Os Ensaios reunidos (1942-1978) existem para quem quer o Carpeaux do jornal, não só o da história ocidental. O primeiro volume da Topbooks, organizado com introdução e notas de Olavo de Carvalho, junta seis livros publicados em vida: A cinza do purgatório (1942), Origens e fins (1943), Respostas e perguntas (1953), Retratos e leituras (1953), Presenças (1958) e Livros na mesa (1960).
São 928 páginas de crítica feita no calor da semana e depois recosida em livro. O leitor encontra Kafka, música, filosofia, autores brasileiros e europeus, sem a obrigação de atravessar a enciclopédia da literatura ocidental. É o Carpeaux de artigo: denso, às vezes áspero, sempre ligado a um texto concreto.
O que entra neste volume e o que ele não substitui
A cinza do purgatório é o primeiro livro em português, saído quando o autor ainda mal completara três anos de Brasil. Origens e fins amplia o gesto: autores, símbolos e debates do século XX trazidos para a língua recém-aprendida. Os livros dos anos 1950 mostram o crítico já instalado no Rio, lendo a prateleira nacional com o mesmo instrumento europeu. Livros na mesa fecha o arco da década: a mesa de trabalho, o comentário, a leitura em público.
Os textos de apresentação trazem nomes que pesam na crítica brasileira: Alfredo Bosi, Álvaro Lins, Antonio Candido, Carlos Heitor Cony, Franklin de Oliveira e Sérgio Augusto. Não são blurbs de orelha vazia; são leitores que conviveram com a prosa de Carpeaux na imprensa e na estante. O volume serve, portanto, também como porta de entrada para o debate sobre o lugar do crítico no Brasil do século XX.
Para quem este volume funciona melhor
Funciona para quem quer ensaios soltos com começo, meio e fim, sem comprometer um fim de semana inteiro com a história ocidental. Funciona para quem pesquisa um autor específico tratado por Carpeaux e precisa do texto completo, não de um verbete. Não substitui a História da Literatura Ocidental nem a Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira: cada uma responde a uma pergunta diferente.
A edição da Topbooks é de capa comum, com quase mil páginas. Vale tratar como livro de consulta e de leitura intercalada. Abrir num ensaio, fechar, voltar noutro. O risco é o da erudição que puxa o fio: um texto sobre Graciliano leva a outro sobre o romance, e a mesa se enche. Esse, aliás, era o ofício do autor no Correio da Manhã.
Há um segundo volume, com dispersos, prefácios e introduções de 1946 a 1971. Quem se viciar no primeiro tende a procurar o seguinte. O ponto de partida, porém, continua sendo este: os seis livros que o crítico reconheceu como sua obra ensaística central, reunidos depois da morte para não se perderem em edições esgotadas.




