Dossiê Brasília reúne as entrevistas que Geneton Moraes Neto fez com quatro ex-presidentes da República: José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. O material foi exibido parcialmente pelo Fantástico, em 2005, e chegou ao livro com o texto integral, acrescido de conversas complementares. A edição, publicada pela Editora Globo, organiza depoimentos que atravessam a Nova República de ponta a ponta.
A proposta do livro é simples e ambiciosa: deixar que cada presidente conte o próprio governo, as crises, as transições e as negociações nos corredores do poder. Não se trata de uma história neutra da República. Trata-se de um conjunto de testemunhos, com as escolhas, os silêncios e as versões de quem ocupou o Palácio do Planalto.
Quatro versões do poder
Cada entrevista tem um tom próprio. Sarney fala da transição após a ditadura e da construção da Constituição de 1988. Collor revisita o impeachment e a relação conturbada com o Congresso. Itamar Franco trata do período de instabilidade que sucedeu o afastamento e da condução do governo até a eleição de 1994. Fernando Henrique Cardoso aborda o Plano Real, as privatizações e os oito anos de governo.
O leitor não encontra um relato único. Encontra quatro narrativas que às vezes se cruzam e às vezes se contradizem. Essa é a maior qualidade do livro: ele não tenta apagar as diferenças. Geneton conduz as conversas com a paciência de quem conhece o valor do depoimento longo, mas não abre mão de perguntar sobre os pontos delicados.
O que fica fora do noticiário
Além dos quatro presidentes civis, Dossiê Brasília inclui entrevistas com os militares Ernesto Geisel e João Baptista Figueiredo, que ajudam a compor o quadro da transição. Há também uma conversa com o jovem Lula, registrada em 1979, em sua primeira visita como homem público a Pernambuco. Esses materiais ampliam o recorte e mostram que a história política brasileira não começa nem termina nos mandatos dos quatro entrevistados.
O livro é útil para quem quer entender como os próprios presidentes explicam suas decisões. Também serve como contraponto a análises acadêmicas e reportagens da imprensa. A comparação entre as versões é parte da leitura: o leitor percebe onde as memórias se acomodam e onde entram em atrito.
Como usar o livro
Dossiê Brasília não é uma leitura de fim de semana para quem busca resumo rápido. É um documento de consulta, organizado para quem quer voltar a passagens específicas. Estudantes de história, jornalistas e leitores interessados na política brasileira encontram ali um retrato falado da Nova República, com a vantagem de ouvir os protagonistas sem a mediação de um resumo.
Vale ler com espírito crítico: todo depoimento é uma versão, e nenhum presidente conta a própria história sem escolher o que destacar. O livro ganha quando o leitor confronta as entrevistas entre si e com outras fontes. É nesse uso — como ponto de partida, não como sentença final — que Dossiê Brasília se mostra mais valioso.





