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Alceu Amoroso Lima

Tristão de Athayde

Nascimento: 1893 Rio de Janeiro, RJ
Crítico literário, ensaísta e líder católico brasileiro (1893–1983), conhecido como Tristão de Athayde. Membro da ABL, fundou a Editora Agir e criticou a ditadura militar.

Em 19 de junho de 1919, a crítica literária de O Jornal saiu assinada por um nome que não estava no registro civil: Tristão de Athayde. O autor, Alceu Amoroso Lima, tinha 25 anos, diploma de direito e ainda não era o católico que o Brasil passaria a associar a ele. O apelido pegou tanto que, décadas depois, ele próprio admitiu: o nome inventado já corria quase tanto quanto o verdadeiro.

Quem procura Alceu hoje costuma querer desfazer um emaranhado. É o crítico do modernismo, o presidente do Centro Dom Vital, o acadêmico da cadeira 40, o fundador da Editora Agir — e também o homem que, depois de um flerte inicial com o integralismo, passou o resto da vida defendendo a democracia cristã e denunciando a ditadura militar. Os dois nomes são a mesma pessoa; o percurso, não.

Quem foi Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde

Alceu Amoroso Lima (1893–1983) foi crítico literário, ensaísta, professor, jornalista e líder católico. Nasceu em 11 de dezembro de 1893 e cresceu na Rua Cosme Velho, n.º 2, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, filho do industrial Manuel José Amoroso Lima e de Camila da Silva Amoroso Lima. A infância no Cosme Velho colocou-o ao lado da casa de Machado de Assis, a quem viu passear com a mulher — detalhe que ele próprio repetiu na maturidade, sem transformar vizinhança em discipulado.

Aprendeu a ler em casa com o professor João Köpke. Teve aulas de piano com Alberto Nepomuceno. Viajou pela Europa com a família em 1900 e em 1909. Estudou no Ginásio Nacional, o atual Colégio Pedro II, e formou-se em 1913 em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, hoje Faculdade Nacional de Direito da UFRJ. O paraninfo da turma foi Sílvio Romero. Antes de terminar o curso, trabalhou no escritório de João Carneiro de Sousa Bandeira, tio de Manuel Bandeira.

No mesmo ano da formatura, assistiu a aulas de Henri Bergson no Collège de France. A Primeira Guerra Mundial cortou aquela temporada europeia. De volta ao Brasil, passou pelo Ministério das Relações Exteriores e logo deixou a carreira diplomática para substituir o pai na fábrica de tecidos Cometa. A literatura veio depois — e veio com pseudônimo.

Como o crítico virou Tristão de Athayde

O nome Tristão de Athayde aparece na primeira crítica literária publicada em O Jornal, em 19 de junho de 1919. Em entrevista de 1957 ao suplemento Letras e Artes do Diário Carioca, Alceu disse que o nome ficou e que, na prática, já tinha “o mesmo curso do verdadeiro”. Para o leitor de literatura brasileira, isso importa: muita ficha, citação e estante ainda o trata só pelo apelido.

Nos anos 1920, o crítico acompanhou o modernismo sem se reduzir a panfletário da Semana de 1922. A reputação veio da regularidade na imprensa e da recusa em tratar o texto como ornamento. A virada maior, porém, não foi estética. Foi religiosa.

O que mudou na conversão de 1928

Alceu descreveu a conversão como marcha “lenta e laboriosa”. Leu G. K. Chesterton, Jacques Maritain e Fulton Sheen. Troçou cartas com Jackson de Figueiredo entre 1924 e 1928. Em 1928 publicou a carta aberta a Sérgio Buarque de Holanda, Adeus à Disponibilidade: a passagem, nas palavras dele, “da primazia do literário ao ideológico”. Em 15 de agosto daquele ano, confessou-se e comungou com o padre Leonel Franca, na Igreja de Santo Inácio, no Rio.

Jackson morreu pouco depois. A indicação de Dom Sebastião Leme levou Alceu à presidência do Centro Dom Vital e à direção da revista A Ordem. Nessa fase, publicou artigos favoráveis ao integralismo. Mais tarde, em diálogo com Cláudio Medeiros Lima nas Memórias Improvisadas, reconheceu o equívoco. Georges Bernanos, Chesterton e, sobretudo, o Humanismo Integral (1936) de Maritain marcaram a correção de rota. Dali em diante, sustentou uma orientação liberal e democrata-cristã — e aplicou-a no próprio Centro Dom Vital.

