Muita gente encontra Ana Maria Machado na escola, numa história em que um coelho branco se apaixona por uma menina negra de laço de fita. O que o livro não conta de imediato é que essa escritora chegou à literatura infantil depois de prisão, exílio e redação de jornal — e que as histórias para criança foram, por um tempo, um jeito esperto de falar de liberdade quando a fala adulta estava vigiada.
Nascida em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, em 24 de dezembro de 1941, Ana Maria Machado é escritora, jornalista, professora e pintora. Tem mais de cem livros publicados, entre títulos infantojuvenis, romances e ensaios, com mais de vinte milhões de exemplares vendidos e traduções em dezenas de países. Em 2000 recebeu o Prêmio Hans Christian Andersen. Em 2003 ocupou a cadeira nº 1 da Academia Brasileira de Letras, instituição que presidiu no biênio 2012-2013. Quem busca o nome dela quer saber, ao mesmo tempo, quem é a autora de Bisa Bia, Bisa Bel e como uma escritora de criança virou imortal da ABL.
- Nasceu em Santa Teresa, Rio de Janeiro, em 24 de dezembro de 1941.
- Publicou o primeiro livro infantil em 1977 e deixou o jornalismo diário em 1980.
- Abriu a livraria Malasartes em 1979, pioneira no Brasil no atendimento a crianças leitoras.
- Venceu o Hans Christian Andersen em 2000 e o Prêmio Machado de Assis da ABL em 2001, pelo conjunto da obra.
- Foi eleita para a cadeira 1 da Academia Brasileira de Letras em 24 de abril de 2003 e presidiu a casa em 2012 e 2013.
Quem é Ana Maria Machado
O nome completo, Ana Maria Martins Machado, aparece menos do que o nome de autora. O que circula é o conjunto: a carioca de Santa Teresa, a jornalista que chefiou rádio em plena censura, a professora de Letras, a pintora que estudou no Museu de Arte Moderna do Rio e no MoMA de Nova York, e a escritora que fez da literatura infantil um território de inteligência, humor e recado político sem sermão.
Quem procura “quem é Ana Maria Machado” quase sempre chega por dois caminhos. O primeiro é escolar: Menina Bonita do Laço de Fita, Bisa Bia, Bisa Bel, História Meio ao Contrário, Mico Maneco. O segundo é institucional: a primeira escritora de literatura infantil a entrar na Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira cujo patrono é Adelino Fontoura, na sucessão de Evandro Lins e Silva. Os dois caminhos falam da mesma pessoa. A diferença é que um mostra a obra que as crianças leem; o outro mostra o prestígio que essa obra conquistou entre adultos.
A literatura brasileira costuma separar “autor de criança” e “romancista sério”. Ana Maria Machado recusou essa divisão na prática. Escreveu dezenas de livros para a infância e, ao mesmo tempo, romances como Tropical Sol da Liberdade, Alice e Ulisses e A Audácia dessa Mulher. A crítica a trata como uma das escritoras contemporâneas mais versáteis do país precisamente porque a mesma inteligência narrativa atravessa o livro ilustrado e o romance político.
Formação, prisão e o jornalismo da ditadura
Antes de virar a autora de livros infantis mais lembrada das escolas, Ana Maria Machado fez Letras Neolatinas na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, formando-se em 1964. Deu aulas de Literatura Brasileira e Teoria Literária na UFRJ, lecionou na PUC-Rio, nos colégios Santo Inácio e Princesa Isabel e no Curso Alfa, de preparação para o Instituto Rio Branco. A carreira de professora coincidiu com o endurecimento da ditadura militar.
Em 1969, depois do AI-5, foi presa. Em janeiro de 1970 partiu para o exílio na Europa, com o filho Rodrigo ainda pequeno. Trabalhou na revista Elle, em Paris, e no serviço brasileiro da BBC, em Londres. Lecionou Língua Portuguesa na Sorbonne e defendeu doutorado em Linguística e Semiologia na École Pratique des Hautes Études, sob orientação de Roland Barthes. A tese virou o livro Recado do Nome, publicado em 1976, sobre a obra de Guimarães Rosa. Em Paris nasceu o segundo filho, Pedro.
A volta ao Brasil veio no fim de 1972. Atuou no Correio da Manhã, em O Globo e no Jornal do Brasil. Entre 1973 e 1980 chefiou o jornalismo do Sistema Jornal do Brasil de Rádio, numa redação que enfrentava a censura no cotidiano. Também colaborou com revistas e semanários da época, entre eles Realidade, IstoÉ, Veja, O Pasquim, Opinião e Movimento. Essa passagem importa porque explica o tom da obra posterior: há sempre um ouvido de jornalista por trás da fábula, um gosto por linguagem viva e uma recusa de conversa bobinha com a criança.
Por que ela passou a escrever para crianças
As primeiras histórias infantis nasceram a convite da revista Recreio, ainda no fim dos anos 1960. Parte desse material viajou com ela no exílio e só saiu em livro a partir de 1976. Em 1977 publicou Bento que Bento é o Frade e, no mesmo ano, História Meio ao Contrário, que ganhou o Prêmio João de Barro e, em 1978, o Prêmio Jabuti. O sucesso tirou da gaveta textos que esperavam e consolidou a decisão, em 1980, de deixar o jornalismo diário para viver dos livros.
