O Linguajar Carioca em 1922 é o retrato que Antenor Nascentes fez da fala da capital quando o Rio ainda era o Distrito Federal. O livreto original, impresso em 1922 pela Süssekind de Mendonça, tem 125 páginas. Não é gramática de ginásio e não é o dicionário etimológico. É um levantamento do vocabulário e do modo de falar carioca, com verbetes curtos, do tipo que cabe numa caderneta de campo.
As entradas mostram o critério. Abafar aparece como furtar um objeto escondendo-o. Beijo-de-moça é a bala de ovo enrolada em papel de seda recortado. Estar a nenen é estar sem dinheiro. Quase não há classe gramatical, nem a etimologia longa que ele praticaria dez anos depois. Quando a origem entra, é exceção, como em formas que ele liga ao inglês. O livro quer o uso de 1922, não a árvore latina da palavra.
O que a segunda edição mudou
Em 1953, a Organização Simões republicou o trabalho como O linguajar carioca, segunda edição, com 217 páginas. O capítulo de abertura passou a se chamar “O falar brasileiro”, e Nascentes refez a divisão do país. Na proposta anterior havia quatro subdialetos: nortista, fluminense, sertanejo e sulista. Na reforma, seis subfalares: amazônico, nordestino, baiano, mineiro, fluminense e sulista, reunidos em dois grupos. É esse mapa, mais do que a lista de gírias, que os manuais de dialetologia ainda citam quando falam em Nascentes.
Ele mesmo freou a pose. Na página 207 da segunda edição deixou a frase que Evanildo Bechara gostava de repetir: “Nisto, como em tudo, no começo é que está a dificuldade. Apareçam os aperfeiçoadores.” O livro se oferece como ponto de partida, não como última palavra sobre o português do Brasil.
A edição do centenário
Em 2023, a Letraria, de Araraquara, publicou uma edição eletrônica do centenário, com organização de Marcelo Rocha Barros Gonçalves e Roberto Leiser Baronas e ISBN 978-65-5434-047-2. A apresentação de Vanderci de Andrade Aguilera trata o texto como clássico da dialetologia e como um jeito de sair das cópias de cópias do original. O download está na página da editora. A imagem desta ficha é a da edição Letraria, em que a capa antiga, “O Linguajar Carioca em 1922”, aparece ao lado do nome de Nascentes.
- 1922 — Süssekind de Mendonça, 125 páginas, o retrato do Rio;
- 1953 — Organização Simões, o mapa dos seis subfalares;
- 2023 — Letraria, edição eletrônica do centenário, com o texto reapresentado.
O leitor de hoje não deve usar o livro como guia de como o Rio fala agora. Palavras caíram, outras mudaram de endereço social, e o próprio autor contava com correção. O valor está no instante fixado: um professor do Pedro II, em 1922, anotando a fala da cidade em que nasceu, antes de o atlas linguístico do Brasil passar de plano a fascículo. Para quem estuda dialeto, gíria antiga ou a história do Rio, é documento. Para quem quer sinônimo ou etimologia, o caminho é outro livro dele.


