No Brasil, muita gente digita Houaiss querendo um dicionário. Só depois percebe que o sobrenome pertenceu a um carioca filho de imigrantes libaneses que ensinou português aos 16 anos, foi cassado em 1964, traduziu Joyce e morreu dois anos antes de o volume sair do prelo.
Essa inversão explica a busca. O nome virou instrumento de consulta, mas a pessoa atrás dele acumulou magistério, diplomacia, enciclopédia, política cultural e lexicografia. Quem chega hoje ao perfil de Antônio Houaiss quase sempre quer separar o homem do livro e entender por que um dicionário publicado em 2001 ainda disputa espaço com o Aurélio na mesa de quem trabalha com língua portuguesa.
Quem foi Antônio Houaiss
Antônio Houaiss nasceu no Rio de Janeiro em 15 de outubro de 1915 e morreu na mesma cidade em 7 de março de 1999. Foi filólogo, lexicógrafo, diplomata, tradutor, enciclopedista, crítico literário e, por quase um ano, ministro da Cultura no governo Itamar Franco. O sobrenome, de origem libanesa, costuma ser pronunciado uáiss.
Filho de Habib Assad Houaiss e Malvina Farjalla Houaiss, quinto de sete irmãos, formou-se em letras clássicas na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro. Bacharelou-se em 1940 e obteve a licenciatura em 1942. Antes disso, passou pelo Colégio Pedro II e concluiu o curso de perito-contador na Escola de Comércio Amaro Cavalcanti.
A marca pública dele não é um único cargo. É a combinação rara de sala de aula, Itamaraty, redação, editora e vocabulário normativo. Por isso a busca mistura biografia, dicionário, tradução e política da língua — às vezes no mesmo leitor.
Como um professor de português chegou à diplomacia
Houaiss começou a lecionar português aos 16 anos, ainda em formação. Entre 1934 e 1946, ensinou português, latim e literatura em escolas secundárias públicas do então Distrito Federal. Também participou de bancas de língua portuguesa do DASP e, de 1943 a 1945, ministrou aulas e palestras no Instituto de Cultura Uruguaio-Brasileiro, em Montevidéu, a convite do Ministério das Relações Exteriores.
Aprovado em concurso para o serviço diplomático em 1945, deixou o magistério público dois anos depois, por causa da regra que impedia o acúmulo de cargos. A partir de 1947 serviu em Genebra como vice-cônsul e secretário junto à representação brasileira na ONU. Depois passou pelas embaixadas na República Dominicana (1949–1951) e na Grécia (1951–1953). Entre 1960 e 1964, integrou a representação permanente do Brasil nas Nações Unidas, em Nova Iorque.
No intervalo, de 1957 a 1960, prestou assessoria documental à Presidência da República no governo Juscelino Kubitschek. A carreira exterior e o trabalho com a língua nunca se separaram de todo: ele já publicava estudos de pronúncia, coordenava congressos de língua falada e, em 1960, entrou para a Academia Brasileira de Filologia.
O que a cassação de 1964 mudou na carreira
Com o golpe militar de 31 de março de 1964, Houaiss teve os direitos políticos suspensos por dez anos. O Itamaraty o desligou. Impedido de exercer diplomacia e magistério público, foi para o jornalismo e para o mercado editorial. Em 1964 e 1965, trabalhou como redator do Correio da Manhã. Em seguida dirigiu a Editora Delta, no Rio, e conduziu dois projetos enciclopédicos de grande porte: a Grande Enciclopédia Delta Larousse e a Enciclopédia Mirador Internacional.
A anistia de 1979 devolveu os direitos políticos. Ele não voltou à carreira diplomática. Ficou no terreno em que a cassação o tinha empurrado: livros, vocabulário, crítica, sindicatos e política da língua. Presidiu o Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro (1978–1981) e o Conselho de Administração da Associação Brasileira de Imprensa (1983–1986). Filiado ao PSB, concorreu em 1986 como suplente de senador pelo Rio, na chapa encabeçada por Evandro Lins e Silva; a chapa não se elegeu.
Ulisses, Machado de Assis e a Academia Brasileira de Letras
Afastado da diplomacia, Houaiss entregou em 1966 a primeira tradução integral de Ulisses, de James Joyce, para o português brasileiro, pela Civilização Brasileira. O trabalho, feito em menos de um ano, virou ponto de partida para a leitura do romance no país. Décadas depois, a mesma tradução reapareceu revista, com o projeto gráfico original de Eugênio Hirsch.
