A missão da imprensa. Para o arquivo íntimo, Cartas 1933-1976.