A própria autora já explicou o sentido político dessa escolha. Sua geração começou a escrever sob ditadura, e a literatura infantil, ao lado da poesia e da canção, era um dos poucos gêneros em que a linguagem poética ainda conseguia falar de liberdade, direitos e alegria de viver sem entregar o recado inteiro ao censor. História Meio ao Contrário começa pelo “viveram felizes para sempre”. Era uma vez um tirano trata de um reino onde cor, pensamento e felicidade foram proibidos. O recado está no jogo, não no manifesto.
Em 1979, com Maria Eugênia Silveira, abriu a Malasartes, primeira livraria infantil do Brasil, que dirigiu por 18 anos. A aposta era simples e rara na época: criança escolhe livro bom se o livro bom estiver ao alcance. Também foi sócia da Quinteto Editorial, ao lado de Ruth Rocha. Por décadas atuou na promoção da leitura, com consultorias e seminários da Unesco, e foi vice-presidente do IBBY, o International Board on Books for Young People — a mesma rede que concede o Hans Christian Andersen.
Da ABL ao Hans Christian Andersen
O reconhecimento internacional chegou em 2000, com o Prêmio Hans Christian Andersen de escrita, a mais alta distinção mundial de literatura infantil. No ano seguinte, a Academia Brasileira de Letras concedeu a ela o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra. A eleição para a cadeira nº 1 veio em 24 de abril de 2003; a posse, em 29 de agosto, com recepção de Tarcísio Padilha. Ana Maria Machado foi a primeira escritora de literatura infantil a ocupar uma cadeira na ABL. Em 8 de dezembro de 2011 foi eleita presidente da instituição para o biênio 2012-2013, com ênfase em programas de acesso ao livro nas periferias.
Esse percurso conversa com o de outras mulheres da casa. Rachel de Queiroz tinha sido a primeira mulher eleita para a Academia, em 1977. Décadas depois, Ana Maria Machado entrou por outra porta: não a do romance regionalista, e sim a da literatura feita para criança e jovem, até então vista como gênero menor. O Prêmio Machado de Assis, por sua vez, amarra o nome dela ao de Machado de Assis, patrono simbólico da própria instituição. A trajetória, portanto, não é só de prestígio: é de deslocamento de fronteira. Livro infantil deixou de ser anexo e passou a contar como literatura de Estado.
Além do Andersen, do Machado de Assis e de três Jabutis, a lista pública de prêmios inclui o Casa de las Américas (1980), o Príncipe Claus, o Iberoamericano SM de Literatura Infantojuvenil (2012) e o Zaffari & Bourbon (2013), por romance em língua portuguesa. São números que explicam a busca, mas não substituem a leitura. O que sustenta o nome é o catálogo vivo nas escolas, nas livrarias e nas traduções — e a capacidade de falar com criança sem rebaixar o idioma.
Por onde começar a ler Ana Maria Machado
Quem chega pela primeira vez costuma começar por Menina Bonita do Laço de Fita, de 1986, ilustrado por Claudius. É o livro mais traduzido e o que mais circula em sala de aula quando o tema é cor, beleza e diferença. Em seguida vem Bisa Bia, Bisa Bel, de 1981, a história da menina Bel que conversa com a bisavó e com a bisneta do futuro. Já passou de dois milhões e meio de exemplares e ganhou Jabuti em 1983. Para ver o começo da carreira, História Meio ao Contrário (1977) ainda é o atalho mais claro: um conto de fadas virado do avesso, premiado quando a autora ainda saía do jornalismo.
Quem quiser a escritora adulta pode ir a Tropical Sol da Liberdade, romance de 1988 relançado pela Alfaguara, sobre uma jornalista que volta do exílio e revisita, com a mãe, a memória da ditadura. É o livro em que a biografia e a ficção se tocam de perto, sem transformar a página em depoimento. Outros romances, como A Audácia dessa Mulher e Um Mapa Todo Seu, mostram que a obra adulta não é apêndice da infantil: tem corpo próprio.
Hoje Ana Maria Machado vive no Rio de Janeiro. É casada com o músico Lourenço Baeta, do quarteto Boca Livre, com quem tem uma filha. Do casamento anterior com o médico Álvaro Machado nasceram Rodrigo e Pedro. O site oficial reúne biografia, livros e respostas a leitores. A página da acadêmica na ABL organiza posse, bibliografia e discursos. A página da autora na Amazon ajuda a localizar edições em circulação. Nada disso substitui o livro aberto: o recado de Ana Maria Machado continua sendo o de uma escritora que levou a criança a sério e, por isso, foi levada a sério pela literatura brasileira.
Perguntas frequentes
Ana Maria Machado ainda está viva?
Sim. Nasceu em 1941, no Rio de Janeiro, e segue como acadêmica da cadeira 1 da Academia Brasileira de Letras.
Qual é o livro mais conhecido?
Entre o público infantil, Menina Bonita do Laço de Fita e Bisa Bia, Bisa Bel são os mais lembrados. Entre os romances adultos, Tropical Sol da Liberdade costuma ser o primeiro nome.
Ela só escreve para crianças?
Não. A obra inclui romances, contos, ensaios, teses e livros de promoção da leitura, além de dezenas de títulos infantojuvenis.
Qual prêmio internacional ela ganhou?
O Prêmio Hans Christian Andersen de escrita, em 2000, concedido pelo IBBY ao conjunto da obra infantil.





