Imagem de capa do perfil de Antenor Nascentes
Foto de perfil de Antenor Nascentes

Antenor Nascentes

Antenor de Veras Nascentes

Nascimento: 1886 Rio de Janeiro, RJ
Ver projetos (2)
Professor do Colégio Pedro II e fundador da cadeira 3 da Academia Brasileira de Filologia. Prêmio Machado de Assis em 1962.

Em 1932, a Livraria Francisco Alves pôs na rua o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, com prefácio em alemão assinado por W. Meyer-Lübke. O autor era Antenor Nascentes, então professor do Colégio Pedro II. Na introdução, ele conta o ofício sem enfeite: em 1911, sem conseguir o dicionário de Adolfo Coelho, copiou palavras primitivas do dicionário de Levindo de Castro Lafayette para cadernos próprios. As fichas chegaram a 40 mil. O estudo delas fechou em 30 de setembro de 1931. A redação para a impressão, em 17 de dezembro do mesmo ano.

Quem procura o nome hoje raramente quer uma figura de salão. Quer saber de onde o português tirou uma palavra, como o Rio falava em 1922 e que mapa Nascentes propôs para os falares do Brasil. Antenor de Veras Nascentes nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 17 de junho de 1886 e morreu ali em 6 de setembro de 1972, aos 86 anos. Entre as duas datas, deu aula, fez dicionários e ocupou, desde a fundação, a cadeira 3 da Academia Brasileira de Filologia.

De onde ele saiu

O pai, Dácio de Veras Nascentes, era funcionário da alfândega. A mãe, Paulina Victorina Gutmann, era lavadeira. A Revista da Academia Brasileira de Filologia registra que os dois nasceram de relações extraconjugais de homens brancos com mulheres de origem africana e de condição escravizada. A biografia do Instituto de Letras da UERJ resume a casa numa linha: neto de escrava, infância muito pobre.

Celso Cunha, que o encontrou no magistério do Pedro II, guardou outro detalhe. O pai dava o mínimo para o transporte até o colégio, e o tostão da volta virava livro. Na mesma lembrança aparece uma turma do Ginásio Nacional em que também estavam Sousa da Silveira, Artur Moses e Manuel Bandeira. O dado tira Nascentes do retrato de dicionarista isolado. Ele saiu de uma casa sem folga e sentou na sala de quem depois marcaria a poesia e a filologia no Brasil.

Do espanhol do Pedro II ao português

Em 1902 concluiu Ciências e Letras no Ginásio Nacional, nome republicano do Colégio Pedro II, como aluno laureado. No ano seguinte já lecionava humanidades. Em 1908 formou-se em Direito pela Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro e passou a trabalhar na Secretaria de Estado da Justiça e Negócios Interiores.

A cátedra veio em 1919. Ficou em primeiro lugar no concurso e tornou-se o primeiro professor catedrático de espanhol do Pedro II. A tese foi o Ensaio de fonética diferencial luso-castelhana. Em 1920 saiu a Gramática da língua espanhola para uso dos brasileiros. Em 23 de janeiro de 1928, um decreto o transferiu da cadeira de espanhol para a de português. A troca, feita sem novo concurso, recebeu crítica severa de parte do corpo docente. A resposta que ficou no papel foi o dicionário de 1932.

Universidade e línguas de ofício

Em 1937 assumiu a cadeira de Filologia Românica, criada naquele ano na instituição que a UERJ identifica com a antiga Faculdade La-Fayette, depois Universidade do Distrito Federal. Também deu aula na Universidade Federal Fluminense. Em 1952 o Pedro II o nomeou professor emérito.

Lia os autores gregos e latinos no original. Falava e traduzia alemão, que tratava como instrumento do filólogo, não como enfeite de currículo. A dedicatória do dicionário etimológico nomeia dois mestres do Pedro II, Fausto Barreto e Vicente de Sousa, como quem lhe despertou o gosto pelos estudos da língua. Em 1964, com José Júlio Ferreira de Sousa, publicou uma tradução do Fausto de Goethe. Também assinou relatos de viagem, Num país fabuloso (1933) e América do Sul (1937), fora da prateleira dos dicionários.

O dicionário que atravessou o Atlântico

O volume de 1932 não era um apêndice escolar. Meyer-Lübke, o romanista de Bonn, prefaciou o livro, e o nome de Nascentes passou a circular em Portugal e nos centros que trabalhavam a filologia portuguesa, da Alemanha à Romênia. Em 1933 a Academia Brasileira de Letras deu a essa obra o primeiro Prêmio Francisco Alves. Em 1935 a congregação do Liceu de Goiás lhe conferiu o título de doutor honoris causa. Em 19 de setembro de 1936 o governo português o condecorou com o Oficialato da Instrução Pública.

