Do vinil ao download é o relato em que André Midani conta a indústria do disco pelo lado de quem assinava o contrato, não pelo lado de quem subia no palco. A edição que circula desde 2015, pela Nova Fronteira, revisa e amplia o volume lançado em setembro de 2008 com o título Música, ídolos e poder: do vinil ao download. Quem chega pelo nome curto encontra o mesmo livro de memórias, agora sem o trecho que tirou a primeira impressão das prateleiras e com capítulos que a edição anterior não tinha.
O ponto de partida é uma vida que não cabe em cargo. Midani reconstitui a infância na França, a passagem pela Normandia em 1945 no desembarque aliado, a fuga da guerra da Argélia e o desembarque no Rio em dezembro de 1955. Dali em diante o texto acompanha a Decca, a Odeon, a Imperial, a Capitol, a Philips e a Warner, com as decisões de cast que puseram bossa nova, MPB e rock brasileiro dentro de gravadoras multinacionais. Não é um catálogo de discos. É a memória de como o disco era escolhido, pago, promovido e, mais tarde, comprimido num arquivo.
O que o livro entrega
A proposta, escrita pelo próprio Midani no prefácio e retomada em resenhas da obra, é manter o equilíbrio entre o que ele chamava de sagrado, a música, e o que chamava de profano, o lucro. O leitor encontra causos de estúdio e de escritório ao lado de uma leitura da mudança de formato: do 78 rotações ao long-play, do vinil ao CD, do CD ao MP3. Fernanda Torres, na apresentação que a edição comercial destaca, separa as camadas: não é só autobiografia nem só testemunho de bastidor. É também uma reflexão sobre produção, veiculação e comércio de música popular.
Zuenir Ventura, na introdução da primeira edição, comparou o volume a uma espécie de índice da MPB moderna, pelo tanto de nomes que passam pelas páginas: João Gilberto, Tom Jobim, Elis Regina, Os Mutantes, Chico Buarque, Caetano Veloso, Tim Maia, Lulu Santos, Titãs. O valor para quem lê hoje está menos na lista e mais no lugar de onde a lista é vista. Midani não era o compositor. Era o presidente que reduziu um cast de 155 nomes para cerca de 50 na Philips, que ouviu a bronca de um artista querer sair e que, na década seguinte, apostou em bandas ainda sem disco de ouro.
A retirada de 2008 e a edição de 2015
A primeira tiragem, de 30 mil exemplares, não ficou muito tempo intacta nas livrarias. A família de Enrique Lebendiger, ex-proprietário da RGE, reagiu a uma passagem em que Midani punha em dúvida a capacidade dele de acompanhar a carreira de Chico Buarque. O Globo registrou, em novembro de 2008, o pedido de recolhimento e a proposta da Nova Fronteira de cortar o trecho numa impressão seguinte. Mauro Palermo, então diretor-executivo da editora, explicou que boa parte dos volumes já tinha sido vendida às lojas. O desfecho prático, nos anos seguintes, foi outro: Midani colocou o livro de graça na internet, dois capítulos por semana e depois o arquivo inteiro, no site que mantinha com o próprio nome. A frase que ele publicou no blog era direta. Podiam ler, baixar e fazer o que quisessem.
A edição de 2015, em capa mole, tem 384 páginas e o ISBN 978-85-209-2117-3. Resenhas da obra revista apontam dois capítulos novos, um deles sobre a relação de Midani com o New Order, e a retirada da passagem que motivou a disputa. O título enxuto, Do vinil ao download, também é o da série que o GNT estreou em março de 2015 e do longa de 120 minutos exibido no Festival do Rio, com direção de Andrucha Waddington e Mini Kerti. O livro veio antes da série. A série não substitui a leitura: os episódios são encontros filmados na casa dele; o volume é a prosa corrida, com a cronologia que a televisão condensou.
Para quem vale abrir
O livro serve a quem quer entender a música brasileira pelo escritório da gravadora, não só pela ficha de um artista. Interessa a quem estuda bossa nova, Tropicália, o rock dos anos 1980 ou a passagem do vinil para o arquivo digital, e também a quem trabalha com catálogo, rádio e direitos autorais e precisa ver como essas decisões eram tomadas quando o disco ainda pagava a conta. Não promete método de carreira nem manual de negócio. Midani avisa, no prólogo que circula com o texto, que a leitura decepciona quem espera teoria musical ou confissão íntima sobre os artistas. O que há é episódio vivido e a conta que a indústria fazia em cima dele.
- 2008: primeira edição pela Nova Fronteira, com 30 mil exemplares e o título longo.
- Meses depois: disputa com a família Lebendiger e o texto liberado de graça na internet.
- 2015: edição revista e ampliada, a que permanece como via de leitura em papel.
- O mesmo ano: a série do GNT e o longa do Festival do Rio usam o título, mas não esgotam o livro.
A rota de compra da edição de 2015 é o volume da Nova Fronteira. Preço de sebo e de loja oscila, e não cabe fixar um número aqui. O que não oscila é o objeto: um livro de memórias de executivo, escrito por quem presidiu a Philips no Brasil e implantou a Warner na América Latina, e que ainda é a melhor porta para entender por que tantos discos brasileiros saíram com o nome de André Midani do outro lado da mesa.

