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Alberto Santos-Dumont

Santos Dumont

Nascimento: 1873 Palmira (hoje Santos Dumont), Minas Gerais
Alberto Santos-Dumont (1873–1932) foi inventor e aeronauta brasileiro. Em Paris, venceu o Prêmio Deutsch com o dirigível Nº 6 e voou o 14-bis em 1906.

Paris, 19 de outubro de 1901. Alberto Santos-Dumont saiu de Saint-Cloud no dirigível Nº 6, contornou a Torre Eiffel e voltou ao ponto de partida em 29 minutos e 30 segundos. A comissão do Aeroclube da França ainda discutia o relógio; a cidade já tinha visto um brasileiro de paletó tratar o ar como rua.

Quem busca o nome hoje quase sempre chega com uma pergunta pronta: ele inventou o avião? A resposta útil é mais fina. Santos-Dumont tornou o voo um acontecimento público, cronometrado e homologado, sem rampa escondida. O 14-bis de 1906 é o capítulo brasileiro dessa história. O Prêmio Deutsch de 1901 é o capítulo que o mundo viu primeiro.

Quem foi Alberto Santos-Dumont

Alberto Santos Dumont nasceu em 20 de julho de 1873, em Palmira, Minas Gerais, hoje a cidade que leva o nome dele. Era o sexto filho do engenheiro Henrique Dumont e de Francisca de Paula Santos. A família fez fortuna no café em Ribeirão Preto, e essa herança pagou, depois, hangar, hidrogênio, motor e o direito de errar em público.

Ele não foi professor de uma escola, nem dono de uma fábrica de aviões. Foi aeronauta, inventor autodidata e figura da Paris da Belle Époque: pequeno, elegante, obcecado por máquinas leves. No Brasil, o apelido que cola é pai da aviação. Na França, o feito que primeiro o tornou famoso foi outro: provar que um balão alongado, com motor a gasolina, podia ir a um ponto combinado e voltar no tempo combinado.

Essa diferença importa. Grande parte da discussão escolar mistura dois problemas distintos. Um é a dirigibilidade do balão. Outro é o aparelho mais pesado que o ar. Santos-Dumont trabalhou nos dois, em sequência, e deixou texto próprio sobre os dois. Quem quer entender a autoridade precisa separar as máquinas, as datas e o tipo de prova que cada voo ofereceu.

  • Dirigível Nº 6 — 19 de outubro de 1901, Prêmio Deutsch, circuito Saint-Cloud–Torre Eiffel–Saint-Cloud.
  • 14-bis (Oiseau de Proie) — 23 de outubro e 12 de novembro de 1906, Campo de Bagatelle, Paris.
  • Demoiselle — monoplano leve de 1907–1909, pensado para um homem só.
  • Meus Balões (Dans l'air, 1904) e O que eu vi, o que nós veremos (1918) — os dois livros que ele próprio escreveu.

Da fazenda de café ao hangar de Saint-Cloud

A infância mineira e paulista explica o gosto por máquina. Na fazenda Arindeúva, em Ribeirão Preto, o menino guiava locomóvel e locomotiva. Leu Júlio Verne. Construiu pipas e balõezinhos de São João. Em 1888, em São Paulo, viu o aeronauta Stanley Spencer subir num balão esférico e descer de paraquedas. A cena não inventou o inventor; deu forma a uma vocação que a família já via nas oficinas.

Estudou no Colégio Culto à Ciência, em Campinas, e passou por outros colégios em São Paulo e no Rio. Chegou a frequentar a Escola de Engenharia de Minas, em Ouro Preto, sem terminar o curso. Em 1891 foi à Europa. No ano seguinte, depois de um acidente do pai, foi emancipado e aconselhado a estudar mecânica, química e eletricidade. Voltou à França, entrou no automobilismo e no ciclismo, aperfeiçoou o inglês na Inglaterra e, em 1894, passou pelos Estados Unidos.

Em 1897, herdeiro e independente, instalou-se de vez em Paris. Leu sobre a expedição polar de Andrée, contratou aeronautas da firma Lachambre e fez a primeira ascensão em 23 de março de 1898. No mesmo ano estreou o pequeno balão Brazil: 113 metros cúbicos de hidrogênio, seis metros de diâmetro, seda, mais de duzentos voos. O Amérique veio depois, maior, ainda sem leme de verdade. A lição desses balões esféricos foi simples: o vento manda, o piloto reza. Santos-Dumont quis mandar de volta.

