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Alziro Zarur

Alziro Abrahão Elias David Zarur

Nascimento: 1914 Rio de Janeiro, RJ CNPJ: 33.915.604/0001-17
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Jornalista, poeta e radialista do Rio. Criou a Hora da Boa Vontade em 1949 e fundou a Legião da Boa Vontade em 1º de janeiro de 1950.

No dia 4 de março de 1949, Alziro Zarur sentou ao microfone da Rádio Globo e estreou A Hora da Boa Vontade, programa voltado a doentes do corpo e da alma. Dez meses depois, em 1º de janeiro de 1950, fundou a Legião da Boa Vontade. Quem chega a esse nome quase sempre quer o fundador da LBV, a voz do rádio carioca e a ligação com quem veio depois, não um retrato genérico de pregador.

O registro civil é Alziro Abrahão Elias David Zarur. Nasceu no Rio de Janeiro em 25 de dezembro de 1914, filho dos imigrantes sírios ortodoxos Ássima e Elias Zarur, e morreu na mesma cidade em 21 de outubro de 1979, aos 64 anos, de ataque cardíaco, na casa do Leblon. O Museu Brasileiro de Rádio e Televisão registra o sepultamento no Cemitério São João Batista. Entre o Natal de 1914 e aquele outubro cabem jornal de colégio, Era de Ouro do rádio, poesia assinada também como Almanzor Kabul e uma instituição que ele presidiu até o último dia.

Quem foi Alziro Zarur

Zarur foi jornalista, poeta, radialista e escritor. A página pública da LBV o apresenta como o fundador da associação, em 1950, no dia que a própria instituição chama de Dia da Paz e da Confraternização Universal. Ele ficou na presidência até a morte. José de Paiva Netto, então secretário-geral, assumiu em seguida e conduziu a obra por décadas, até 2025. Hoje a presidência executiva está com o jornalista Francisco Periotto, e Paiva Netto permanece na memória institucional como presidente de honra-consolidador.

A dúvida mais comum é se a LBV nasceu como igreja, partido ou caridade. A resposta pública da instituição, hoje, é outra: associação civil de direito privado, beneficente, sem fins econômicos, com atuação principal em assistência social, além de educação básica, formação técnica, ações humanitárias e comunicação. O CNPJ 33.915.604/0001-17, publicado na página oficial, é o da Legião, com sede na Rua Sérgio Tomás, 740, Bom Retiro, em São Paulo. Não é um cadastro pessoal de Zarur.

Do Colégio Pedro II ao jornal A Pátria

As biografias o colocam como aluno do Colégio Dom Pedro II. Ainda estudante, escreveu nos jornais da escola, fundou O Atalaia e passou a dirigir o Boletim do Colégio Pedro II. Aos 15 anos entrou como jornalista profissional no matutino A Pátria, de João do Rio, sob a direção de Diniz Júnior. A revista Fon-Fon, em 1936, já o apresentava como poeta novo, aos 21 anos.

A enciclopédia de literatura brasileira, organizada por Afrânio Coutinho e José Galante de Sousa, registra o pseudônimo Almanzor Kabul e o classifica como poeta, contista e radialista, fundador da Legião da Boa Vontade. O mesmo repertório cataloga Poemas da era atômica, de 1953, como obra impressa em português. É o título literário mais nítido ligado ao nome dele fora do circuito da própria LBV. Na literatura brasileira do período, ele aparece mais como voz de rádio que virou instituição do que como poeta de prateleira.

O Museu Brasileiro de Rádio e Televisão acrescenta um dado de ofício: em 1936 ele já escrevia sobre o rádio carioca no jornal A Nota e, na década seguinte, foi repórter da Revista de Teatro Comédia, de Brício de Abreu.

O que ele fazia no rádio antes da Boa Vontade

A data exata da estreia no microfone não fecha num único registro. Materiais da própria LBV falam em 20 de janeiro de 1936, na Rádio Tupi, como locutor. A Fon-Fon de novembro de 1937 noticiou a entrada dele como speaker da Rádio Transmissora. A fotografia de 15 de abril de 1939, publicada na Revista da Semana, o mostra no Programa Casé, de boné claro, ao lado do microfone. O que esses registros concordam é o ofício: antes da pregação, Zarur já era homem de estúdio.

As páginas biográficas listam programas da chamada Era de Ouro:

  • Enciclopédia Literária
  • Você não tem consciência!
  • Gatinhos e Sinucas
  • Teatro de Gente Nova
  • Policial Zarur
  • As Aventuras de Sherlock Holmes, adaptação radiofônica de Arthur Conan Doyle, encerrada com a frase “O Bem nunca será vencido pelo Mal”

O museu do rádio também o associa à Rádio Eldorado e à Rádio Mundial. Essa segunda emissora, mais tarde, virou o centro da pregação.

Como um programa de doentes virou a LBV

Entre 1948 e 1949, as biografias descrevem um afastamento dos círculos sociais, chamado por ele de exílio espiritual, para planejar a obra que viria. O relato que a própria Legião repete, e que Paiva Netto publicou em artigos, começa em 6 de janeiro de 1948, numa reunião na Federação Espírita Brasileira. A médium Emília Ribeiro de Mello teria transmitido um recado atribuído a São Francisco de Assis: era hora de começar. Zarur contava que, naquela noite, achou na estante um exemplar de I Fioretti comprado em 1933 e ainda não lido. Isso é memória institucional, não um fato independente de cartório. O que se pode datar sem essa moldura é o programa: 4 de março de 1949, Rádio Globo.

