A fita cassete gravada em 1982, na casa dos Saback, em Brasília, junta a voz e o violão de Simone Saback aos de Cássia Eller em Mãos Atadas. O ensaio ficou guardado por décadas. Em 2016 virou single, digitalizado e arranjado pelo músico brasiliense Dillo Daraujo. Antes disso, a mesma canção já tinha saído com Zélia Duncan e Frejat. Quem procura o nome hoje quase sempre chega por uma dessas gravações, ou pela parceria Flor do Sol, e não por um cargo.
Simone Barreto Saback nasceu em 25 de fevereiro de 1956, em Jacobina, na Bahia. Os primeiros anos foram em Salvador. Em 1963 a família se mudou para Brasília, onde ela viveu 39 anos. Em 2002, as parcerias musicais a levaram ao Rio de Janeiro. No meio desse percurso cabem redação de jornal, palco, produção cultural, poesia, musical e roteiro. O site oficial a apresenta como compositora, intérprete, poeta, roteirista e jornalista.
Quem é Simone Saback
O nome circula em três perguntas concretas. A primeira é de autoria: quem escreveu as canções que outros artistas gravaram. A segunda é de trajetória: como a mais velha de sete irmãos saiu de um violão ganho aos 12 anos, passou pela Sala Funarte e chegou à chefia de uma redação. A terceira é de família e ofício. A irmã Deny Saback assina com ela o livro de poesia Mesmo Sangue. O irmão Marcelo Saback reaparece no teatro, na Orquestra Brasileira de Sapateado e nos roteiros de televisão e cinema.
Não é um perfil de uma única prateleira. A página da compositora, no site dela, descreve um repertório que atravessa MPB, samba, pop, blues, rock, world music e balada, com muitos títulos ainda inéditos. A da escritora fala em poesia, crônica, peça, cinema e televisão. A da intérprete lista a própria voz em faixas como Doce Solidão, Mãos Atadas com Cássia Eller e o single recente Se Quiser Vai.
De Jacobina ao violão e ao jornal ainda adolescente
Em Brasília, ainda na primeira infância, a Escola Parque da 308 Sul a colocou diante de música e de instrumentos. Aos 12 anos, o pai deu o primeiro violão. Ela aprendeu sozinha e, adolescente, já compunha. A escrita veio no mesmo ritmo. No começo dos anos 1970, antes de o curso de jornalismo existir na universidade, formou-se em nível técnico em Brasília, com especialização nos Estados Unidos. Aos 17 anos foi correspondente internacional de O Pregão, jornal da Escola Técnica de Jornalismo do Colégio Pré-Universitário de Brasília.
No mesmo colégio, fez cursos de teatro, cinema, artes plásticas e fotografia. Entre os professores estavam a cientista política Iara Pietricovsky, o fotógrafo e antropólogo Kin-Ir-Sen e a arte-educadora Laís Aderne. De volta ao Brasil, entrou em Direito na Universidade de Brasília. Dois anos depois, em meio às agitações da ditadura, transferiu-se para a faculdade particular UDF. Em paralelo, passou a aceitar frilas no Correio Braziliense e na revista Manchete. Cursou Direito por quatro anos. A biografia oficial atribui a interrupção à decepção com as restrições daquele universo na ditadura e, ao mesmo tempo, à subida da carreira musical.
Quatro anos de palco e a decisão de 1983
Em 1978, Alvim Barbosa, então diretor da Sala Funarte de Brasília, hoje Sala Cássia Eller, a convidou para um show. Chamava-se Corpo do Corpo. Ela cantava músicas próprias e sucessos alheios. Foram quatro anos de apresentações na capital e em outras cidades, com três temporadas na Funarte. Em 1981, o show Mundo Azul teve nos bastidores o irmão Marcelo Saback e o diretor Zéllo Visconti. Em 1980 saiu Mesmo Sangue, poesia escrita a quatro mãos com Deny Saback. O site oficial diz que a mãe, Shirley, inspirou o título.
