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Geneton Moraes Neto

Geneton

Nascimento: 1956 Recife, Pernambuco, Brasil
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Jornalista e escritor pernambucano (1956–2016), Geneton Moraes Neto transformou entrevistas em documentos sobre política, futebol e cultura.

Geneton Moraes Neto entrevistou três astronautas que caminharam na Lua, duas sobreviventes do naufrágio do Titanic, o copiloto do avião que lançou a bomba atômica sobre Hiroshima e o homem condenado pelo assassinato de Martin Luther King. A lista, que mais parece uma antologia improvável do século XX, explica o tipo de jornalista que ele foi: alguém que tratava a entrevista como documento, e não como conversa de passagem.

Nascido no Recife em 13 de julho de 1956, morreu no Rio de Janeiro em 22 de agosto de 2016, aos 60 anos, depois de um aneurisma da aorta. Entre esses dois pontos, passou por jornais, telejornais, correspondência internacional, livros e documentários. Quem chega ao nome hoje costuma vir por uma dessas portas — uma entrevista antiga, um livro sobre a Copa de 1950, uma frase sobre o ofício de repórter — e encontra uma obra obstinada em ouvir com paciência e publicar com precisão.

Do Recife ao centro do telejornalismo

Geneton começou como repórter no Diário de Pernambuco, em 1972. Entre 1975 e 1980, trabalhou na sucursal Nordeste de O Estado de S.Paulo. Depois passou pela TV Globo Nordeste, como repórter e editor, até se transferir para a TV Globo Rio de Janeiro, em 1985.

Na emissora, foi editor-executivo do Jornal da Globo e do Jornal Nacional, correspondente da GloboNews e do jornal O Globo na Inglaterra e repórter e editor-chefe do Fantástico em duas ocasiões. Antes de se fixar no Rio, viveu em Paris, onde trabalhou em hotel, foi motorista de uma família e estudou cinema na Sorbonne — uma temporada que ele mesmo contava com humor, sem transformar o episódio em mito de origem.

Em 2010, ganhou o Prêmio Embratel de telejornalismo pelas entrevistas com os generais Newton Cruz e Leônidas Pires Gonçalves, exibidas no Dossiê GloboNews. Na ocasião, escreveu no G1: “Não se faz Jornalismo com tédio. Faz-se com devoção. Jornalista existe para levantar – não para derrubar – assuntos”.

A entrevista como método de investigação

A frase ajudou a fixar uma imagem, mas o método era anterior. Geneton preferia a entrevista longa, com tempo para o entrevistado se contradizer, voltar atrás e contar o que não estava no roteiro. Desse formato saíram conversas com presidentes, escritores, militares, artistas e testemunhas de tragédias históricas. O site pessoal que ele manteve no ar, o geneton.com.br, guarda parte desse acervo em textos e transcrições.

O interesse não era colecionar celebridades. Era reconstruir um acontecimento por meio de quem o viveu. A mesma lógica aparece nos livros: em vez de escrever a história apenas a partir de fontes secundárias, ele voltava aos personagens e deixava que a versão deles entrasse no texto, com contradições e tudo.

Os livros que transformaram reportagem em documento

A obra publicada começa em 1983, com Caderno de Confissões Brasileiras, e atravessa três décadas. Os títulos mais conhecidos formam uma série de “dossiês” sobre episódios e personagens da história brasileira:

  • Hitler/Stalin: O Pacto Maldito (1990), em parceria com Joel Silveira
  • Nitroglicerina Pura (1992), também com Joel Silveira
  • O Dossiê Drummond (1994; edição ampliada em 2007)
  • Dossiê Brasil (1997)
  • Dossiê 50 (2000; edição atualizada em 2013)
  • Dossiê Moscou (2004)
  • Dossiê Brasília (2005)
  • Dossiê História (2007)
  • Dossiê Gabeira (2009)

Um dos mais conhecidos é O Dossiê Drummond, construído em torno da última grande entrevista de Carlos Drummond de Andrade, concedida em 1987, semanas antes da morte do poeta. O livro não se limita à transcrição: reúne depoimentos, fitas gravadas, um texto de Paulo Francis e trechos de poemas que dialogam com as respostas. É uma das melhores portas de entrada para o Drummond dos últimos anos — e também um bom exemplo do que Geneton fazia de melhor. Vale conhecer a página de Carlos Drummond de Andrade para situar o poeta antes de entrar no livro.