A audiência, segundo os relatos da época e as biografias posteriores, foi alta, e a crítica dentro do próprio rádio também. Havia quem visse moda, fanatismo ou ensaio de carreira política. Em 1º de janeiro de 1950 a Legião foi fundada oficialmente no Rio. Seis dias depois, em 7 de janeiro, Zarur presidiu na Associação Brasileira de Imprensa a primeira reunião da Cruzada de Religiões Irmanadas. Padres, pastores e dirigentes espíritas aparecem nas narrativas dessa fase. As mesmas páginas dizem que, cerca de oito anos depois, ele abandonou a cruzada por considerar as lideranças religiosas despreparadas para o ecumenismo, e que a partir de 1958 concentrou a LBV na caridade.

Em 7 de setembro de 1959, no antigo Hipódromo do Bonfim, em Campinas, hoje Praça Legião da Boa Vontade, ele proclamou em público o Novo Mandamento de Jesus, o versículo de João 13,34: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. A frase virou a bandeira que a instituição ainda imprime na própria apresentação. Em 1956, no governo de Juscelino Kubitschek, a LBV recebeu o título de utilidade pública federal. Também em 1958 Zarur casou-se com Iraci Abreu. O civil saiu na Rádio Mundial, em 21 de setembro, e o religioso foi na Igreja Ortodoxa de São Nicolau, a fé dos pais, segundo o noticiário daquele ano.

Rádio Mundial, Bíblia de meia em meia hora e o título de 1965

A revista Time, em dezembro de 1963, no perfil “Man from Above”, tratou a Rádio Mundial como quartel-general e afirmou que Zarur a comprara em 1956. A frase que ele deu à reportagem ficou colada ao nome: não era da esquerda, nem da direita, nem do centro, era “de cima”. A Time também registrou a alegação de 600 mil membros e descreveu orfanatos, farmácias, clínicas, sopas e unidades móveis mantidos com doações. São números e estruturas ditos na época, não um balanço auditado de hoje.

Pelas ondas da Mundial, as biografias dizem que ele estimulava grupos de ajuda em nome da LBV pelo Brasil. Entre 1956 e 1966, o mesmo conjunto de relatos afirma que a emissora lia a Bíblia de meia em meia hora, nas 24 horas do dia. Na televisão da época, os programas citados são O Povo Quer Saber e O Show é Zarur, com auditório e perguntas livres. Em 1965, nos 400 anos do Rio, recebeu o título de Radialista do IV Centenário.

Ele era sócio remido da Associação Brasileira de Imprensa e da Associação Brasileira de Radiodifusão, e as biografias o incluem entre os pioneiros do Sindicato dos Jornalistas. Criou a Associação Brasileira de Cronistas Radiofônicos. Em outubro de 1975 lançou as bases da Academia Brasileira de Escritores de Televisão, Rádio e Imprensa, a Abetri. Em 1976, a marca repetida pelas páginas da instituição e pelas biografias é de 33 mil audições. Também fundou a Agência Paz Promoções, responsável pelos lançamentos literários da LBV. Um título citado em estudo da PUC-SP como livro dele é Mensagem de Jesus para os sobreviventes, da Promopaz, Rio de Janeiro, 1978, já na 18ª edição.

O partido que não elegeu ninguém

A tentativa política é o ponto em que as datas mais brigam, e vale deixar a briga visível. A Time, ainda em 1963, já descrevia o Partido da Boa Vontade, com o mote de Zarur presidente, e situava a fundação em 1962. Outra cronologia, a da Wikipedia, fixa 24 de junho de 1964. O próprio Zarur dizia que o PBV atendia a uma “exigência espiritual do povo brasileiro” e falava em candidatura presidencial para 1965. O partido não virou máquina eleitoral. Foi extinto, com os demais, pelo artigo 18 do Ato Institucional nº 2, de 27 de outubro de 1965. Na política brasileira, o episódio ficou como ensaio interrompido, não como mandato.

Em outubro de 1973, em Maringá, ele proclamou a instalação da Religião de Deus, do Cristo e do Espírito Santo, que os textos da instituição datam em 7 de outubro. As biografias apresentam essa proclamação como uma quarta revelação, depois de Moisés, de Jesus e de Allan Kardec. É doutrina da casa, e precisa ser lida como tal. O lado que a LBV mostra hoje ao visitante leigo está mais na espiritualidade ecumênica e na assistência do que na disputa partidária dos anos 1960.

O que aconteceu em 21 de outubro de 1979

Zarur morreu aos 64 anos, no Leblon. No dia seguinte, junto ao túmulo, Paiva Netto falou à multidão que o corpo ficava ali e que o espírito da obra estava na Legião. A frase é relato da própria sucessão, publicado nos materiais da Religião de Deus. O fato administrativo é mais seco: Paiva Netto, que convivia com ele desde o fim dos anos 1950 e ocupava o cargo equivalente a vice, assumiu a direção e a manteve até a própria morte, em 2025.

O prédio que muita gente associa visualmente à LBV, o Templo da Boa Vontade em Brasília, não é obra que Zarur tenha inaugurado. Paiva Netto o abriu em 21 de outubro de 1989, no décimo aniversário da morte do fundador. A fotografia desse templo, usada aqui, é de Hikaru Barata. No subsolo está o Memorial Alziro Zarur, com objetos de uso dele, entre eles o microfone das pregações e o Livro de Preces aberto em janeiro de 1966. O memorial explica a memória. A associação, com escolas, centros de assistência e unidades também fora do Brasil, explica o que a fundação de 1950 ainda opera.

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