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Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano

Nascimento: 1937 Belo Horizonte, MG
Poeta, cronista e ensaísta mineiro, Affonso Romano de Sant'Anna levou a poesia aos jornais e presidiu a Biblioteca Nacional entre 1990 e 1996.

Houve um momento em que a pergunta mais difícil sobre o Brasil não ficou presa a um livro de poemas. Saiu em jornal, virou cartaz e colou em sindicato, universidade e bar: Que país é este? Affonso Romano de Sant'Anna fez a poesia circular onde o debate público já estava, sem esperar que o leitor viesse até a estante.

Nascido em Belo Horizonte em 27 de março de 1937 e morto no Rio de Janeiro em 4 de março de 2025, o escritor mineiro foi poeta, cronista, crítico literário, professor e gestor cultural. Quem busca o nome hoje costuma chegar por esse poema, pelo Prêmio Jabuti de poesia em 2006 com Vestígios ou pela presidência da Fundação Biblioteca Nacional. O que permanece é a figura de alguém que tratou a literatura brasileira como assunto de país, não só de gabinete.

Quem foi Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna reuniu ofícios que, no Brasil, quase sempre andam separados. Escreveu poesia de intervenção e poesia intimista. Fez crítica literária com tese universitária. Assinou crônica em jornal de grande circulação. Deu aula no Brasil e no exterior. Entre 1990 e 1996, ocupou a presidência da Fundação Biblioteca Nacional e empurrou a instituição para uma política de livro e leitura de alcance nacional.

A produção atravessou seis décadas e passou de sessenta obras, entre poemas, ensaios e crônicas. Editoras como Rocco, Record e Global Editora sustentaram boa parte desse catálogo. A marca pública, porém, não é o volume: é a insistência em fazer o texto literário conversar com o país concreto, suas contradições, sua fala comum e seus impasses políticos.

No jornalismo cultural, o jornalista Afonso Borges resumiu o traço que mais o distinguia: a determinação de tornar a poesia popular e social. Não se trata de simplificar o poema até virar slogan. Trata-se de recusar a ideia de que o poeta só fala para o próprio meio.

Formação em Minas e a vida universitária

Sant'Anna formou-se em Letras Neolatinas pela UFMG no início dos anos 1960. Ainda jovem, trabalhou para custear os estudos. Em 1969, doutorou-se pela mesma universidade com uma tese sobre Carlos Drummond de Andrade, depois consolidada no livro Drummond: o gauche no tempo. O recorte é preciso: ele não leu Drummond como monumento intocável, e sim como poeta do gauche, o deslocado que atravessa o tempo sem se acomodar.

A carreira acadêmica saiu cedo do circuito mineiro. Em 1965, lecionou na UCLA, nos Estados Unidos. Em 1968, participou do International Writing Program da Universidade de Iowa, que reuniu escritores de vários países. No ano seguinte ao doutorado, montou curso de pós-graduação em literatura brasileira na PUC-Rio. Entre 1973 e 1976, dirigiu o Departamento de Letras e Artes da mesma universidade e realizou a Expoesia, série de encontros nacionais de literatura.

Também ministrou cursos na Universidade de Colônia, na Universidade do Texas, na Universidade de Aarhus, na Universidade Nova de Lisboa e em Aix-en-Provence. Essa circulação internacional importa porque explica o olhar duplo da obra: firme no chão brasileiro e treinado em comparar formas, tradições e públicos.

Por que Que país é este? atravessou a ditadura

O poema-título de Que país é este? nasceu de uma pergunta pública lançada pelo político Francelino Pereira, então líder do governo Geisel. Sant'Anna devolveu a pergunta em verso. A primeira circulação forte aconteceu em 1980, ainda sob ditadura militar: o texto ganhou destaque no Jornal do Brasil, foi traduzido para o francês, o inglês, o espanhol e o alemão e virou cartaz em escritórios, sindicatos, universidades e bares.

A coletânea não se resume ao poema de capa. Há textos sobre a condição da mulher, a questão indígena, a violência urbana e um prenúncio ecológico, como em “A morte da baleia”. A ousadia estava menos no volume da denúncia e mais no tom: um amor lúcido e melancólico pelo Brasil, sem a simplificação de um “povo” homogêneo. Povo, no poema, também são os falsários, os corruptos e os artistas.

A edição da Rocco que ainda circula hoje é a porta de entrada mais comum para quem quer entender por que o nome de Affonso Romano de Sant'Anna voltou à conversa depois de 2025. O livro explica a autoridade melhor do que qualquer rótulo de “poeta engajado”.

