Doze anos depois de Miserere, Adélia Prado voltou com livro inédito. O jardim das oliveiras, lançado pela Record em 2025, reúne 105 poemas novos de uma autora que, no ano anterior, tinha recebido o Prêmio Camões e o Prêmio Machado de Assis. O título evoca a vigília bíblica — o horto, a dúvida, a espera — sem abandonar o chão de Minas.
A editora descreve o volume como síntese e reinvenção: aridez e transcendência, luz e sombra, fé e dúvida, poesia e silêncio. Um dos versos destacados na apresentação corta o recado: “era Deus quem doía em mim”. Depois de uma década sem livro de poemas originais, a dor teológica volta em estado de vigília, não de novidade de marketing.
Do que trata este livro
Os poemas retomam o conflito antigo da obra — sagrado e cotidiano, mistério e lucidez — com ecos metalinguísticos e diálogo com a própria história literária, desde o nascimento de Bagagem. A Record fala em vozes do povo, de Minas, do divino e da vida íntima entrelaçadas com precisão sonora. Não é uma “coletânea de velhice”; é a poeta ouvindo de novo o ofício.
A capa, de Leonardo Iaccarino, parte da tela Cactus (1983), da artista mineira Fani Bracher. O objeto visual conversa com o título: planta de aridez, jardim que não é jardim europeu. A edição tem 144 páginas. Agência Brasil registrou o livro como o primeiro em 12 anos; a Record confirma a data de 8 de setembro de 2025 no ficha técnica em circulação.
Quem lê a sequência Miserere → O jardim das oliveiras percebe continuidade de tom (finitude, piedade, humor residual) e um recuo ainda maior para a origem da linguagem poética. O horto das oliveiras, na tradição cristã, é o lugar da angústia antes da paixão. Adélia usa esse lugar para pensar o verso, não para ilustrar o Evangelho.
Para quem este livro faz sentido
- Leitores que acompanham a autora e esperavam o inédito depois de 2013
- Quem chegou pelos prêmios de 2024 e quer o livro escrito na mesma altura da vida
- Estudantes de poesia contemporânea interessados em metalinguagem e fé
- Quem já tem Bagagem e quer ver o que a voz faz aos 90 anos, não o que a escola já antologizou
Contexto na carreira
Adélia completou 90 anos em 13 de dezembro de 2025. O livro chega, portanto, como obra de nonagenária que nunca saiu de Divinópolis e que, mesmo assim, ocupa o centro da língua portuguesa. O Camões e o Machado de Assis não “explicam” os poemas; apenas mudam a temperatura da recepção. Uma poetisa que a crítica já lia como maior voz viva do Brasil agora lê com o selo máximo do idioma.
Há um risco de ler O jardim das oliveiras só como epílogo. O texto editorial da Record insiste em reinvenção, não em encerramento. A vigília do título é trabalho, não despedida automática. Quem quiser o arco completo ainda precisa de Bagagem no começo e de Miserere no meio.
Como comprar e como ler
A edição em português é da Record. Na Amazon, o volume em capa comum é a via mais direta para comparar preço e disponibilidade no momento da compra. Livrarias físicas e a loja da editora também circulam o título.
Leia depois de Miserere se puder. Leia em voz alta os poemas mais curtos. Não espere diário de 90 anos nem “explicação” dos prêmios. Espere uma mulher que ainda deixa Deus doer no verso e que, do jardim de oliveiras, continua olhando a casa, a fé e a língua com a mesma desinibição de 1976 — agora com menos pressa e mais silêncio.