O Prêmio Deutsch e o dirigível Nº 6

No fim do século XIX, muita gente já tinha tentado dirigir um balão. Henri Giffard, Charles Renard, Arthur Krebs e o brasileiro Júlio César Ribeiro de Sousa deixaram tentativas. O que faltava, no ambiente cético de Paris, era uma prova pública com motor leve e trajeto fechado. Santos-Dumont escolheu o motor a combustão, mais leve que o elétrico, e foi empilhando números: N-1, N-2, N-3, N-4, N-5. Caiu, dobrou o envelope, rasgou seda, desceu “numa pipa”, como ele mesmo descreveu. Em 13 de novembro de 1899, no N-3, contornou a Torre Eiffel pela primeira vez. Mandou construir hangar em Saint-Cloud, pronto em junho de 1900, com gerador de hidrogênio.

O magnata Henri Deutsch de la Meurthe ofereceu 100 mil francos a quem saísse de Saint-Cloud ou Longchamp, contornasse a Torre Eiffel e voltasse em meia hora, cobrindo cerca de 11 quilômetros. Em 13 de julho de 1901, o N-5 fez o caminho, mas estourou o tempo. Em 8 de agosto, o mesmo aparelho bateu no Hotel Trocadero. Em 19 de outubro, o Nº 6 — 622 metros cúbicos, motor de 20 cavalos — fechou a prova em 29 minutos e 30 segundos. Houve briga de cronômetro na aterrissagem. O público e o próprio Deutsch consideraram vitória. Depois de votação, o prêmio saiu. Santos-Dumont distribuiu o dinheiro entre equipe, desempregados e operários de Paris.

O efeito foi imediato. O presidente Campos Sales enviou 100 contos de réis e uma medalha com verso camoniano: “Por céus nunca dantes navegados.” O príncipe Alberto I de Mônaco ofereceu hangar em La Condamine. Nos Estados Unidos, Santos-Dumont visitou Thomas Edison e declarou que não pretendia patentear as aeronaves. Dizia-se amador. Na prática, era um inventor que recusava transformar o voo em monopólio.

O 14-bis e a disputa pelo primeiro voo

Depois dos dirigíveis, ele passou ao mais pesado que o ar. Em 23 de outubro de 1906, no Campo de Bagatelle, voou cerca de 60 metros a dois ou três metros de altura com o Oiseau de Proie, o 14-bis. Em 12 de novembro, diante de testemunhas, percorreu 220 metros a uns seis metros com o Oiseau de Proie III. Foram os primeiros voos homologados pelo Aeroclube da França de um aparelho mais pesado que o ar, com decolagem pelos próprios meios, sem catapulta.

Aqui entra a briga que ainda alimenta busca. A Federação Aeronáutica Internacional considera que os irmãos Wright realizaram, em 17 de dezembro de 1903, o primeiro voo controlado, motorizado, em aparelho mais pesado que o ar. No Brasil, o argumento que pesa é outro: o 14-bis decolou à vista de público e imprensa, sem trilho de lançamento, e virou prova esportiva homologada. As duas frases podem ser verdadeiras ao mesmo tempo se ninguém misturar “primeiro voo da história” com “primeiro voo público homologado na Europa”.

Quem chega pela ciência da invenção encontra, nesse ponto, um caso de método. Santos-Dumont escolheu o critério da prova visível. Os Wright escolheram o critério do controle em campo pouco povoado e da prioridade técnica. A polêmica escolar brasileira costuma transformar isso em final de campeonato. A leitura adulta é outra: dois programas de pesquisa, duas culturas de demonstração, um mesmo problema — sair do chão com motor e voltar inteiro.

Demoiselle, relógio Cartier e a recusa de patente

O Demoiselle veio em seguida: um monoplano leve, quase um inseto de bambu, arame e seda, pensado para um piloto só. Foi a máquina mais próxima de um avião pessoal. Cópias e variações circularam. Se o 14-bis é o manifesto público, o Demoiselle é o protótipo da ideia de que voar não precisava ser um circo de hangar enorme.

Fora da oficina, dois gestos ainda circulam na cultura material. A Cartier atribui a Louis Cartier, em 1904, o relógio de pulso feito para que Santos-Dumont lesse as horas sem soltar os comandos. Não é preciso inflar o feito: não foi o primeiro relógio de pulso da humanidade. Foi um relógio de piloto, com caixa quadrada e parafusos à mostra, que a maison ainda vende com o nome dele. O outro gesto é jurídico: ao recusar patente, ele deixou o desenho mais aberto do que o mercado americano dos Wright. Queria prioridade moral, não royalty.

