A Legião da Boa Vontade não nasceu como um templo de concreto. Nasceu no rádio. Em 4 de março de 1949, Alziro Zarur estreou na Rádio Globo o programa A Hora da Boa Vontade, dirigido a doentes. Em 1º de janeiro de 1950, no Rio de Janeiro, transformou aquela audiência em associação. Quem procura a LBV hoje costuma querer saber se é igreja, ONG ou partido. A página oficial responde com uma definição seca: associação civil de direito privado, beneficente, sem fins econômicos, ecumênica, apolítica e apartidária.
O eixo declarado é a assistência social. Em volta dele entram educação básica, ensino técnico, ações humanitárias, cultura e comunicação. A frase que a instituição repete como bandeira é o Novo Mandamento de Jesus, em João 13,34: “Amai-vos como eu vos amei”. Zarur proclamou esse versículo em público em 7 de setembro de 1959, no antigo Hipódromo do Bonfim, em Campinas. A LBV ainda apresenta essa ordem como o critério das ações, não como um slogan solto.
O que a instituição diz que faz agora
A página “Quem somos” lista uma rede concreta, não uma promessa abstrata. São mais de 70 Centros Comunitários de Assistência Social, cinco escolas de educação básica (São Paulo, Belém, Brasília, Curitiba e Rio de Janeiro), três abrigos para pessoas idosas (Teófilo Otoni, Uberlândia e Volta Redonda), um centro-dia para idosos em Volta Redonda, uma escola técnica em São Paulo e um centro de assistência humanitária, também em São Paulo. Há ainda campanhas de enfrentamento à pobreza, com entrega de benefícios.
Fora do Brasil, o mesmo nome opera na Argentina, na Bolívia, nos Estados Unidos, no Paraguai, em Portugal e no Uruguai. A própria LBV afirma que essas unidades se mantêm com doação da população local. Não há mensalidade publicada nem preço de curso nesta ficha, porque a instituição não se apresenta como produto à venda. O caminho para conferir prestação de contas é o balanço social, que a página oficial diz ser auditado pela Walter Heuer Auditores Independentes.
Quem fundou e quem conduz
Alziro Zarur presidiu a Legião de 1950 até 21 de outubro de 1979, dia da morte dele no Leblon. José de Paiva Netto, secretário-geral naquela data, assumiu a direção e ficou nela até 2025. A página atual distingue os papéis: Paiva Netto como presidente de honra-consolidador e Francisco Periotto, jornalista e radialista, como presidente. Em 1956, no governo de Juscelino Kubitschek, a LBV recebeu o título de utilidade pública federal. Esse reconhecimento é anterior ao prédio que muita gente usa como imagem da obra.
O Templo da Boa Vontade, em Brasília, a pirâmide também chamada Templo da Paz, foi inaugurado por Paiva Netto em 21 de outubro de 1989, dez anos depois da morte de Zarur. A fotografia que ilustra este projeto é desse edifício e tem autoria de Hikaru Barata, publicada com crédito obrigatório. No subsolo funciona o Memorial Alziro Zarur, com móveis, o microfone das pregações e o Livro de Preces aberto por ele em janeiro de 1966. O templo explica a memória. Não substitui a data de fundação.
O que convém separar
Três coisas andam juntas no nome de Zarur e não são a mesma entidade. A Legião da Boa Vontade é a associação de assistência e educação. A Religião de Deus, do Cristo e do Espírito Santo foi proclamada por ele em Maringá, em 7 de outubro de 1973, e só ganhou registro civil anos depois, já sob Paiva Netto. O Partido da Boa Vontade, tentado no começo dos anos 1960, foi extinto com os outros partidos pelo Ato Institucional nº 2, em 27 de outubro de 1965, e não deixou mandato.
O cadastro público da associação é o CNPJ 33.915.604/0001-17. A sede central informada no site fica na Rua Sérgio Tomás, 740, Bom Retiro, São Paulo, CEP 01131-010, telefone (11) 3225-4500. A LBV também informa inscrição no Conselho Municipal de Assistência Social, registro no Cadastro Nacional de Entidades Beneficentes de Assistência Social e certificação como entidade beneficente. Esses selos descrevem o enquadramento atual. Não descrevem a voz de Zarur no Programa Casé, em 1939.
Para quem quer a instituição, e não a biografia, o endereço útil é a página oficial de apresentação. Lá estão endereços das unidades, o texto de missão e o balanço. A história do microfone, do Pedro II e da Rádio Mundial fica na trajetória de quem a fundou.