Entre 1933 e 1934, a pedido de Dom Leme, estudou as novas posições da Igreja diante da questão social, no rastro da encíclica Quadragesimo Anno. Esse trabalho alimentou o manifesto da Liga Eleitoral Católica. Alceu tornou-se também nome de referência da Ação Católica no Brasil.

Onde ensinou, o que fundou e por que entrou na ABL

Em 29 de agosto de 1935, foi eleito para a cadeira 40 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Miguel Couto; tomou posse em 14 de dezembro, recebido por Fernando Magalhães. O retrato de 1935 com o fardão da ABL, hoje no Arquivo Público do Estado de São Paulo, é a imagem que o país mais associa ao crítico.

  • Reitor, por breve período, da Universidade do Distrito Federal, em 1938.
  • Catedrático de literatura brasileira nas Faculdades Católicas (atual PUC-Rio) e na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, de 1941 até a aposentadoria, em 1963.
  • Fundador da Editora Agir, em 1944, casa que publicou ensaio, religião e literatura com o recorte católico da época.
  • Conferencista na Sorbonne e diretor cultural da União Pan-Americana em Washington, no início dos anos 1950, quando o órgão se tornava a Secretaria-Geral da OEA.

A lista pública de livros é longa e espalhada: crítica, pedagogia, sociologia, direito, política e espiritualidade. Títulos como Estudos — Segunda série (1927), Idade, Sexo e Tempo (1938), Três Ensaios sobre Machado de Assis (1941), O Jornalismo como Gênero Literário (1958), Memórias Improvisadas (1973) e Tudo é Mistério (1983) marcam fases distintas. O aprofundamento de cada obra cabe às páginas dos livros; no perfil, o que importa é o método: o ensaísta nunca parou de comentar o país enquanto mudava de posição.

Como se posicionou diante da ditadura e da Igreja

Alceu alinhou-se a Dom Hélder Câmara contra o golpe de 1964. Em artigo de 14 de julho de 1967, comentou o livro do então deputado Márcio Moreira Alves sobre tortura e elogiou o “desassombro” de ir aos fatos “na hora mais crítica dos poderes discricionários”. Foi voz católica visível contra a ditadura militar, sem abandonar a linguagem da Igreja.

No Concílio Vaticano II, ficou com a corrente renovadora, em tensão com Gustavo Corção. Durante o pontificado de Paulo VI, integrou por cinco anos, em Roma, a Pontifícia Comissão Justiça e Paz. Chegou a defender a Teologia da Libertação e o papel de Leonardo Boff no Brasil. Em 1965, a Academia Mineira de Letras o indicou ao Nobel de Literatura. Recebeu o Prêmio Juca Pato em 1964 e o Jabuti de Personalidade Literária do Ano em 1979.

Morreu em 14 de agosto de 1983, aos 89 anos, oblato beneditino. O corpo foi velado no Mosteiro de São Bento, no Rio. No mesmo ano, a Comissão Justiça e Paz de São Paulo, então liderada por Dom Paulo Evaristo Arns, criou o Prêmio Alceu Amoroso Lima, concedido em articulação com a Universidade Candido Mendes e o Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade.

Por onde começar a ler Alceu Amoroso Lima

Não existe um único “livro de entrada”. Quem quer o crítico da imprensa encontra o ensaio sobre jornalismo como gênero literário. Quem quer a conversão e a autocrítica política encontra as memórias em diálogo. Quem quer o católico doméstico, sem púlpito, encontra as cartas à filha monja. Quem quer o fecho da velhice encontra Tudo é Mistério, publicado no ano da morte.

A biografia oficial da Academia e o verbete da Wikipédia ajudam a cruzar datas. O restante está na estante: menos como monumento e mais como conversa longa de um homem que mudou de ideia em público — e deixou o rastro escrito.

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Projetos de Alceu Amoroso Lima

O jornalismo como gênero literário
O jornalismo como gênero literário
Ensaio de 1958 em que Tristão de Athayde trata o jornalismo escrito com exigência literária, não como recado descartável da redação.
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Cartas do Pai
Cartas do Pai
Correspondência de Alceu Amoroso Lima à filha Lia, monja beneditina, reunida pelo Instituto Moreira Salles em volume de 672 páginas.
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Memórias Improvisadas
Memórias Improvisadas
Diálogos de 1973 com Cláudio Medeiros Lima, em que Alceu relata conversão, integralismo, Maritain, ABL e a autocrítica da maturidade.
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Tudo é Mistério
Tudo é Mistério
Livro de 1983, publicado no ano da morte de Alceu Amoroso Lima, fecho ensaístico de uma obra marcada pela fé, pela crítica e pela dúvida.
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