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André Midani

André Haidar Midani

Nascimento: 1932 Rio de Janeiro, RJ
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Sírio criado na França, presidiu a Philips no Brasil, implantou a Warner e atravessou a bossa nova, a MPB e o rock dos anos 1980.

Em 5 de dezembro de 1955, André Midani viu o sol nascer sobre a baía de Guanabara e decidiu descer. O navio que o tirava da guerra da Argélia tinha parado no Rio. Ele vinha da França, onde fora criado, e o ofício que a mãe imaginava para ele era o de confeiteiro. O que o esperava no cais era a indústria do disco, ainda sem nome pronto para o trabalho que ele acabaria fazendo.

Quem procura André Midani não procura um cantor. Procura o executivo que esteve dentro da Odeon, da Philips e da Warner quando a bossa nova virou mercado, quando a MPB ocupou o elenco de uma gravadora no prejuízo e quando o rock brasileiro dos anos 1980 ganhou contrato. André Haidar Midani nasceu em Damasco, na Síria, em 25 de setembro de 1932, foi para a França por volta dos três anos e morreu no Rio de Janeiro na noite de 13 de junho de 2019, aos 86 anos, na Casa de Saúde São Vicente, na Gávea, depois de um câncer diagnosticado meses antes.

Quem é André Midani

O nome circula sempre que alguém reconta a música gravada no Brasil entre o fim dos anos 1950 e os anos 1990. Não porque ele tenha assinado versos, e sim porque escolhia quem entrava no estúdio, quem saía do cast e em que país a gravadora ia abrir filial. A revista Billboard o colocou entre as 90 pessoas mais importantes da história da indústria mundial de discos. Em 2005, o governo francês o condecorou. Biografias de referência também registram o título de Homem do Ano no Midem de 1999 e a passagem pelo conselho da IFPI, a federação internacional dos produtores de discos, inclusive na presidência da seção latino-americana.

Ele mesmo descrevia o ofício com uma frase seca, publicada no livro de 2008: a canção, e não mais o disco inteiro, precisava ter começo, meio e fim, e virar um “jingle da vida” nos três minutos em que existia. Na mesma passagem, apontava o efeito colateral. Quando todas as rádios passaram a tocar a mesma “música de trabalho”, o preço do jabá foi à estratosfera. Em 2003, numa entrevista à Folha de S.Paulo, ele já tinha falado desse mecanismo sem eufemismo.

Da Decca em Paris à Capitol no Rio

A carreira começou em 1952, na Decca, na França. Entrou como apontador de estoque, passou a vendedor e só depois ocupou uma função que ainda não tinha nome no organograma: achar projetos fonográficos. A guerra da Argélia o empurrou para fora. Em entrevista, contou que não quis servir, entrou no rol dos desertores e pegou um navio rumo a países que não exigiam visto. O Rio, visto da baía, resolveu o resto.

No dia seguinte à chegada, folheou as Páginas Amarelas atrás de gravadoras e ligou para a Odeon. Sem fluência em português, falou inglês com a telefonista. Ela o tomou por funcionário da matriz europeia e passou a ligação à presidência. A entrevista aconteceu. O emprego era lançar o selo Capitol Records no Brasil, de início com o cast internacional. A partir de 1957, o trabalho pendeu para a música feita aqui.

O fotógrafo Chico Pereira o apresentou a Carlos Lyra, Roberto Menescal, Nara Leão, Ronaldo Bôscoli e Oscar Castro-Neves. Dorival Caymmi lhe apresentou João Gilberto. Tom Jobim já era conhecido pelos arranjos na Rádio Nacional, ainda não pelas canções. Midani entendeu que aquela música servia a um público jovem que o Brasil quase não atendia, enquanto França e Estados Unidos já tinham Charles Aznavour, Gilbert Bécaud, Juliette Gréco, Elvis Presley e Bill Haley. O lançamento comercial da bossa nova, na parceria com Aloysio de Oliveira, é um episódio que ele resumiu sem pose: se houve hesitação da parte de Aloysio, ele foi talvez o instrumento que tirou essa hesitação.

Em 1960, um atrito com Bill Morris, presidente da Odeon, encerrou o ciclo. Com financiamento da própria Odeon, Midani fundou a Imperial, que vendia discos de porta em porta. A empresa chegou, em alguns momentos, a vender mais que a Odeon e se espalhou por Argentina, Venezuela, Peru e México. O resultado o levou a instalar a Capitol no México e, depois, em Los Angeles. Ficou na Capitol até 1968.

