Mãos Atadas é a canção de Simone Saback que saiu de um ensaio em Brasília e foi parar em disco de Zélia Duncan. Quem ouve a faixa no Pré Pós Tudo Bossa Band, de 2005, pela Universal, escuta Zélia e Frejat. A composição, porém, é de Simone. A biografia oficial trata essa gravação como homenagem de Zélia a Cássia Eller, parceira das rodas de blues da capital no começo dos anos 1980.
A origem sonora é mais antiga do que o disco. Em 1982, na casa dos Saback, Simone e Cássia gravaram voz e violão numa fita cassete. Esse registro só foi publicado em 2016, como single, depois de digitalizado e arranjado por Dillo Daraujo. Entre uma ponta e outra, a música teve outras vidas: o DVD Pré Pós Tudo Bossa Band – O Show (2006) e a versão de Zélia Duncan com Simone no Amigo É Casa (Biscoito Fino, 2007).
Por que a faixa importa na trajetória
Mãos Atadas é o ponto em que Simone deixa de ser só a cantora da Funarte e a jornalista da redação e passa a ser autora reconhecida na voz de outra pessoa. O site oficial situa o estouro dessa fase na década em que ela se muda para o Rio de Janeiro, em 2002. A canção é o exemplo mais claro: escrita no círculo de Brasília, gravada anos depois por quem já ocupava o rádio nacional.
Não é um hino de um único gênero. Simone descreve o próprio repertório como eclético, e Mãos Atadas circula entre a MPB do disco da Universal e o blues que Zélia e Cássia cantavam juntas. Quem compara as versões encontra a mesma autoria em arranjos diferentes, não uma música nova a cada capa.
Qual versão ouvir
Há pelo menos quatro registros públicos fáceis de separar. O de 2005 é o de Zélia Duncan e Frejat em estúdio. O de 2006 é o show. O de 2007 junta Zélia e Simone. O de 2016 devolve a fita de 1982, com Cássia aos violões e à voz, já com o arranjo de Dillo. O single de Simone com a participação de Cássia Eller, na Apple Music, é o caminho direto para essa última versão.
O ouvinte que chega por Zélia não está no endereço errado: está numa gravação posterior da mesma obra. O ouvinte que procura a fita com Cássia precisa do single de 2016, não do disco de 2005. As duas coisas explicam a canção. Nenhuma substitui a outra.



