Menina Bonita do Laço de Fita é o livro de Ana Maria Machado que mais viajou. Publicado em 1986, com ilustrações de Claudius, conta a história de uma menina negra tão linda que o coelho branco vizinho fica obcecado em ter uma filha pretinha como ela. Ele testa leite, jabuticaba, tinta, café e feijão preto. Nada funciona do jeito que ele imagina. A menina, a mãe e a avó vão revelando, com humor, de onde vem aquela cor.
O enredo parece simples. Não é. Ana Maria Machado virou do avesso a brincadeira de “menina bonita do laço de fita” — que, na origem doméstica da autora, brincava com uma filha muito clara — e colocou no centro uma criança negra como padrão de beleza. No Brasil isso importava em 1986. Continua importando agora, quando o livro ainda entra em sala de aula, biblioteca e discussão pública sobre representação.
Por que o livro permanece em circulação
A edição da Ática, da coleção Barquinho de Papel, é curta, visual e direta. Criança pequena aguenta a leitura de uma sentada. Adulto reconhece o recado sem precisar de posfácio. O coelho branco funciona como o olhar que deseja a beleza alheia sem entender herança, sangue e história. A menina não é objeto passivo: ela existe, fala, tem família e recusa virar mistério racial para consumo do vizinho.
A autora já contou que o livro encontrou leituras muito diferentes fora do Brasil. Na América Latina, foi premiado e recomendado. Na Suécia, circulou como exemplo de convivência. Na Dinamarca, uma bibliotecária o rejeitou por achar que a história desmobilizava a luta negra. Nos Estados Unidos, uma professora branca leu ofensa na associação entre menina negra e coelho; uma professora negra, na mesma sala, defendeu o livro porque suas alunas se reconheceram bonitas. Ana Maria Machado usa esses episódios para lembrar o óbvio que muita gente esquece: um livro também é a leitura que o leitor faz dele.
Para quem comprar ou indicar
Indica-se para primeira infância e anos iniciais, em casa ou na escola, quando a conversa é cor de pele, autoestima, mistura brasileira e beleza que não cabe no molde europeu. Também serve a quem monta acervo infantojuvenil e precisa de um título curto, estável e já testado em sala. Não é manual de relações raciais. É literatura: tem graça, imagem forte e um coelho teimoso que a criança entende na hora.
Entre os reconhecimentos públicos estão menção na Bienal de São Paulo (1988), prêmios na Venezuela, na Colômbia e na Argentina, e o Prêmio Américas nos Estados Unidos (1997). Junto com Bisa Bia, Bisa Bel, é um dos livros mais traduzidos da autora. Quem procura o título exato em português encontra a edição ilustrada por Claudius, a que consolidou o livro no Brasil.