Philips, Phonogram e o elenco da MPB

O convite seguinte tinha prazo. A Philips no Brasil, hoje no guarda-chuva da Universal Music, estava no prejuízo. Midani recebeu três anos para torná-la lucrativa ou ver a operação fechada. O cast tinha 155 artistas. Ele reduziu para cerca de 50 e manteve nomes que já sustentavam o selo, entre eles Elis Regina, Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Os Mutantes, Edu Lobo e Ronnie Von.

Armando Pittigliani ficou com divulgação, promoção e marketing. Roberto Menescal foi chamado a diretor artístico porque Midani queria um músico nessa cadeira. A companhia operou com o nome Phonogram, depois PolyGram, reunindo a Philips, sob Menescal, e a Polydor, sob Jairo Pires. O elenco engrossou com Maria Bethânia, Vinicius de Moraes, Toquinho, Tim Maia, MPB-4, Chico Buarque, Jorge Ben (depois Jorge Ben Jor), Evaldo Braga, Luiz Melodia, Jards Macalé e Raul Seixas, entre outros.

Um anúncio de duas páginas, nos anos 1970, reuniu o cast inteiro e fechou com a frase que ainda se cita: “Só nos falta o Roberto... Mas também ninguém é perfeito!” O Roberto era Roberto Carlos, então na CBS. Em 1973, a Phonogram ainda promoveu o Phono 73, festival não competitivo com boa parte daquele elenco. Midani ficou na presidência até 1976.

A Warner, o rock e a América Latina

Nesuhi Ertegun o chamou para montar a Warner no Brasil. A gravadora entrou com cerca de 3% do mercado. O cast que ele contratou incluía Elis Regina, Tom Jobim, Gilberto Gil, Belchior, Hermeto Pascoal, João Gilberto, Paulinho da Viola, Ney Matogrosso, Raul Seixas, Guilherme Arantes, Baby Consuelo (depois Baby do Brasil), Oswaldo Montenegro, Pepeu Gomes, A Cor do Som, Banda Black Rio e As Frenéticas. A participação subiu para cerca de 14%.

Na década de 1980, a mesma casa apostou no rock brasileiro. Entraram Lulu Santos, Titãs, Barão Vermelho, Ultraje a Rigor, Ira!, Inocentes, Kid Abelha e Camisa de Vênus, entre outros. Em 1983, Midani levou a Warner à Argentina. Em 1984, ao México. Em 1990, mudou-se para Nova York como presidente da Warner para a América Latina e reforçou a operação em Argentina, México, Colômbia, Peru, Venezuela e Chile. Chegou a integrar o conselho de direção da gravadora na Itália e na Espanha. A partir de 2000, passou ao conselho consultivo da Warner Music International.

O regresso, o livro e a série

Em 2002 ele voltou a morar no Brasil e passou a trabalhar na ONG Viva Rio. Em 2005, a convite do ministro Gilberto Gil, assumiu o comissariado-geral do Ano do Brasil na França. No depoimento que deu à Revista E, do Sesc, contou que o telefonema o alcançou nos Estados Unidos e descreveu a escala do ano: cerca de 450 projetos oficiais, escolhidos entre 3.600, mais 250 projetos paralelos. No mesmo 2005 veio a condecoração francesa. Ainda em 2015, já fora do comando diário das gravadoras, fez a curadoria do projeto Inusitado, que reuniu no mesmo palco Anitta, Arnaldo Antunes e Arlindo Cruz.

O relato em primeira pessoa saiu em setembro de 2008 pela Nova Fronteira, com o título Música, ídolos e poder: do vinil ao download, numa tiragem de 30 mil exemplares. Poucos meses depois, a família de Enrique Lebendiger, ex-proprietário da gravadora RGE, pediu a retirada do livro por causa de uma passagem a respeito dele. A editora propôs cortar o trecho nas impressões seguintes. Midani, por sua vez, publicou o texto de graça no próprio site, capítulo a capítulo e depois num arquivo único. Em 2015, a Nova Fronteira relançou a obra revista e ampliada como Do vinil ao download.

O mesmo título virou série no GNT em 10 de março de 2015: cinco episódios de cerca de 60 minutos, produção da Conspiração Filmes, direção de Andrucha Waddington e Mini Kerti, gravados em encontros na casa dele. No Festival do Rio daquele ano, o material também circulou como longa de 120 minutos. Não é discografia. É o mapa de quem decidia o disco.

  • 1932: nasce em Damasco e, ainda criança, passa a viver na França.
  • 1952–1955: Decca em Paris; deixa a França por causa da guerra da Argélia.
  • 1955–1960: Odeon e selo Capitol no Rio, no circuito da bossa nova.
  • 1968–1976: presidência da Philips/Phonogram no Brasil.
  • 1976–1990: Warner no Brasil, na Argentina, no México e, por fim, a presidência para a América Latina, em Nova York.
  • 2008 e 2015: o livro de memórias e a série do GNT.

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