Contexto e proposta de Narciso em Tarde Cinza
Narciso em Tarde Cinza é o terceiro volume da trilogia que a crítica e o próprio autor passaram a chamar de Mitologia do Kaos. Publicado em 1965, quando Mautner tinha 24 anos, o romance fecha um ciclo e antecipa questões de identidade, imagem e dissolução que atravessariam toda a produção posterior do escritor e compositor.
O livro fecha um arco iniciado em Deus da Chuva e da Morte (1962) e seguido por Kaos (1963). Nos três títulos, o autor mistura ficção, ensaio e poesia em uma linguagem que ganhou corpo no período em que ele escrevia para jornais, compunha canções e participava da militância cultural dos anos 1960. Narciso em Tarde Cinza é o mais introspectivo dos três, e ajuda a entender a passagem do escritor para a fase que o levaria ao exílio e, depois, à música popular.
A edição em catálogo pela L&PM recoloca o romance ao alcance de novos leitores, em formato prático e com o texto da fase inicial do autor. Para quem pesquisa a literatura brasileira do período, o volume documenta uma geração que pensava o país ao mesmo tempo em que rompia com os modelos de escrita vigentes.
Vale a leitura em sequência com os outros dois romances da trilogia ou como porta de entrada para os livros de memória, como O Filho do Holocausto, e para os volumes que reúnem sua obra completa, relançados em 2019. É um romance curto, denso e coerente com a ideia de Kaos defendida por Mautner: nada de conclusões tranquilizadoras, tudo em movimento.





