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Meus Balões

Tecnologia Livro
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Autobiografia de 1904 em que Santos-Dumont narra, em primeira pessoa, a série de dirigíveis até o Prêmio Deutsch em Paris.

Meus Balões é o livro que Alberto Santos-Dumont escreveu no auge dos dirigíveis, não no auge do 14-bis. Publicado em Paris em 1904 como Dans l'air, só chegou ao português com esse título mais tarde. Quem abre o volume esperando o biplano de Bagatelle se perde. Quem quer o inventário das quedas, dos envelopes de seda e do Prêmio Deutsch encontra o texto certo.

A diferença de data não é detalhe de estante. Em 1904 o 14-bis ainda não existia. Santos-Dumont estava obcecado com outra pergunta: como fazer um balão alongado ir a um ponto da cidade e voltar, contra o vento, com motor a gasolina. O livro é o diário dessa pergunta. Tem croquis, medidas, nomes de hangar, irritação com comitê e o prazer quase infantil da primeira ascensão.

O que o livro realmente conta

A narrativa começa longe de Paris. Há a fazenda, o locomóvel, Júlio Verne, os balõezinhos de São João. Depois vem o salto: emancipação, herança do café, oficinas francesas, o balão Brazil, o Amérique, a série numerada de dirigíveis. Cada número é um argumento. O N-1 dobra e cai. O N-2 sofre chuva e vento. O N-3 contorna a Torre Eiffel. O N-4 impressiona cientistas em Saint-Cloud. O N-5 perde o Prêmio Deutsch por minutos e depois explode contra o Trocadero. O Nº 6 fecha a prova.

Não é um romance de invenção. É um relato de oficina com vaidade controlada. Santos-Dumont descreve bomba de ar, balonete, corda de piano, lastro, hélice de seda, motor de poucos cavalos. Explica por que o elétrico pesava demais. Explica por que o público precisava ver. Explica, sem teoria acadêmica, a tese que ele defenderia depois em artigo: o dirigível já era aviação, porque o hidrogênio sozinho não decolava o conjunto.

O tom ajuda a ler o homem. Há medo verdadeiro na queda sobre Longchamp. Há humor quando ele diz que subiu num balão e desceu numa pipa. Há cálculo político quando anuncia que o prêmio em dinheiro iria para a equipe e para quem tinha empenhado ferramenta. O dândi de paletó aparece, mas não apaga o mecânico.

Para quem este volume serve

Serve a quem quer a voz do pioneiro antes da lenda escolar do 14-bis. Serve a professor que precisa de fonte primária, não de resumo de livro didático. Serve a leitor de história da tecnologia que prefere croqui a mito. Serve mal a quem busca biografia completa, vida amorosa, Encantada, Demoiselle ou o debate com os Wright. Nada disso está no centro destas páginas.

A edição brasileira mais fácil de achar hoje é a da Lebooks, em e-book, com 153 páginas na contagem da loja, publicada em 2018. Traz o texto histórico, fotos e desenhos da série dos balões. Não substitui uma edição crítica de arquivo, mas entrega o essencial: o inventor falando de si enquanto o problema ainda estava aberto.

Como ler sem confundir com o segundo livro

Um erro comum é tratar Meus Balões e O que eu vi, o que nós veremos como a mesma autobiografia em capas diferentes. Não são. Este é o livro da fase dirigível, escrito em francês no calor da fama de 1901–1904. O outro, de 1918, é curto, posterior, já com o avião na guerra. Se a dúvida do leitor é “como ele ganhou o Prêmio Deutsch?”, comece aqui. Se a dúvida é “o que ele pensou depois que o voo virou arma?”, vá ao segundo.

  • Leia primeiro os capítulos de oficina e de acidente, não só o da vitória.
  • Anote os números dos dirigíveis; a série é o enredo.
  • Desconfie de qualquer edição que prometa “a invenção do avião” na capa deste título.
  • Use o livro como fonte do método, não como veredito da disputa Wright versus Santos-Dumont.

O que o texto revela da autoridade

A página da pessoa já diz quem ele foi. Este projeto mostra como ele argumentava. Santos-Dumont escreve como quem precisa convencer um clube, um jornal e um operário ao mesmo tempo. Detalha o motor porque o motor era a novidade. Detalha o público porque o público era a prova. Recusa o papel de fabricante. Insiste no papel de amador, no sentido de quem não vendia o céu.

Há também o Brasil visto de Paris. A medalha de Campos Sales, o conto de réis, a apatia que ele percebia no país, o contraste com o banquete europeu. O livro não é ufanista. É o relato de um mineiro rico que escolheu a capital francesa como laboratório e pagou a conta com café.

Para o leitor atual, o valor comercial do volume é direto: é a porta de entrada mais barata e mais honesta para a obra do próprio Santos-Dumont. Não compete com biografias longas de Paul Hoffman ou de historiadores acadêmicos. Compete com o vazio de quem só conhece o 14-bis de cartão-postal. Se a pergunta é “por que esse homem ficou famoso em 1901, cinco anos antes de Bagatelle?”, a resposta está nestas páginas, no envelope, no motor e no relógio da comissão.

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O que eu vi, o que nós veremos
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