Pólvora é a novela policial de Tico Santa Cruz, publicada pela Belas Letras em 2014, com 168 páginas e ISBN 9788581741567. Antes de virar livro, o texto saiu em capítulos curtos no blog do autor. A editora apresenta a obra como narrativa intensa sobre terror, caos, hipocrisia, preconceito, política e serial killer, e o próprio Tico a descreveu, no lançamento, como psicótica, suja e violenta. Não é continuação de Clube da Insônia. É outro pacto: desta vez há enredo, dupla e crime.
A história abre em primeira pessoa. O protagonista e Lore, parceira de assalto e de cama há poucas semanas, entram juntos num roubo. Ela é descrita como linda, provocante e misteriosa. Em meio a noites sem regra, os dois decidem cair no mundo. O livro foi ilustrado por Carlinhos Muller, o mesmo desenhista que anos depois faria O Elefante e a Borboleta, em visual oposto. Na capa preta da edição da Belas Letras, o nome do autor aparece em letra branca rachada, o título em vermelho e um tambor de revólver no centro. Há também uma frase de Mário Prata estampada na edição: “É simplesmente genial.”
Por que este livro existe
Tico já tinha dois livros de texto curto quando propôs a novela. Clube da Insônia, de 2012, e Tesão, de 2013, saíram do blog a pedido de leitores e por desafio da editora. Pólvora inverteu a mão. Em entrevista de feira, ele contou que a Belas Letras esperava mais crônica e que foi ele quem chegou com um romance policial, gênero que a casa ainda não tinha publicado. O livro é, nesse sentido, uma teimosia de autor, não um aproveitamento automático do nome do Detonautas.
O pano de fundo é o Brasil que ele queria cutucar. Nas palavras dele à época do lançamento, Pólvora funciona como ironia e crítica a várias questões do país. Os personagens atravessam cenários em que ficção e realidades sociais, religiosas e políticas se misturam, num tom que o autor chamou de intenso, divertido e perigoso. Isso conversa com o vocalista que, no mesmo período, mantinha os Voluntários da Pátria e escrevia letras de confronto. A novela não é um discurso de palco. É ficção com sangue logo nas primeiras páginas.
O que o leitor precisa saber antes de abrir
O autor fez uma distinção que evita leitura preguiçosa. Disse que o livro veio de dentro da cabeça dele, que cada personagem passou por seus pensamentos e fantasias, e que mesmo assim o protagonista não é ele. Tratar Pólvora como diário do vocalista do Detonautas erra o gênero. É novela. Tem perseguição, traição, sexo e violência explícita. Não é livro infantil e não divide estante com O Elefante e a Borboleta, embora o ilustrador seja o mesmo.
Também não é variação de Tesão. Os contos eróticos de 2013 ficam no território do desejo curto, herdado do blog. Pólvora usa sexo como parte de uma fuga criminosa, ao lado de assalto e de uma crítica social que o autor assumiu em público. Quem compra só pelo nome da banda pode estranhar a ausência de setlist. Quem compra como ficção brasileira policial encontra 168 páginas fechadas, em brochura de 14 por 21 centímetros, na edição da Belas Letras identificada pelo ISBN 9788581741567.
Onde a obra se separa do resto
Na carreira escrita de Tico Santa Cruz, Pólvora é o ponto em que a prosa deixa de ser coletânea e vira narrativa contínua. Clube da Insônia observa a noite. Pólvora empurra um casal para dentro dela, com arma e sem álibi. O limite é claro: o livro não documenta show, não explica a saída de Tchello em 2013 e não serve de introdução ao rock do Detonautas. Serve para quem quer o ficcionista que insistiu com a editora até publicar uma novela que a casa não tinha no catálogo.



