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Otto Maria Carpeaux

Carpeaux

Nascimento: 1900 Rio de Janeiro, RJ
Crítico literário austro-brasileiro (1900–1978), autor da História da Literatura Ocidental e voz do jornalismo cultural no Correio da Manhã.

Otto Maria Carpeaux desembarcou no Brasil em 1939 sem falar português e, em 1942, já publicava ensaios no idioma que tinha acabado de aprender. O sobrenome do passaporte era Karpfen; Carpeaux nasceu no caminho, quando o crítico vienense cortou o lastro germânico para recomeçar no Rio de Janeiro.

Quem procura esse nome hoje quase sempre quer a mesma virada: como um exilado da Áustria anexada por Hitler virou autor da História da Literatura Ocidental e uma das vozes mais densas do jornalismo cultural brasileiro. O perfil segue essa pergunta pela trajetória, pela imprensa e pelas obras — sem tratar o crítico como monumento intocável.

Quem foi Otto Maria Carpeaux

Otto Maria Carpeaux, nascido Otto Karpfen em 9 de março de 1900 em Viena, foi historiador da literatura, crítico, ensaísta, jornalista e musicógrafo. Naturalizou-se brasileiro em 1944 e morreu no Rio de Janeiro em 3 de fevereiro de 1978. No Brasil, o nome público se firmou no Correio da Manhã, nas bibliotecas que dirigiu e, sobretudo, na obra monumental que cobre a literatura ocidental da Antiguidade grega ao século XX.

Antes do exílio, estudou Direito por um ano, abandonou o curso e doutorou-se em 1925 pela Universidade de Viena, com formação que passou por ciências naturais, filosofia e letras. Depois atuou como jornalista e bibliotecário na Áustria, converteu-se ao catolicismo em 1933 e trabalhou na imprensa católica vienense, inclusive no jornal Reichspost. Com o Anschluss, em 1938, fugiu para Antuérpia, onde escreveu na Gazet van Antwerpen, e dali rumou ao Brasil com a mulher, a cantora Helene Silberherz.

A reputação brasileira não veio de um cargo universitário. Carpeaux era gago, o que o afastou da cátedra e o empurrou para a redação, a biblioteca e o ensaio. O método que restou é o de quem lê em várias línguas e recusa a história literária como inventário de nomes: forma e sociedade entram juntas, e o autor brasileiro é lido no mesmo palco de Dante, Kafka ou Graciliano Ramos.

De Viena ao Rio: o exílio que mudou o nome

Carpeaux nasceu no segundo distrito de Viena, Leopoldstadt, filho do jurista Max Karpfen e de Gisela Schmelz. A cidade da formação era a Viena do fim do Império: música, psicanálise, jornalismo e política em colisão. Na década de 1930, o crítico participou do meio católico conservador que tentou resistir ao nazismo sob Engelbert Dollfuss e Kurt Schuschnigg — um passado europeu que, no Brasil, gerou mal-entendidos à esquerda e, décadas depois, tentativas de reivindicação à direita.

A fuga de 1938–1939 não foi uma viagem de estudo. Trouxe o missal, deixou a Áustria para trás e chegou ao Brasil em meio à eclosão da Segunda Guerra. No desembarque, foi encaminhado a trabalho rural no Paraná; o cosmopolita rumou a São Paulo, vendeu livros e objetos para se manter e, em cerca de um ano, aprendeu português com o latim e as línguas românicas que já dominava. A mudança de Karpfen para Carpeaux — ambos “carpa” — foi cálculo de sobrevivência e de inserção: um sobrenome menos marcado pelo Reich, mais palatável na intelectualidade carioca.

O primeiro artigo e o jornal que o firmou

Em 1941, uma carta a Álvaro Lins abriu a porta do Correio da Manhã. O primeiro artigo publicado no Brasil tratou de Franz Kafka, ainda pouco lido no país. No começo, Carpeaux escrevia em francês e o texto saía traduzido; em pouco tempo passou a redigir em português. Entre 1942 e 1944 dirigiu a biblioteca da Faculdade Nacional de Filosofia; de 1944 a 1949, a biblioteca da Fundação Getúlio Vargas. A partir de 1950 tornou-se redator e editorialista do próprio Correio da Manhã.

O jornal foi o instrumento permanente. Dali saíram os ensaios de A cinza do purgatório (1942) e Origens e fins (1943), os textos sobre Carlos Drummond de Andrade e Graciliano Ramos, a divulgação de Robert Musil, Wilhelm Dilthey, Benedetto Croce e Walter Benjamin, e a rotina de quem lia o Brasil com o mesmo rigor com que lia a Europa. A literatura brasileira deixou de ser, para ele, um apêndice nacionalista: passou a ser capítulo de uma história maior.

