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O jornalismo como gênero literário

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Ensaio de 1958 em que Tristão de Athayde trata o jornalismo escrito com exigência literária, não como recado descartável da redação.

O jornalismo como gênero literário nasceu da prática de quem passou a vida na imprensa antes de virar peça de estante. Publicado em 1958, o ensaio de Alceu Amoroso Lima — ainda lido sob o nome Tristão de Athayde — recusa a ideia de que o jornal seria só suporte de notícia. Para ele, certa escrita de jornal já pertencia à família dos gêneros literários, desde que o texto se ocupasse da linguagem com a mesma seriedade com que o romance ou o ensaio se ocupam.

A edição em brochura hoje disponível na Amazon Brasil (ISBN 978-6583744067) tem 82 páginas. É livro curto. Não é resumo de manual de redação, tampouco coletânea de reportagens. O próprio texto de apresentação descreve um “amplo painel dos gêneros literários”, no qual o autor inclui o jornalismo que trabalha a escrita “com ênfase no meio de expressão”. Em português claro: o meio não é neutro. Quem escreve para o jornal e trata a frase como ferramenta, não como enfeite, já está fazendo literatura — mesmo quando o leitor compra o exemplar no botequim do dia seguinte.

Por que o ensaio ainda interessa

Alceu começou a assinar crítica em O Jornal em 1919. Quatro décadas depois, o professor e acadêmico olhou para trás e tentou nomear o que havia feito. O livro serve a três leitores distintos. O estudante de jornalismo encontra uma tese antiga, anterior ao jargão de “jornalismo literário” que o mercado editorial brasileiro popularizou mais tarde. O leitor de crítica literária vê o mesmo homem da ABL aplicando ao jornal o critério que aplicava ao poema. O historiador da imprensa encontra um intelectual católico que nunca abandonou a folha diária.

Há uma armadilha comum: tratar o volume como carta de alforria para o “eu jornalista-escritor”. Alceu não está elogiando o texto vaidoso. Está exigindo ofício. Gênero, no vocabulário dele, implica forma reconhecível, tradição e responsabilidade. O jornal que só informa e o jornal que trabalha a frase não são a mesma coisa — e o segundo, para o ensaísta, cabe na história da literatura.

Como ler sem esperar um manual

Quem chega procurando passo a passo de pauta, lead e apuração vai se frustrar. O livro não ensina a fechar edição. Ensina a olhar o jornal como forma. Por isso combina com a biografia do autor: o crítico que saiu do diletantismo da juventude, atravessou a conversão de 1928 e continuou escrevendo em jornal até a velhice. A tese de 1958 é o ponto em que a prática e a teoria se encontram no mesmo caderno.

  • Leia se você estuda jornalismo literário e quer a raiz brasileira do debate, não só Capote e Wolfe traduzidos.
  • Leia se você lê crítica e quer ver Tristão de Athayde fora da resenha de livro.
  • Deixe para depois se você busca um guia prático de reportagem ou um volume de crônicas escolhidas.

A edição recente em brochura é a rota mais simples de compra. Existe também capa dura da mesma obra; é o mesmo ensaio, outro formato. Para o leitor que quer o argumento, a brochura resolve. O restante da obra de Alceu — memórias, cartas, ensaios de política e fé — aprofunda a pessoa; este volume aprofunda o ofício.

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