Há também a casa de Petrópolis conhecida como A Encantada, projetada por ele, estreita, cheia de invenção doméstica. Não substitui o hangar de Saint-Cloud, mas mostra o mesmo cérebro em escala de quarto: escada, chuveiro, espaço mínimo, obsessão por caber no próprio aparelho.

O que ele escreveu

Santos-Dumont não deixou só máquina. Deixou duas obras em primeira pessoa, e é aí que a literatura técnica do pioneirismo brasileiro ainda se lê melhor do que em biografia de enciclopédia.

Meus Balões saiu em Paris em 1904 como Dans l'air. A versão em português consolidou o título depois. É o diário de quem ainda está no meio da série dos dirigíveis: croquis, quedas, vento, motor, orgulho e medo. Não cobre o 14-bis. Quem busca “o livro do avião” e abre só este volume se frustra. Quem busca o homem no hangar encontra o texto certo.

O que eu vi, o que nós veremos, de 1918, é o livro tardio. Curto, tenso, escrito quando o avião já tinha saído do campo de esporte e entrado na guerra. Santos-Dumont olha para trás e para frente: o que o voo já tinha feito e o que ainda faria. É o texto de quem ganhou a aposta técnica e perdeu a aposta moral.

Os dois livros hoje circulam em edições brasileiras, inclusive em e-book. Não são vitrine. São a única maneira de ouvir o tom dele sem intermediário: preciso, vaidoso na medida, irritado com comitê, encantado com hélice.

Morte, memória e o que ainda se pergunta

Santos-Dumont morreu em 23 de julho de 1932, no Guarujá, aos 59 anos. Os anos finais foram de saúde frágil, esclerose, depressão e desgosto ao ver a aviação usada como arma. A memória pública brasileira preferiu o paletó, o chapéu, o 14-bis e o aeroporto que leva o nome. A memória francesa ficou mais ligada aos dirigíveis de 1901 e à figura do dândi do Bois de Boulogne.

O nome virou cidade em Minas, aeroporto no Rio, relógio, selo, escola e briga de bar. Nada disso substitui a pergunta que ainda vale a visita a esta página: o que, exatamente, ele provou? Provou que um brasileiro rico, teimoso e elegante podia tornar o ar um problema de engenharia pública. Provou que o motor a gasolina servia no envelope e, depois, nas asas. Provou, no 14-bis, que um mais pesado que o ar podia decolar à vista de todos. Não provou, sozinho, que ninguém mais tivesse voado antes. A honestidade aqui não diminui o feito. Tira o cartaz e deixa a máquina.

Para quem navega por tecnologia e história da invenção, o recorte útil não é o pódio. É a sequência: fazenda, motor, balão, dirigível, biplano, monoplano leve, livro, recusa de patente, desilusão. Poucos pioneiros deixaram essa trilha tão visível e tão mal lida.

Perguntas frequentes

Santos-Dumont inventou o avião?

No Brasil, a resposta escolar costuma ser sim, com o 14-bis de 1906. Internacionalmente, a FAI reconhece o voo dos irmãos Wright em 1903. O que está fora de disputa é outro fato: o 14-bis fez a primeira decolagem pública homologada de um mais pesado que o ar na Europa, sem dispositivo de lançamento.

Onde nasceu e onde morreu?

Nasceu em 20 de julho de 1873, em Palmira, hoje Santos Dumont, Minas Gerais. Morreu em 23 de julho de 1932, no Guarujá, São Paulo.

Qual foi o feito de 1901?

Com o dirigível Nº 6, ele cumpriu o circuito do Prêmio Deutsch: sair de Saint-Cloud, contornar a Torre Eiffel e voltar em menos de 30 minutos. Esse voo o tornou famoso no mundo antes do 14-bis.

Quais livros ele escreveu?

Dois. Dans l'air (1904), conhecido em português como Meus Balões, sobre os dirigíveis. E O que eu vi, o que nós veremos (1918), olhar posterior sobre o voo, a guerra e o que ainda viria.

Ele patenteou o avião?

Não. Depois de encontrar Edison, declarou que não pretendia patentear as aeronaves. Tratou o trabalho como de amador, no sentido de quem não cobrava ingresso nem vendia licença.

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Projetos de Alberto Santos-Dumont

Meus Balões
Meus Balões
Autobiografia de 1904 em que Santos-Dumont narra, em primeira pessoa, a série de dirigíveis até o Prêmio Deutsch em Paris.
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O que eu vi, o que nós veremos
O que eu vi, o que nós veremos
Livro de 1918 em que Santos-Dumont relata o desenvolvimento do voo e projeta o que a aviação ainda faria depois da guerra.
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