Drummond o gauche no tempo é o ensaio em que Affonso Romano de Sant'Anna lê Carlos Drummond de Andrade com método de professor e ouvido de poeta. Fruto da tese de doutorado defendida na UFMG em 1969, o livro teve primeira publicação em 1972 e voltou em edição de recomposição pela Record.
O eixo é o gauche: o deslocado, o que não se encaixa, o poeta que atravessa o tempo em desajuste produtivo. Sant'Anna não usa o termo como enfeite. Percorre a obra drummondiana para mostrar como essa figura se transforma, livro a livro, sem perder a tensão com o mundo.
O que o ensaio faz
Este não é um livro de curiosidades sobre Itabira. É crítica literária de fôlego, escrita por alguém que também era poeta. Essa dupla posição pesa. Sant'Anna lê Drummond com ouvido de versificador e método de professor. A edição de recomposição ainda apresenta ao leitor um dos primeiros textos de Drummond, de 1921, o que reforça o caráter de pesquisa, não de resumo escolar.
O ensaio recebeu os prêmios da União Brasileira dos Escritores, do Estado da Guanabara, Mário de Andrade do Instituto Nacional do Livro e do Governo do Distrito Federal. A lista de reconhecimentos ajuda a medir o impacto na crítica brasileira da época. Para o leitor de agora, o valor está em outra parte: poucos textos sobre Drummond combinam densidade e clareza sem transformar o poeta em estátua.
Para quem comprar
O livro serve a quem estuda literatura brasileira, a quem leciona poesia moderna e a quem já leu Drummond e quer um mapa que não seja biografia romanceada. Também serve a quem chegou em Affonso Romano de Sant'Anna pelo poema de 1980 e quer entender o outro ofício dele: o de crítico.
Não é leitura de uma tarde. São mais de trezentas páginas na edição Record. Vale ter à mão os livros de Drummond, porque o ensaio trabalha com a obra, não com a lenda. Quem busca frase de efeito sobre o “maior poeta brasileiro” vai encontrar, em vez disso, análise do conceito de gauche ao longo do tempo.
Por que este livro explica o próprio Affonso
Há um risco de tratar Sant'Anna só como autor de um poema célebre. Drummond: o gauche no tempo corrige isso. Mostra o professor que montou pós-graduação na PUC-Rio, o pesquisador que foi a Iowa e à UCLA, o mineiro que leu outro mineiro com instrumento crítico próprio.
A relação entre os dois autores não é de discipulado piegas. É de leitura tensa. Sant'Anna reconhece em Drummond o deslocamento que também alimenta a própria poesia pública: estar no país sem se acomodar à versão oficial do país. O ensaio, portanto, não é desvio da obra poética. É o laboratório dela.
Edição e uso prático
A recomposição da Record, com ISBN 8501082244, é a edição que ainda se encontra com mais facilidade. O subtítulo deixa claro que não se trata de um primeiro lançamento inédito, e sim de um texto clássico da crítica drummondiana revisto para novo público.
Use o livro como obra de consulta e como leitura corrida. Os capítulos acompanham a trajetória poética; dá para entrar pelo período que mais interessa. Só não transforme o volume em atalho para não ler Drummond. O ensaio cobra a obra. Sem os poemas, o gauche vira palavra solta.