Dossiê 50 volta ao Maracanã de 16 de julho de 1950, quando o Brasil precisava apenas de um empate contra o Uruguai e perdeu por 2 a 1. Geneton localizou os onze jogadores que entraram em campo e reconstruiu a partida pelo ponto de vista de quem estava lá. Dossiê Brasília reúne as entrevistas com os ex-presidentes José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, exibidas parcialmente no Fantástico, e acrescenta conversas com os militares Ernesto Geisel e João Baptista Figueiredo e um encontro com o jovem Lula, em 1979.

Dossiê Moscou nasceu da temporada como correspondente na União Soviética e acompanha o fim do socialismo real, com depoimentos de personagens da virada de Mikhail Gorbachev. Nitroglicerina Pura, escrito com Joel Silveira, parte de documentos que ficaram cinco décadas guardados em Londres e Washington para compor um retrato da elite política brasileira.

Documentários: a câmera continua a reportagem

Geneton levou o mesmo impulso para o audiovisual. Em 2010, dirigiu Canções do Exílio, sobre o período em que Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Mautner e Jards Macalé viveram em Londres. Em 2013, assinou Garrafas ao Mar: a Víbora Manda Lembranças, primeiro longa-metragem produzido pela GloboNews, montado a partir de vinte anos de conversas com o jornalista Joel Silveira. No mesmo ano, dirigiu Dossiê 50: Comício a Favor dos Náufragos, com os onze jogadores de 1950.

Em 2015, veio Cordilheiras no Mar: a Fúria do Fogo Bárbaro, sobre a polêmica provocada por Glauber Rocha ao apoiar o projeto de abertura política de Ernesto Geisel. O filme recebeu o Prêmio Especial do Júri no 25º Festival Ibero-americano de Cinema, em Fortaleza.

Como a obra é lembrada

Em 2012, a Academia Brasileira de Letras concedeu a Geneton a Medalha João Ribeiro, destinada a personalidades que se destacam na cultura. A morte em 2016 interrompeu uma produção que continuava em ritmo intenso e mantinha o site pessoal como arquivo vivo de entrevistas.

Hoje, a obra dele serve a leitores com interesses diferentes. Quem quer entender um episódio específico — a Copa de 1950, os corredores do poder, o fim da União Soviética — encontra nos livros uma narrativa construída a partir de testemunhos. Quem se interessa pelo jornalismo como ofício vê, nas entrevistas, um jeito de fazer perguntas que não desapareceu: dar tempo ao outro, confrontar versões e transformar a conversa em documento. Para começar, O Dossiê Drummond é a porta mais direta; para quem prefere história do Brasil, Dossiê Brasília e Dossiê 50 oferecem dois caminhos distintos. A tag literatura reúne outros autores e obras do gênero no site.

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Dossiê Drummond
Dossiê Drummond
Livro centrado na última grande entrevista de Carlos Drummond de Andrade, concedida a Geneton em 1987, semanas antes da morte do poeta.
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Dossiê 50
Dossiê 50
Geneton reconstrói a derrota brasileira no Maracanã em 1950 a partir dos depoimentos dos onze jogadores que entraram em campo na final.
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Dossiê Moscou
Dossiê Moscou
Como correspondente na União Soviética, Geneton acompanhou o fim do socialismo real e reuniu depoimentos sobre a virada de Gorbachev.
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Nitroglicerina Pura
Nitroglicerina Pura
Em parceria com Joel Silveira, Geneton usa documentos arquivados em Londres e Washington para reconstruir a atuação da elite política brasileira.
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