Desglobalização não é manual de investimento nem diário de bordo. O livro traz um argumento de 2016 sobre a crise do que Marcos Troyjo chamou de globalização profunda, e sobre o que isso mudaria para a inserção do Brasil.
O ciclo que o livro recorta
A sinopse publicada pelo Clube de Autores descreve um período aberto no fim da Guerra Fria. Os eixos, no texto de apresentação, são economia de mercado, democracia representativa, proeminência dos Estados Unidos, ascensão asiática puxada pelo Japão e pelos Tigres, e integração regional cujo exemplo maior era a União Europeia. O corte é 2008. A quebra do Lehman Brothers e o começo da Grande Recessão abrem, na formulação do autor, um risco de desglobalização: Ocidente em xeque, Estados Unidos sem rumo claro, China hipercompetitiva e o Estado-nação de volta ao centro da cena.
O parágrafo seguinte da capa fala em lógica do cada um por si. Países e empresas passariam a redesenhar estratégia em chave mais protecionista e mais individual. A pergunta que o volume deixa para o leitor brasileiro é direta: o que esse freio significa para quem depende de inserção externa.
Desacelerar não é parar
Em abril de 2025, numa entrevista ao InfoMoney, Troyjo voltou ao termo e fez um corte que a capa não grifa com a mesma nitidez. Desglobalização, disse ele, não é o contrário de globalização. É mais próximo de desaceleração: o veículo segue, mas a estrada está esburacada ou a névoa está alta. O livro de 2016 nomeia o risco. A entrevista, quase dez anos depois, recusa a leitura de fim de jogo.
Na mesma conversa ele delimita o intervalo. Da queda do Muro de Berlim à queda do Lehman Brothers, o que houve foi globalização profunda — expressão que prefere à hiperglobalização usada por Daniel Rodrik, economista de Harvard. De 2008 para cá, enxerga uma força de desglobalização em operação. O vocabulário é dele. O livro é o lugar em que esse vocabulário ganhou capa, antes de virar palavra de entrevista.
O lançamento na Flip e a edição
A primeira edição é de 2016, em português, com 291 páginas, brochura com orelha, no formato A5, pelo Clube de Autores. A Folha registrou o lançamento em 1º de julho daquele ano, às 19h, na Casa da Liberdade, no centro histórico de Paraty, durante a Flip. Na época Troyjo dirigia o BRICLab na Columbia e escrevia para o jornal às quartas. A reportagem resume o miolo nos mesmos termos da sinopse: crise da globalização profunda, 2008, perda de influência americana, ascensão chinesa e retorno de um ideal nacionalista.
A página da Amazon oferece a edição do Clube de Autores, com a mesma sinopse e a mesma contagem de páginas. A data de 2016 é a da primeira edição e do evento na Flip. O livro saiu enquanto o autor ainda estava na universidade americana, anos antes da secretaria de Comércio Exterior e da presidência do banco.
Quem se beneficia da leitura
O público desenhado pelo texto de apresentação é quem quer situar o Brasil num comércio mais desconfiado, não quem procura tabela de tarifa ou roteiro de negociação. Técnica aduaneira e o acordo Mercosul-União Europeia pertencem a outros capítulos da vida pública de Troyjo, posteriores a 2016. Forçar o volume a funcionar como ata dessas negociações é ler fora da data.
Quem já conhece Nação-comerciante: poder e prosperidade no século XXI encontra aqui o mesmo par de palavras, poder e prosperidade, num cenário menos otimista. A Folha lembrou, no lançamento, que aquele livro anterior entrou na seleção de 2007 da Americas Quarterly entre obras de economia, negócios e políticas públicas no hemisfério. Desglobalização não depende dessa lista. Depende da conjuntura que o autor quis nomear cedo.
O que a ficha aberta não substitui
Editora e livraria expõem sinopse, formato e data. Não reproduzem um sumário capítulo a capítulo. Tratar o livro como previsão cumprida de Brexit, de tarifa ou de qualquer governo posterior é empurrar um texto de 2016 para manchetes que ele não carrega. O próprio autor, em 2025, insiste no sentido de freio. O veículo, na imagem que ele usa, não parou.

