O Elefante e a Borboleta é o primeiro livro infantil de Tico Santa Cruz, publicado pela Belas Letras em 2017, com 24 páginas, ISBN 9788581743196 e ilustrações de Carlinhos Muller. A história cabe numa pergunta. O elefante amava a borboleta. Como ela poderia retribuir, se ele vivia preso numa jaula e mal conseguia pôr a tromba para fora, enquanto ela voava livre pelo zoológico, entre as crianças, e podia ir para onde quisesse? Por que ficaria perto da grade?
O contraste é o assunto inteiro. Não há vilão nomeado nem lição numerada. Há um bicho grande sem mobilidade e um bicho pequeno com o céu aberto. O texto, curto de propósito, trata de liberdade e de amor entre desiguais. A Belas Letras e a cobertura do lançamento apresentaram o livro assim: uma história singela sobre o que é ser livre, escrita pelo líder do Detonautas Roque Clube, pai de dois filhos, para crianças e também para adultos que leem junto.
Como o livro chegou à livraria
O anúncio público saiu em 2017, com pré-venda a partir de 12 de outubro, Dia das Crianças, e chegada às livrarias em 31 de outubro. O formato é de álbum ilustrado, em torno de 22 por 26 centímetros, brochura, não de romance de bolso. Carlinhos Muller, que já tinha ilustrado a novela Pólvora em 2014, muda completamente de registro. Na capa, o elefante é uma massa preta sobre fundo azul, com o título em letras claras dentro do corpo do animal e uma borboleta branca no canto. O nome do autor vai no alto: Tico Sta Cruz, na grafia da capa.
Esse desenho ajuda a separar o livro dos anteriores. Clube da Insônia e Tesão saíram do blog noturno. Pólvora é novela de crime, com revólver na capa. O Elefante e a Borboleta não herda esse tom. Usa o mesmo ilustrador para provar que o traço pode servir a outro leitor. Quem entrega o volume a uma criança não está entregando a novela de 2014.
Para quem ele foi escrito
O público declarado é infantil, com adulto por perto. Vinte e quatro páginas não sustentam leitura solitária longa. Sustentam uma leitura em voz alta, uma conversa sobre jaula e sobre quem pode ir embora. O autor não escondeu o lugar de onde falava: já era pai. Isso não transforma o livro em relato dos filhos Lucas e Bárbara. A fábula não usa nome de família. Usa elefante e borboleta.
Há um segundo uso, menos óbvio. Adultos que conhecem o vocalista do Detonautas pelo rock de Outro Lugar ou pelo confronto de Álbum Laranja encontram aqui o ponto mais aberto da obra escrita. Não é suavização de Pólvora. É outro gênero, com outra idade de leitura e outro desenho. A Belas Letras fechou, com este volume, um arco que tinha começado em crônica, passado por conto erótico e por novela policial, e chegado a um álbum de 24 páginas.
O que não esperar
O livro não explica a banda, não comenta Rádio Love Nacional e não substitui um disco. Também não é reedição ilustrada de Clube da Insônia. A pergunta que ele responde é pequena e concreta: o que acontece quando alguém livre escolhe, ou não, ficar perto de quem não pode sair. O restante da carreira de Tico Santa Cruz continua nos shows, nos outros três livros e nas letras. Este fica na estante infantil, com o ISBN 9788581743196 para achar a edição certa.