O crítico, o professor e o cronista

Antes de virar presença de jornal, Sant'Anna já era leitor profissional da poesia alheia. A tese sobre Drummond recebeu prêmios da União Brasileira dos Escritores, do Estado da Guanabara, do Instituto Nacional do Livro e do Governo do Distrito Federal. Esse lastro crítico o impediu de virar apenas um autor de versos de circunstância.

Nos anos 1960, participou de movimentos de renovação da poesia brasileira. Durante a ditadura, publicou poemas nos principais jornais do país e reativou, na prática, a relação do poeta com a vida social. Depois, a crônica semanal ampliou o alcance. Escreveu no Jornal do Brasil entre 1984 e 1988, em O Globo até 2005, no Correio Braziliense de 1992 a 2008 e no Estado de Minas até 2014.

A crônica, no caso dele, não era descanso da poesia. Era outro modo de ler o cotidiano com a mesma atenção ao detalhe, à fala e à contradição. Livros como Ler o Mundo e coletâneas de crônicas para jovens mostram esse Affonso que ensina a ler sem infantilizar o leitor.

  • Poesia pública: Que país é este?, texto que saiu do livro para o jornal e o cartaz.
  • Poesia da maturidade: Vestígios, primeiro lugar no Jabuti de Poesia em 2006.
  • Crítica literária: Drummond: o gauche no tempo, tese que virou ensaio de referência.
  • Leitura e política do livro: presidência da Biblioteca Nacional e o volume Ler o Mundo.

O que fez na Biblioteca Nacional

Entre 1990 e 1996, Affonso Romano de Sant'Anna presidiu a Fundação Biblioteca Nacional. O cargo poderia ter sido honorífico. Não foi. Ele tratou a instituição como peça de uma política do livro, não só como guarda de acervo. Nessa gestão surgiram ou se fortaleceram o Sistema Nacional de Bibliotecas e o Programa de Promoção da Leitura (PROLER), que mobilizou voluntários em todo o país.

Também presidiu o conselho do Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e no Caribe (CERLALC). A passagem pela gestão cultural explica por que sua página não cabe só em estante de poesia. Há um Affonso da educação leitora, preocupado com biblioteca, formação de público e circulação do impresso.

Quem chega hoje procurando “quem foi Affonso Romano de Sant'Anna” muitas vezes quer exatamente esse cruzamento: o poeta do poema-manifesto e o administrador que tentou estruturar a leitura como política pública.

Marina Colasanti, o Rio e o fim da vida pública

Sant'Anna foi casado com a escritora Marina Colasanti, morta em janeiro de 2025. A convivência literária do casal é parte da biografia pública: há poemas de tom intimista ligados a essa relação, e a filha Alessandra Colasanti, atriz, roteirista e diretora, também aparece nas notas sobre a família. O casal morava no Rio de Janeiro, cidade em que ele faleceu em casa, aos 87 anos, após anos de Alzheimer diagnosticado publicamente a partir de 2017.

A morte, em 4 de março de 2025, reabriu o poema de 1980. Não porque o texto tivesse envelhecido pouco, e sim porque a pergunta continuou fácil de repetir e difícil de responder. Ler Affonso Romano de Sant'Anna hoje é menos um exercício de nostalgia da ditadura do que um modo de acompanhar um intelectual que recusou o recinto fechado da literatura.

Por onde começar a ler

Quem quer o Affonso da rua e do jornal começa por Que país é este?. Quem busca o poeta mais tarde, já distante do protesto imediato, vai a Vestígios. Quem estuda poesia brasileira precisa de Drummond: o gauche no tempo. Quem trabalha com leitura, escola ou biblioteca encontra em Ler o Mundo o ensaio de quem presidiu a casa do livro e depois voltou a pensar o próprio ofício.

O restante do catálogo — crônicas, antologias, ensaios de arte e volumes de poesia reunida — confirma a amplitude, mas esses quatro eixos já desenham a autoridade: um mineiro que fez da palavra um instrumento público, da crítica um ofício universitário e da biblioteca uma política, sem abandonar o verso.

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Projetos de Affonso Romano de Sant'Anna

Que país é este?
Que país é este?
Coletânea de poemas de Affonso Romano de Sant'Anna em que a pergunta sobre o Brasil saiu do livro, foi para o jornal e virou cartaz público.
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Vestígios
Vestígios
Livro de poemas de Affonso Romano de Sant'Anna sobre memória e passagem do tempo, vencedor do Prêmio Jabuti de Poesia em 2006.
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Drummond o gauche no tempo
Drummond o gauche no tempo
Ensaio de Affonso Romano de Sant'Anna sobre a poesia de Carlos Drummond de Andrade, nascido da tese de doutorado e reeditado pela Record.
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Ler o mundo
Ler o mundo
Ensaio de Affonso Romano de Sant'Anna sobre leitura, publicado pela Global Editora depois de sua gestão à frente da Biblioteca Nacional.
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