Por que a História da Literatura Ocidental continua sendo procurada

Entre 1941 e 1947, Carpeaux escreveu a História da Literatura Ocidental, publicada a partir de 1959 pelas Edições O Cruzeiro, com organização de Herberto Sales. A obra percorre a literatura do Ocidente — grega, latina, europeia, americana e brasileira — sem empilhar idiomas em gavetas separadas. O interesse está no “espírito de época”: o que a forma literária faz com a sociedade, e o que a sociedade faz com a forma.

Antonio Candido observou que essa visão universal atravessa o nacionalismo crítico sem apagar o Brasil. Alfredo Bosi, que reconheceu dívida com o mestre austríaco, viu na obra um “monumento de erudição e inteligência”. No fim do século XX, a Folha de S.Paulo reuniu especialistas para eleger as cem melhores obras de não ficção do século: a História da Literatura Ocidental ficou em 18.º lugar, ao lado de Os Sertões, de Euclides da Cunha, como livro brasileiro da lista. A obra recebeu o Prêmio Jabuti de crítica literária em 1964.

  • História da Literatura Ocidental: a obra magna, reeditada em formatos de três, quatro, oito e dez volumes.
  • Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira (1951): mapa cronológico de autores e escolas, feito por quem tinha pouco mais de uma década de Brasil.
  • Uma nova história da música (1958), depois reeditada como história da música ocidental: o outro eixo da erudição, da Idade Média ao século XX.
  • Os ensaios de imprensa reunidos em livros como A cinza do purgatório, Origens e fins, Retratos e leituras e Livros na mesa.

Ensaios, música e a leitura do Brasil

Carpeaux não foi só o homem da enciclopédia. Foi o crítico de jornal que, em 1949, devolveu ao país a Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira, trabalho que críticos como Álvaro Lins e Afrânio Coutinho trataram como instrumento de trabalho, não como curiosidade de estrangeiro. Foi também o autor de Uma nova história da música, onde Beethoven, Villa-Lobos e o repertório erudito entram com a mesma mistura de biografia, época e partitura.

Nos anos 1950 e 1960 vieram Respostas e perguntas, Retratos e leituras, Presenças, Livros na mesa e A literatura alemã. Na década seguinte, os artigos da série “Obras-primas que poucos leram”, na revista Manchete, ao lado de Paulo Mendes Campos e Ruy Castro, mostraram o alcance didático de quem lia clássicos e romance policial com o mesmo apetite. Foi ainda redator e coeditor da Grande Enciclopédia Delta-Larousse, ao lado de Antônio Houaiss, e colaborou na Enciclopédia Mirador Internacional.

O livro póstumo Alceu Amoroso Lima por Otto Maria Carpeaux, de 1978, fecha um arco concreto: o crítico austríaco leu e homenageou Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde com quem trocara cartas desde os primeiros anos no Brasil. A relação não é ornamento biográfico; é o encontro de dois leitores públicos que atravessaram catolicismo, imprensa e ditadura por caminhos distintos.

Política, ditadura e o que ficou depois de 1978

No Brasil, Carpeaux deslocou-se para a esquerda. Combateu a ditadura militar em artigos, editoriais e na Passeata dos Cem Mil, em 1968. A mesma pena que, em 1964, chegou a assinar editoriais de título seco no calor do golpe passou a denunciar o regime com a “vulcânica indignação ética” que João Antonio de Paula depois descreveu. Em 1965 publicou A batalha da América Latina e O Brasil no espelho do mundo. Por volta de 1968 anunciou o abandono da carreira literária para a luta política — e, ainda assim, continuou a escrever, a enciclopédia e a série da Manchete inclusive.

A vida e a obra não foram isentas de polêmica. Houve desconfiança da esquerda sobre o católico conservador que a Áustria conhecera; houve, mais tarde, tentativas de capturar o legado para um tradicionalismo que ignora a opção brasileira pela contestação da ditadura. O dado verificável é outro: Carpeaux leu, ensinou a ler e deixou um mapa da literatura ocidental escrito em português por alguém que aprendeu a língua já adulto.

Morreu de ataque cardíaco no Rio, aos 77 anos. O que permanece em circulação — a história da literatura, a bibliografia brasileira, os ensaios reunidos, a história da música — continua a ser procurado por estudante, professor, crítico e leitor que quer mais do que resumo de escola literária. Carpeaux serve exatamente a isso: uma bússola erudita, às vezes irascível, sempre ligada à história.

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Projetos de Otto Maria Carpeaux

História da Literatura Ocidental
História da Literatura Ocidental
Obra magna de Otto Maria Carpeaux sobre a literatura do Ocidente, da Antiguidade grega ao século XX, em edição contemporânea em três volumes.
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Ensaios reunidos (1942-1978)
Ensaios reunidos (1942-1978)
Coletânea da Topbooks que reúne seis livros de ensaios de Otto Maria Carpeaux, de A cinza do purgatório a Livros na mesa.
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História da música
História da música
Guia de Otto Maria Carpeaux pela música ocidental erudita, da Idade Média ao século XX, com compositores, épocas e obras de referência.
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