Essa Boneca Tem Manual é o disco em que Vanessa da Mata deixou de ser só a compositora que os outros gravavam e passou a ser a voz que o rádio não largava. Saiu em 2004 pela Sony, com produção de Liminha, o mesmo parceiro com quem ela dividiu boa parte das faixas. O primeiro álbum, de 2002, já tinha Não Me Deixe Só e Onde Ir. Foi este segundo volume que fixou Ai, Ai, Ai... e Ainda Bem.
O que o disco entrega
Ai, Ai, Ai... entrou na trilha da novela Belíssima e, em 2006, levou o Prêmio Multishow de melhor música. Ainda Bem, do mesmo conjunto, foi parar em Pé na Jaca. As duas faixas explicam por que o álbum continua sendo a porta de quem busca a Vanessa do rádio aberto, não a do dueto com Ben Harper, que viria três anos depois em Sim.
O repertório não é só hit de abertura. Eu Sou Neguinha é regravação de Caetano Veloso e integrou a trilha de A Lua Me Disse. História de Uma Gata vem dos Saltimbancos, de Chico Buarque. Há ainda a faixa-título, Música, Joãozinho e Ela X Ele na Cidade Sem Fim. A capa, com Vanessa sentada sobre estampa floral e dois lontras no colo, virou a imagem pública desse disco, distinta do vermelho de Sim e do rosa de Todas Elas.
Para quem o álbum serve
Serve a quem quer o ciclo anterior ao Grammy. Quem chega por Boa Sorte/Good Luck está no disco errado: essa canção é de 2007. Quem chega por Ai, Ai, Ai ou por Ainda Bem está no lugar certo. O tom é de canção brasileira com refrão largo, não de tributo a Jobim e não de romance. A Filha das Flores só sairia em 2013.
Liminha não aparece como produtor de passagem. Ele divide composições com Vanessa neste volume, no mesmo arranjo de parceria que já tinha rendido Não Me Deixe Só e outras faixas do disco de estreia. Ouvir Essa Boneca Tem Manual é ouvir esse par ainda no centro, antes de Mario Caldato Jr. e Kassin assumirem Sim e levarem parte da gravação para a Jamaica.
Como achar a edição certa
A edição disponível na Apple Music reúne o álbum com faixa bônus e mantém Ai, Ai, Ai..., Ainda Bem e Eu Sou Neguinha no miolo. Não é outro trabalho. Kindle, capa comum e box não existem aqui porque o objeto é fonograma, não livro. O caminho seguro é o álbum de 2004, não uma coletânea posterior que misture Sim e Segue o Som.
No conjunto da carreira, este disco é a prova de que o sucesso de rádio veio de canção escrita por ela, com uma produção brasileira identificável, antes do dueto internacional. Sem ele, Boa Sorte/Good Luck parece um começo. Com ele, o dueto aparece como continuação.