O tomo dos nomes próprios veio em 1952, também pela Francisco Alves. Evanildo Bechara registrou que esse volume serviu de base ao Vocabulário Onomástico da Língua Portuguesa da Academia, publicado só em 1999. Antes, o Vocabulário Ortográfico de 1941 já tinha pesado na feitura do vocabulário oficial da casa. Décadas depois, Antônio Houaiss organizaria o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa e deixaria o dicionário que o país passou a chamar pelo sobrenome. A tarefa de fundo era a mesma: dizer que palavra existe, como se escreve e de onde veio.

O Rio de 1922 e o mapa dos falares

O outro eixo não cabe num verbete de origem. Em 1922, pela Süssekind de Mendonça, Nascentes publicou O linguajar carioca, um retrato da fala da capital em 125 páginas. Os verbetes são curtos e de uso. Abafar, no sentido de furtar escondendo o objeto. Beijo-de-moça, a bala de ovo enrolada em papel de seda. Nenen, estar sem dinheiro. Na maior parte das entradas não há classe gramatical nem uma etimologia longa. O livro quer a palavra como ela andava na rua.

A segunda edição, de 1953, pela Organização Simões, mexeu no mapa do país. Onde antes havia quatro subdialetos, nortista, fluminense, sertanejo e sulista, passou a propor seis subfalares: amazônico, nordestino, baiano, mineiro, fluminense e sulista, ainda reunidos em dois grupos. Na página 207 dessa edição ele corta a pose do pioneiro: “Nisto, como em tudo, no começo é que está a dificuldade. Apareçam os aperfeiçoadores.”

A gíria brasileira saiu no mesmo 1953. O passo mais largo foram as Bases para a elaboração do atlas linguístico do Brasil, com fascículos em 1958 e 1961, pelo Ministério da Educação. Celso Cunha leu a sequência como uma campanha só: o retrato do Rio em 1922 no começo, o plano do atlas no fim.

Filologia, prêmios e o dicionário que esperou

Na Academia Brasileira de Filologia, fundada em 1944, Nascentes ocupou desde a origem a cadeira 3 e escolheu como patrono o dicionarista Antônio de Morais Silva. Permaneceu nela até a morte. Abgar Renault o sucedeu. A Academia Brasileira de Letras entrou na trajetória por outro caminho: prêmios e a encomenda de um dicionário.

A ABL, mesmo assim, encomendou-lhe o dicionário da casa. Ele concluiu o projeto em 1943. A impressão demorou. Os volumes do Dicionário da língua portuguesa da Academia saíram entre 1961 e 1967. Em 1972, ano da morte, veio o Dicionário ilustrado da língua portuguesa da ABL, em quatro volumes. Uma edição póstuma ainda apareceria em 1988.

Em 1962 a Academia lhe deu o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra. Ele tinha 76 anos. A coleção didática O idioma nacional, com gramática, antologia e volumes para o ginásio e o colégio, ocupou a escola secundária por décadas. Nem todo título dessa série pede leitura agora. O que continua a explicar o nome está em três núcleos:

  • Etimologia — o dicionário de 1932, o tomo de nomes próprios de 1952 e o resumido de 1966, editado pelo Instituto Nacional do Livro;
  • Fala — O linguajar carioca em 1922, a reforma do mapa em 1953, A gíria brasileira e as bases do atlas;
  • Consulta — o Dicionário de sinônimos, reeditado pela Lexikon, e o vocabulário ortográfico de 1941, que entrou na história da grafia oficial.

Quem abre o perfil atrás de “o dicionário do Nascentes” precisa separar essas peças. Origem da palavra, fala regional e escolha de sinônimo não são o mesmo livro. O professor que os fez era carioca, negro, formado em Direito, e deixou a frase para quem viesse corrigir o mapa: apareçam os aperfeiçoadores.

Experiências da comunidade

Avaliações sobre Antenor Nascentes

Veja as opiniões dos leitores e compartilhe sua experiência.

0 avaliações positivas e 0 negativas com comentário.

Relatos publicados

Opiniões dos leitores sobre suas experiências. As avaliações não comprovam fatos nem representam a posição do site.

Ainda não há avaliações com comentário. Sua experiência pode ajudar o próximo leitor.

Para contestar um relato ou solicitar a remoção dos seus dados, entre em contato e informe a página e o comentário.

Compartilhe sua avaliação

Escreva de 60 a 200 palavras sobre esta pessoa ou projeto. Não inclua anúncios, links, insultos ou dados pessoais.

Sua experiência

0 de 200 palavras · mínimo de 60

Carregando verificação humana...

Projetos de Antenor Nascentes

Alguns links podem gerar comissão para o Autoridades.org. Confira o preço e a disponibilidade na plataforma antes de comprar.

O Linguajar Carioca em 1922
O Linguajar Carioca em 1922
Retrato da fala do Rio em 1922, com o mapa dos falares refeito em 1953. A Letraria republicou o texto no centenário.
00%
00%