Em 1983 ela deixou o palco e foi para os bastidores, sem largar a escrita nem a composição. No mesmo ano, o Jornal de Brasília a chamou de volta ao jornalismo, primeiro como repórter, depois como editora do segundo caderno. Fez a coluna dominical Mulher, crítica de música e reportagem especial. Em 1984, com a jornalista Maria Helena de Carvalho, abriu a Free Lancer Apoio Jornalístico, de assessoria de imprensa. Ainda em 1984 aceitou a chefia de redação do Última Hora, no momento em que o país atravessava a abertura e a anistia. Passada a transição, a empresa virou Free Lancer Comunicação e, por quase duas décadas, trabalhou com teatro, música, promoção e marketing cultural no mercado candango.
O que outros cantores gravaram
A mudança para o Rio, em 2002, coincide com a fase em que as canções dela passam a aparecer em discos de alcance nacional. O site oficial aponta duas como marco: Mãos Atadas, com Zélia Duncan e Frejat, e Vai, com Ana Carolina. A gravação de Zélia é descrita ali como homenagem a Cássia Eller, com quem Zélia cantava blues nas rodas de Brasília no começo dos anos 1980. Vai é o título que a mesma biografia chama de maior hit da compositora.
- Mãos Atadas: Zélia Duncan e Frejat no disco Pré Pós Tudo Bossa Band (Universal, 2005), de novo no DVD do show, e em 2007 com Simone, no Amigo É Casa (Biscoito Fino). Em 2016, Simone e a fita de Cássia.
- Vai: Ana Carolina em Dois Quartos e no Multishow ao Vivo; Leonardo no disco Alucinação (Universal, 2010).
- Se Quiser Vai: Fábio Jr. no Acústico (Sony BMG, 2002). Em 2026, Simone lançou um single com o mesmo título, composição e interpretação dela.
- Flor do Sol: parceria com Cássia Eller, composta cerca de trinta anos antes do single de 2012 e reunida em 2015 no volume O Espírito do Som.
A lista pública não para nesses quatro títulos. Leila Pinheiro gravou Me Ajuda Aí. Ronaldo Barcellos gravou parcerias como Deixa de Bobagem e O Que Você Quiser. Ricky Vallen registrou Vida, Onde É Que Foi Parar?. Dillo Daraujo, Andréa França e Angel Duarte também aparecem na discografia publicada por ela. O detalhe que muda a leitura é outro: parte do que ficou famoso saiu primeiro na voz de outra pessoa.
Teatro, televisão e Marcelo Saback
Em paralelo, o nome entrou no teatro musical. Em As Robertas - Loucas pelo Rei, montado em 2006, 2009 e 2010, ela assinou argumento, repertório e direção musical. O espetáculo homenageia os 40 anos da Jovem Guarda e Roberto Carlos. No mesmo 2006, O Passarinho e a Borboleta levou argumento, texto original e música dela para um conto de fadas brasileiro, de público infantojuvenil. Marcelo Saback adaptou a peça para a Orquestra Brasileira de Sapateado.
A partir de 2011, a escrita dela se concentra em cinema e televisão, quase sempre ao lado do irmão. Como colaboradora de Marcelo Saback, participou dos Especiais de Fim de Ano de Roberto Carlos na TV Globo em 2011, 2012 e 2013. Em 2015 assinou como roteirista colaboradora o filme Loucas pra Casar, com roteiro de Marcelo, direção de Roberto Santucci e elenco encabeçado por Ingrid Guimarães, Tatá Werneck e Suzana Pires. O site oficial fala em mais de quatro milhões de espectadores.
O que ela segue lançando na própria voz
Depois de circular sobretudo como autora gravada por outros, Simone voltou a publicar a própria interpretação em sequência curta. Em 2021 saíram o single Unforgettable You e o EP Destinos. Em 2024, os EPs Paixões em Baladas, Lúcida e Deriva. Em 2025, o EP de sambas Laiá Laiá, com quatro faixas, e o de baladas Cinzas, com duas. Em 2026, o single Se Quiser Vai. O site oficial separa esses lançamentos da biografia e os trata como discos dela, não como catálogo de terceiros.
Para ouvir, o caminho público é o Spotify, o canal no YouTube e as páginas de single no próprio site. Para ler a trajetória sem disco no centro, a biografia oficial ainda é o texto mais completo: Jacobina, a 308 Sul, a Funarte, a redação e o Rio. Neste site, o percurso dela se encontra com as páginas de música e de literatura, porque o mesmo nome ocupa as duas estantes sem se reduzir a nenhuma.




