Miserere é o livro em que Adélia Prado, já consagrada, pede piedade sem perder o humor. Publicado originalmente em 2013 pela Record, é o oitavo volume de poesia da autora e o último inédito antes do silêncio de doze anos que só se quebraria com O jardim das oliveiras.
A Record chama o conjunto de “pedido de socorro” diante da finitude, dos pecados e dos males da alma — ainda assim com leveza. O título latino da missa (tende piedade) não vira capela. Vira cozinha, velório, pomar e a conta que os filhos lançam no rosto dos pais.
Como o livro está organizado
Os poemas se dividem em quatro seções: Sarau, Miserere, Pomar e Aluvião. A editora nota que a maioria parece cada vez mais econômica: dizer muito com pouco. Em Uma pergunta, pais e mães reconhecem o olhar dos filhos que cobra uma dívida invisível. Em Distrações no velório, a poeta pede a Deus piedade porque está viva e é louca por açúcar.
Essa é a marca da maturidade adeliana: doença e morte entram no poema, mas a visão que sobe da bruma costuma ter graça. O divino não mora só no altar. Mora no tomate da feira, no quarto de costura, na receita, no ofício de escrever. Quem já leu Bagagem reconhece o método; quem chega agora encontra uma voz mais seca, menos tagarela, igualmente encarnada.
A edição Record em circulação tem 112 páginas. Em 2026, o livro ganhou capa nova de Leonardo Iaccarino a partir de tela de Pedro Meyer, no rastro dos prêmios Camões e Machado de Assis de 2024 e dos 90 anos da autora, completados em dezembro de 2025.
Para quem este livro faz sentido
- Leitores da poeta madura, não só dos poemas escolares de Bagagem
- Quem atravessa luto, envelhecimento ou cuidado familiar e quer verso, não autoajuda
- Estudantes interessados em como a fé católica aparece na poesia brasileira contemporânea
- Quem pretende seguir para O jardim das oliveiras e precisa do livro imediatamente anterior
Contexto na carreira
Adélia já tinha falado, em outros momentos, de aridez e bloqueio. Depois de O homem da mão seca (1994), houve intervalo até Oráculos de maio (1999). Miserere fecha outro ciclo: vem depois de A duração do dia (2010) e antecede o maior silêncio editorial da poesia dela no século XXI. Não é “obra de velhice” como ficha; é o ponto em que a economia do verso encontra a piedade sem pose.
A reedição com nova capa não inventa um livro novo. Recoloca o oitavo volume de poesia no catálogo vivo da Record, agora lido à luz do Camões. Quem compra hoje lê o mesmo pedido de 2013 com a biografia pública já alterada pelos prêmios de 2024.
Como ler e o que o livro não é
Leia em seções, não de um fôlego. A economia dos poemas pede pausa. O humor do açúcar no velório não cancela o socorro do título; os dois andam juntos. Não é diário clínico, não é testamento e não é coletânea de frases para rede social — embora alguns versos circulem soltos, o livro ganha quando as quatro partes se encostam.
A Record mantém a edição em português. Na Amazon, o volume físico em capa comum está disponível para quem prefere o objeto; há também edição digital. Miserere é o livro certo quando a pergunta deixou de ser “quem é essa poetisa de Divinópolis?” e passou a ser “o que ela faz com o tempo que resta?”.