No mesmo período, ele se aproximou do cânone brasileiro por outro caminho: pesquisa na Casa de Rui Barbosa, Comissão Machado de Assis, introdução filológica às Memórias Póstumas de Brás Cubas e edições críticas de Machado de Assis. A autoridade aqui não é a de romancista. É a de alguém que lia o idioma por dentro, no vocábulo e na frase.
Em 1º de abril de 1971, foi eleito para a cadeira nº 17 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Álvaro Lins. Tomou posse em 27 de agosto, recebido por Afonso Arinos de Melo Franco. Em dezembro de 1995, elegeu-se presidente da casa para o ano de 1996, no lugar de Josué Montello, e passou o cargo a Nélida Piñon. Entre as metas que anunciou estava atualizar o dicionário da própria Academia, parado desde a edição de Antenor Nascentes, de 1954.
Ministro da Cultura e o Acordo Ortográfico
Em outubro de 1992, com Itamar Franco na Presidência, Houaiss assumiu o Ministério da Cultura, sucessor de Sérgio Paulo Rouanet. Permaneceu até setembro de 1993. A pasta vinha enfraquecida; o cinema brasileiro estava praticamente parado depois do fim da Embrafilme. Na gestão, ele privilegiou patrimônio, audiovisual e laços com Portugal e os países africanos de língua oficial portuguesa. Daquele período saíram a Lei do Audiovisual e a quitação de compromissos da antiga Embrafilme. Depois da saída, foi embaixador do Brasil na Unesco, em Paris.
A outra frente pública, mais duradoura, é a ortografia. Em 1986, Houaiss chefiou como secretário-geral e porta-voz a delegação brasileira no Encontro para a Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa, no Rio. O processo desembocou no Acordo Ortográfico de 1990, assinado em Lisboa. Ele não viveu para ver a reforma entrar em vigor no Brasil. A coincidência é dura: o dicionarista mais associado à unificação da escrita lusófona morreu com o acordo ainda no papel.
O dicionário que ficou para depois da morte
O projeto do Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa começou em 1986, na Academia Brasileira de Letras, com a ambição de superar o Aurélio em cobertura. Parou por falta de dinheiro entre 1992 e 1997. Em março de 1997, Houaiss fundou com Francisco Manoel de Mello Franco e Mauro de Salles Villar o Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia e Banco de Dados da Língua Portuguesa, no Rio, para retomar o trabalho.
Ele morreu com a obra inacabada. A equipe concluiu os verbetes em dezembro de 2000. A editora Objetiva lançou o volume em 2001: mais de 228 mil entradas, centenas de milhares de definições, etimologias e datações, num único tomo de cerca de três mil páginas. Linguistas passaram a tratar o Houaiss como o dicionário mais abrangente do português, em parte porque deixou de marcar só “brasileirismos” e passou a etiquetar também lusitanismos e africanismos. O Houaiss.online mantém hoje a consulta digital, com atualização contínua do instituto que ele ajudou a criar.
- Nascimento e morte no Rio de Janeiro: 15 de outubro de 1915 e 7 de março de 1999.
- Cassação política em 1964 e saída forçada do Itamaraty.
- Tradução de Ulisses publicada em 1966.
- Cadeira 17 da ABL a partir de 1971; presidência da casa em 1996.
- Ministério da Cultura entre outubro de 1992 e setembro de 1993.
- Dicionário lançado postumamente em 2001 pela Objetiva.
O que ainda circula com o nome Houaiss
Quem busca o nome hoje encontra três camadas que não se confundem. A primeira é a biografia: professor, diplomata cassado, acadêmico, ministro. A segunda é a tradução de Joyce, ainda reeditada. A terceira é o dicionário — impresso, eletrônico, escolar, de sinônimos — e a assinatura digital do instituto. Nenhuma dessas camadas substitui as outras.
Há também obras menores que revelam o gosto da pessoa, não só o ofício: livros de gastronomia como Magia da cozinha brasileira e A cerveja e seus mistérios, estudos de bibliologia, textos sobre ortografia e ensaios de crítica. São pistas de um intelectual que tratava a língua como matéria viva, da pronúncia carioca à política do vocabulário oficial.
O ponto prático para o leitor é simples. Se a dúvida é “quem foi”, a resposta passa pela cassação, pela ABL e pelo ministério. Se a dúvida é “qual Houaiss comprar ou assinar”, a resposta está no dicionário e, para literatura, na tradução de Ulisses. O sobrenome virou marca. A biografia explica por que essa marca pesa.



